Samuel Lima
Jornalista, docente da Faculdade de Comunicação da UnB
É colaborador-docente do curso de jornalismo da UFSC e pesquisador do objETHOS

O imbróglio envolvendo a divulgação de mais de 251 mil documentos pelo site WikiLeaks continua rendendo debate no meio jornalístico, político e nas casas de arapongagem aqui e alhures. Das muitas repercussões, positivas ou negativas, destaco uma delas: a exposição total da nudez do jornalismo investigativo praticado pela mídia tradicional, outrora “rei do bem” na peleja contra o “dragão do mal” representado pelo Estado moderno.

Sem embargo, o site de Julian Assange é uma fonte secundária de informação. Não produz reportagens, apenas publica informações compiladas e repassadas por outras fontes, em geral off, sustentadas por interesses difusos. Até o final da semana passada, somente o jornal inglês The Guardian condenara, em editorial, o cerco que o criador do WikiLeaks estava sofrendo, especialmente quanto à controvertida acusação de “estupro” feita por duas mulheres suecas com as quais ele supostamente transara sem camisinha (sic).

O teórico espanhol Manuel Castells, em artigo publicado no La Vanguardia, considera o caso WikiLeaks como uma espécie de “ícone da polêmica sobre o livre fluxo de informações na internet”. Nesta perspectiva, parace que estamos diante de um ponto de reencontro entre “velha” e “nova” mídias, na vertigem da convergência digital. Alguns setores da imprensa estão claudicando, ante ao furacão Assange, a começar pelo “museu de novidades” cristalizados no discurso da mídia tradicional.

A questão que aflora é uma só: quem de fato “fala” em nome da sociedade? Assange com suas 265 milhões de palavras ou aqueles que, unificados sobre interesses corporativos e/ou geopolíticos operam na sua satanização mundial? A pesquisadora Cleofe Sequeira (in “Jornalismo investigativo”) relativiza o papel do jornalismo investigativo, mas ainda crê em seu poder de “guardião da sociedade”, desde que as “instituições oficiais” funcionem a contento.

O WikiLeaks pulverizou esse mito e, paradoxalmente, associado às empresas tradicionais de mídia, escolhidas a dedo, realizou até aqui o maior vazamento de informações supostamente confidenciais, ditadas pela geopolítica americana ao redor do planeta. As informações foram veiculadas nos principais jornais do mundo, a saber: The New York Times, dos Estados Unidos, El País, da Espanha, Le Monde, da França, The Guardian, da Inglaterra, e o semanário Der Spiegel, da Alemanha.

É do jornalista Jânio de Freitas, uma das poucas vozes a condenar a tentativa de criminalização de Assange e sua WikiLeaks, uma análise fundamental: “É de liberdade de informação que se trata. É do direito dos cidadãos de saber o que seus governos dizem e fazem sorrateiramente, no jogo em que as peças são as comunidades nacionais. É de jornalismo que se trata”. O editorial do The Guardian completa o raciocínio de Freitas:

“O principal crime de que WikiLeaks poderia ser acusado é o crime de ter declarado a verdade à cara do poder. O que está em jogo é nada menos que a liberdade da Internet. Tudo mais é pirotecnia para distrair a atenção da batalha real que se combate hoje”.

A despeito das segundas ou terceiras intenções do site e seu fundador, que jura praticar um tipo de “jornalismo científico” (que “permite ler uma história nas notícias, a seguir clicar online para ver o documento original em que é baseada”), o acontecimento mundial, político-midiático detonado por Assange e seus colaboradores deve deixar marcas profundas na forma de fazer jornalismo, na era da sociedade da informação e do conhecimento.

O que fica patente, num breve olhar sobre a imprensa tradicional, nas diferentes mídias no caso brasileiro, é uma estranha e indiferente apatia. O jornalista Washington Araújo, em artigo recente no Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br) supôs que se o centro político da crise fosse Brasília, e não Washington, a reação teria sido diametralmente oposta – e barulhenta, com capas fartas e muito material editorializado. Talvez não tivesse suscitado, como de resto é o quadro atual, nenhuma atitude investigativa digna de registro. O rei “Midas”, apanhado em flagrante na falta de hábito de investigar seriamente o poder, se quedou nu – e passou a repercutir as acusações que desqualificam Julian Assange e sua WikiLeaks.

Pouco antes de sua prisão, o australiano de 39 anos, programador autodidata, tratado como “jornalista” disse, em tom de blefe ou ameaça, que ainda tem cinco gibabytes de documentos secretos e que vai divulgá-los em breve. O jornalista Carlos Castilho calcula que isto “equivale mais ou menos a uma pilha de documentos em folhas de papel com 45 metros de altura”. Enfim, trata-se de um verdadeiro arsenal para alimentar a polêmica em torno de uma questão extremamente relevante ao futuro da sociedade democrática global: A liberdade de informação é um direito humano fundamental e alicerce de todas as liberdades às quais estão consagradas as Nações Unidas (Resolução nº 59 da Carta das Nações Unidas, 1946).