Mera Coincidência

Roberto Saraiva
Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina

 

O cachorro balança o rabo porque é mais esperto do que ele. Em Wag the dog, algo como balance o cachorro em português, o diretor Barry Levinson mostra como a mídia e o público podem ser facilmente manipulados pelo governo e suas assessorias. Em português, a analogia se perdeu no nome “Mera Coincidência”.

O blues suave de Mark Knopfler, líder do Dire Straits, embala a película, que conta com uma formidável dupla de protagonistas, Robert de Niro e Dustin Hoffman, ambos em atuações impecáveis. Um faz-tudo da Casa Branca, especialista em crises e um produtor de Hollywood, respectivamente.

O presidente dos Estados Unidos teria supostamente abusado sexualmente de uma menininha, bandeirante, às vésperas das eleições. Conrad Brean (De Niro) é convocado às pressas para impedir o massacre dos jornais do dia seguinte. Junto com o produtor Stanley Motss (Hoffman), circula informações sobre uma guerra iminente com a Albânia, que ameaça o modo de vida americano com sua fraqueza, instabilidade e seus terroristas. A história é prontamente engolida pela mídia preguiçosa e incompetente, entrando na ordem do dia.

Qualquer semelhança com o escândalo sexual de Bill Clinton e suas ameaças para cima do Iraque é mera coincidência. As filmagens já haviam se iniciado na época do famoso exemplo.

Levinson explora, com sarcasmo e diálogos inteligentes, a vulnerabilidade do jornalismo que se prende aos releases e declarações oficiais e o prejuízo disso para o público. As contradições de um país que utiliza a guerra para resolver seus mais variados problemas internos, e a total ignorância e descaso do povo americano pelo resto do mundo também são alvo de escárnio do experiente diretor que tem, no currículo, clássicos como “Sleepers – A Vingança adormecida” e “Rain Man”.

No filme, Brean e Motss produzem uma série de acontecimentos, tal qual um filme de Hollywood. Nenhum dos detalhes da imaginária guerra com a Albânia passa despercebido pela dupla e por sua talentosa equipe, que conta com um velho músico, uma especialista em moda e um hábil publicitário. Cada fato novo da história conta com trilha sonora, imagens de estúdio e um cuidadoso trabalho de marketing. As noções de política, jornalismo e propaganda se fundem. As convicções de quem vê o filme são constantemente abaladas com os incisivos questionamentos do personagem de De Niro, segundo quem todas as grandes imagens das guerras americanas não aconteceram de fato e foram feitas em estúdio.

A tática usada pela dupla para atrair os jornais para o conflito, silenciando o escândalo sexual, foi muito simples. Bastou negar qualquer intenção do Pentágono de entrar em conflito com a Albânia para que isso se tornasse a pauta mais importante do momento. Logo uma música-tema para a iminente guerra já estava pronta, no melhor estilo “We Are The World”. Mas a CIA corta o barato dos produtores, simplesmente anunciando o retorno das tropas.

É hora do plano B ou segundo ato. Stanley Motss têm um insight, percebe que a história carece de um herói. Criar esses conceitos faz parte do showbizz que é a política e isso o diverte mais do que tudo. A história vem fácil, um soldado ficou para trás, prisioneiro da guerra que nunca aconteceu. Herói, apelido e jingle providenciados, a popularidade do presidente sobe vários pontos.

Até o nome do indivíduo teve de ser escolhido a dedo, sargento William Schumann, para que combinasse com recém composta a canção old shoe, espertamente adicionada ao acervo da biblioteca do Congresso como sendo de 1930.

Mesmo com as trapalhadas que levam à morte do homem, o presidente é reeleito com uma margem considerável de votos. Na hora de comemorar, Motss começa a exigir o máximo que um produtor pode ganhar por um trabalho bem feito: crédito. Como isso era a única coisa que não podia ganhar, o FBI cuidou para que nunca viesse a ter a chance de contar a história para ninguém.

“Mera Coincidência” é uma comédia repleta de exageros e passagens inverossímeis, mas é assustadora ao colocar em cheque a confiabilidade das informações governamentais circuladas pela mídia.

FICHA TÉCNICA

Título original: Wag the dog
Produção: Estados Unidos, 1997
Duração: 97 min.
Diretor: Barry Levinson
Elenco: Dustin Hoffman, Robert De Niro, Anne Heche

 

 

Mera Coincidência

Por Roberto Saraiva

Jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina

O cachorro balança o rabo porque é mais esperto do que ele. Em Wag the dog, algo como balance o cachorro em português, o diretor Barry Levinson mostra como a mídia e o público podem ser facilmente manipulados pelo governo e suas assessorias. Em português, a analogia se perdeu no nome “Mera Coincidência”.

O blues suave de Mark Knopfler, líder do Dire Straits, embala a película, que conta com uma formidável dupla de protagonistas, Robert de Niro e Dustin Hoffman, ambos em atuações impecáveis. Um faz-tudo da Casa Branca, especialista em crises e um produtor de Hollywood, respectivamente.

O presidente dos Estados Unidos teria supostamente abusado sexualmente de uma menininha, bandeirante, às vésperas das eleições. Conrad Brean (De Niro) é convocado às pressas para impedir o massacre dos jornais do dia seguinte. Junto com o produtor Stanley Motss (Hoffman), circula informações sobre uma guerra iminente com a Albânia, que ameaça o modo de vida americano com sua fraqueza, instabilidade e seus terroristas. A história é prontamente engolida pela mídia preguiçosa e incompetente, entrando na ordem do dia.

Qualquer semelhança com o escândalo sexual de Bill Clinton e suas ameaças para cima do Iraque é mera coincidência. As filmagens já haviam se iniciado na época do famoso exemplo.

Levinson explora, com sarcasmo e diálogos inteligentes, a vulnerabilidade do jornalismo que se prende aos releases e declarações oficiais e o prejuízo disso para o público. As contradições de um país que utiliza a guerra para resolver seus mais variados problemas internos, e a total ignorância e descaso do povo americano pelo resto do mundo também são alvo de escárnio do experiente diretor que tem, no currículo, clássicos como “Sleepers – A Vingança adormecida” e “Rain Man”.

No filme, Brean e Motss produzem uma série de acontecimentos, tal qual um filme de Hollywood. Nenhum dos detalhes da imaginária guerra com a Albânia passa despercebido pela dupla e por sua talentosa equipe, que conta com um velho músico, uma especialista em moda e um hábil publicitário. Cada fato novo da história conta com trilha sonora, imagens de estúdio e um cuidadoso trabalho de marketing. As noções de política, jornalismo e propaganda se fundem. As convicções de quem vê o filme são constantemente abaladas com os incisivos questionamentos do personagem de De Niro, segundo quem todas as grandes imagens das guerras americanas não aconteceram de fato e foram feitas em estúdio.

A tática usada pela dupla para atrair os jornais para o conflito, silenciando o escândalo sexual, foi muito simples. Bastou negar qualquer intenção do Pentágono de entrar em conflito com a Albânia para que isso se tornasse a pauta mais importante do momento. Logo uma música-tema para a iminente guerra já estava pronta, no melhor estilo “We Are The World”. Mas a CIA corta o barato dos produtores, simplesmente anunciando o retorno das tropas.

É hora do plano B ou segundo ato. Stanley Motss têm um insight, percebe que a história carece de um herói. Criar esses conceitos faz parte do showbizz que é a política e isso o diverte mais do que tudo. A história vem fácil, um soldado ficou para trás, prisioneiro da guerra que nunca aconteceu. Herói, apelido e jingle providenciados, a popularidade do presidente sobe vários pontos.

Até o nome do indivíduo teve de ser escolhido a dedo, sargento William Schumann, para que combinasse com recém composta a canção old shoe, espertamente adicionada ao acervo da biblioteca do Congresso como sendo de 1930.

Mesmo com as trapalhadas que levam à morte do homem, o presidente é reeleito com uma margem considerável de votos. Na hora de comemorar, Motss começa a exigir o máximo que um produtor pode ganhar por um trabalho bem feito: crédito. Como isso era a única coisa que não podia ganhar, o FBI cuidou para que nunca viesse a ter a chance de contar a história para ninguém.

“Mera Coincidência” é uma comédia repleta de exageros e passagens inverossímeis, mas é assustadora ao colocar em cheque a confiabilidade das informações governamentais circuladas pela mídia.

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