Rogério Christofoletti
Professor do Depto de Jornalismo (UFSC) e pesquisador do objETHOS

Os ataques do crime organizado e as ofensivas do Estado, na semana passada, atraíram todos os olhares para o Rio de Janeiro. Cenas dramáticas de populares correndo entre as vielas da Vila Cruzeiro e do Morro do Alemão, trocas intensas de tiros, bandos desorientados fugindo pela mata, blindados atravessando barreiras improvisadas, tudo isso em doses generosas nos noticiários. Emissoras de TV e de rádio convocaram “comentaristas de segurança pública”, jornais forneceram detalhados infográficos, portais disparavam headlines a cada minuto, tentando atualizar seu público e até mesmo antecipar os fatos: “Os soldados vão ocupar o morro a qualquer momento”, “O exército vai revidar”…

Não só a mídia brasileira deu total destaque aos acontecimentos no Rio, como os correspondentes internacionais posicionaram-se entre os muros das comunidades e as rajadas de bala. Um repórter fotográfico da Reuters chegou a ser alvejado no ombro. O jornalista da portuguesa RTP, em seus boletins, não hesitou em falar “direto da guerra do Rio”. A força das cenas, a amplitude das ações de policiais e soldados e os resultados alcançados – prisões, mortes e apreensões de armas e drogas – ajudaram a estabelecer o consenso de uma guerra em curso.

Um clichê jornalístico costuma martelar que, na guerra, a primeira vítima é a informação. Ela pode ser distorcida, enviesada, suprimida e até mesmo inventada. Os poucos dias de cobertura têm-se revelado nada fáceis para os jornalistas destacados para acompanhar as ofensivas. Por mais preparado que esteja o profissional, subir ladeiras, esgueirando-se de tiros, vestindo pesados coletas à prova de bala, fazendo passagens ao vivo sem ofegar muito são tarefas que exigem condicionamento físico, equilíbrio emocional, raciocínio rápido e frieza. Não é demais lembrar que, no front, o jornalista é o único que não está armado, que não pode trocar tiros. É um alvo relativamente fácil e a identificação de seu colete pode funcionar mais como ponto de referência, chamariz, do que como alerta, salvo-conduto.

Nas redações, o nervosismo também prejudica a tomada de certas decisões: há muito jogo, inclusive a vida dos colegas nas ruas. A pressa de divulgar amplia muito a margem dos erros e contribui perigosamente para as estatísticas desabonadoras do jornalismo. Como qualquer guerra, a Rio reserva uma série de dilemas éticos para os jornalistas.

Dilema 1: Twitter

Na quinta, 25, alguns portais na internet apressaram-se a informar que o Batalhão de Operações Especiais (Bope) estaria criticando emissoras de TV em seu perfil no Twitter. No Terra, a queixa era dirigida aos helicópteros da Rede Globo e TV Record, que estariam possivelmente ocupando o espaço aéreo reservado à operação ou mesmo transmitindo informações estratégicas, o que poderia ser captado pelos bandidos no cerco. No dia seguinte, o Portal Imprensa e o Meio & Mensagem apressaram a divulgar nota da Rede Globo considerando falso o perfil do Bope no Twitter.

Com mais de 22 mil seguidores hoje, o perfil chama a atenção por outros dois aspectos: só postou 19 tweets e segue apenas três outras contas, nenhuma delas de órgãos oficiais de segurança pública nem instituições governamentais.

Que lições reserva este deslize? A primeira delas é que a reportagem do portal não checou a informação antes de publicá-la; apenas se limitou a passá-la adiante. É um erro grave? Jornalisticamente, sim, pois contraria regras básicas na atividade, entre as quais confirmar dados antes de torná-los públicos. Teve grandes consequências? Não, mas em outras circunstâncias poderia ter provocado mais danos. A questão aqui não é o erro em si, mas a sua natureza. Enganados pela semelhança dos tweets com a linguagem adotada pelos policiais de elite e pela quantidade de seguidores, os repórteres deixaram-se levar pelas aparências, o que pode ser fatal na profissão. Verossimilhança não é veracidade. Isto é, aquilo que parece ser verdadeiro nem sempre o é.

É o primeiro deslize do tipo? Não, não é, e também tem tudo para não ser o último, daí a preocupação.

Dilema 2: Helicópteros

Vamos considerar que a queixa contra os helicópteros das emissoras tenha algum fundo de verdade. Vamos ainda considerar que as cenas transmitidas do alto permitam aos bandidos se reorientar em fugas ou mesmo coordenar novas ações. Neste caso, o jornalismo estará a serviço de quem? Do público que quer saber? Das tropas que tentam coibir o crime? Dos criminosos que se servem disso pela TV? É difícil fazer omeletes sem quebrar ovos, e muito do trabalho jornalístico pode sim atender a interesses que contrariem ao da coletividade. É bom lembrar que na guerra do Rio as milícias e os traficantes não dispõem de aeronaves, e as da TV poderiam auxiliar em seus sobrevôos…

Há limites? Se não há, deve haver. Isto é, há momentos em que repórteres não podem se interpor entre os personagens da cena que estão cobrindo. Caso recente é o da apresentadora de TV que fez entrevista ao vivo pelo celular com o sequestrador da menina Eloá, em Santo André (SP). A polícia tentava acionar o sequestrador para negociar sua rendição e a libertação da refém, mas o telefone estava constantemente ocupado. Sob a alegação de liberdade de imprensa se pode interferir desta forma?

Dilemas 3 e 4: Embutidos e o espetáculo

Como na Guerra do Iraque, os repórteres que cobrem o cerco ao narcotráfico no Rio também acompanham ombro a ombro as tropas que sobem os morros. Agachados, ouvem os tiros zunindo na sua direção. Amparados por coletes à prova de balas, também se entrincheiram. Acompanham a tudo – ou a quase tudo. Estão “embutidos” entre as tropas.

É comum acontecer o contrário: policiais barrarem repórteres. Mas o que se tem visto é uma outra política de informação no Rio desses dias. Há um oficial atuando como relações públicas e conduzindo entrevistas coletivas; o comandante da PM, o secretário da segurança pública e até mesmo o governador dão entrevistas ao vivo; alguns repórteres fazem a mesma vigília dos soldados antes do plano de ataque.

Isso é positivo? Pode ser, se render informações realmente importantes para a população. Pode ser, se estabelecer uma nova relação entre os órgãos de repressão e a mídia, e por extensão a sociedade. Mas também pode provocar efeitos colaterais totalmente indesejáveis, como a morte de jornalistas ou ainda a necessidade de as empresas jornalísticas precisarem fazer concessões às tropas, deixando de informar o que não interessa a elas. Com isso, o interesse público é substituído pelo de um grupo, e a verdade cai por terra.

O dilema de estar embutido ou não na ação policial leva a outro: o que mostrar? Até onde se deve ir para informar ou entreter a população? O que distingue uma cobertura de fôlego da espetacularização da violência? A formação de um pool de cobertura entre jornalistas e policiais não contraria a natureza de atividades tão distintas?

Pelo que se vê, a cobertura da guerra no Rio de Janeiro pode trazer questionamentos e lições importantes para o jornalismo. Independente da geografia, indiferente às linhas editoriais.

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