A luz é para todos

Por Guga Fakri

Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina

Elia Kazanjoglou é um cineasta que marcou a história do cinema americano. Não só por ter feito filmes de grande sucesso, mas também por ter uma vida particular bastante controversa. Nasceu na Turquia em 1909 e foi para Nova Iorque com a família aos quatro anos. Ao longo da carreira de ator e diretor, criou polêmicas com filmes contestadores e teve uma relevante atividade política (fez parte do Partido Comunista americano na década de 30).  Em 1947, interrogado pelo HUAC (House Un-American Activities Committee) – investigação que levou à cadeia vários integrantes do movimento socialista -, entregou vários nomes de companheiros de luta política e foi considerado um traidor. Inclusive por Marlon Brando, com quem trabalhou com sucesso em alguns filmes. Apesar das polêmicas, Elia Kazan – como ficou conhecido – tinha um talento indiscutível para criar sucessos cinematográficos, e não por acaso ganhou dois prêmios Oscar de Melhor Diretor, um deles com o filme A luz é para todos, de 1947.

A luz é para todos é mais interessante se analisado por seu aspecto histórico e não pelo ângulo técnico. Foi pioneiro na abordagem da discriminação racial nas telas do cinema. Lançado no período pós-holocausto, o filme é um discurso contra o anti-semitismo exercido pela sociedade americana. Apesar da abordagem superficial dos personagens, colocou o tema em discussão e foi um sucesso de bilheteria. É uma produção recheada de clichês, de uma época em que os filmes se pareciam com as tele-novelas atuais, com diálogos bem pausados e enquadramentos e seqüências convencionais.

Baseado no livro homônimo de Laura Z. Hobson, o filme conta como o jornalista Phil Green, interpretado por Gregory Peck, se fingiu de judeu para escrever um artigo contra o anti-semitismo nos Estados Unidos. Green e seu filho sofrem com a discriminação e essa experiência permite ao jornalista fazer a matéria sob um ângulo completamente diferente. Para viver um judeu, ele se inspira em um amigo de infância: Dave Goldman (John Garfield), que parece já ter desistido de lutar contra o preconceito. Como toda produção hollywodiana que se preze, não poderia faltar uma comovente história de amor. Green é um galã supercharmoso de cabelo brilhante cheio de gel, e provavelmente fez minha bisavó suspirar. Seu “par romântico” é Kathy (Dorothy McGuire), uma “pequena” que descobre através de seu próprio exemplo que a omissão pode ser um ato preconceituoso.

Assim como no filme, existe um jornalista que também prefere viver uma situação para depois contá-la: Günter Wallraff, que ficou conhecido no mundo todo por ser jornalista e ao mesmo tempo um primoroso ator. Segundo ele, “quem vive e sente alguma coisa em sua própria carne tira conclusões muito mais rápidas e mais decisivas do que se somente tivesse escutado ou lido alguma informação a respeito”. Já se fez passar por várias pessoas para escrever livros-reportagem. Seu trabalho de maior sucesso trata de um assunto muito semelhante ao de A luz é para todos, o preconceito racial contra estrangeiros na Alemanha – especialmente contra turcos. Foi com Cabeça de Turco, onde viveu como um operário turco, que Gunter Wallraff se tornou o autor alemão mais lido do pós-guerra. Ele usa a mentira como instrumento para chegar à verdade, assim como Phil Green.

Diante desse impasse profissional, é preciso que nos perguntemos: um jornalista tem o direito de falsificar sua identidade para obter informações? Difícil responder.

FICHA TÉCNICA

Título original: Gentleman’s Agreement
Produção: Estados Unidos, 1947
Duração: 118 min.
Diretor: Elia Kazanjoglou
Elenco: Gregory Peck, Dorothy McGuire, John Garfield

 

FICHA TÉCNICA

A síndrome da China (The China Syndrome / EUA, 1979 – 117 minutos)
Gênero
: Drama
Direção
: James Bridges
Roteiro
: Mike Gray, T.S. Cook e James Bridges
Elenco
: Jane Fonda , Jack Lemmon , Michael Douglas , Scott Brady , James Hampton

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