Aconteceu naquela noite

Felipe Mendes
Jornalista graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina

Ao entrar no ônibus que o levaria de volta a Nova York, o repórter Peter Warne (Clarke Gable) nem imagina que esta prosaica viagem poderia mudar o curso de sua vida, ou pelo menos devolver o emprego que acabara de perder. O “furo do ano” acabava de cair em seu colo, literalmente. A jovem Ellen Andrews (Claudette Colbert) embarcara com o objetivo de ir ao encontro de seu amado, um playboy com quem se casara contra a vontade de seu pai milionário, quando um solavanco do veículo a fez desequilibrar. É a partir desse encontro cômico que Frank Capra conduz Aconteceu naquela noite (It Happened One Night, EUA, 1934), exemplar típico das comédias sociais deste premiado diretor.

Warne não demora a perceber que tem uma grande história em suas mãos. Decide acompanhar a indefesa jovem, mesmo que isso signifique mostrar a garota mimada que o mundo real é bem diferente da redoma em que fora criada. Aos poucos a relação entre o casal evolui do paternalismo até a tensão sexual, que culmina com a desconfiança de Andrews sobre as intenções de seu protetor. “Você é só uma manchete para mim”, responde o repórter, expondo suas reais motivações. Seu objetivo é acompanhá-la em busca de seu amado para poder obter uma matéria exclusiva, relatando desde a fuga até o final feliz. Para tanto, o jornalista usa de um método questionável, a ameaça de delatar a fuga da garota e por um fim em sua grande aventura.

No entanto, a relação entre os dois vai mudando gradualmente. As atribulações da viagem, como a falta de dinheiro e de lugar para dormir, a procura frustrada de uma carona e a ameaça de uma recompensa pela herdeira milionária, acabam unindo o casal. O auge desse novo relacionamento transparece no último trecho da viagem, num ônibus, onde um grupo de músicos anima o percurso. Essa alegria não condiz com o período (1934), anos pós-crise de 29. O desmaio de uma passageira, causado pela fome, resume as dificuldades da época. Andrews, sem saber, dá os últimos “trocados” de um hesitante Warne para o filho da mulher. A essa altura a “esmola” já revela uma mudança de comportamento do personagem, do jornalista cínico para o apaixonado bondoso.

Neste road movie, Capra conta a história de uma maneira simples, com o objetivo claro de entreter, mas que fez desse filme o primeiro a receber os cinco principais Oscars (Filme, Diretor, Ator, Atriz e Roteiro). A habilidade do diretor em transformar fatos prosaicos do dia a dia em um filme fluente e agradável explica o seu sucesso num período crítico da história americana, os anos pós-crise de 29, no qual seus filmes funcionavam como válvula de escape para a dureza cotidiana. Exemplo dessa sutileza é a cena que mostra os viajantes, sem dinheiro, sobrevivendo de cenouras cruas, ou a passagem na qual Warne ergue o “muro de Jericó”, um cobertor pendurado num cordão que divide o quarto dos personagens.

O humor espontâneo que brota da tela é resultado nítido do perfeito entrosamento entre os protagonistas, como transparece no trecho em que Warne apresenta à garota as diversas formas de se pedir carona. A ineficiência do jornalista é humilhada pelo método pragmático da jovem, que levanta a saia e alcança seu objetivo, numa das cenas mais plagiadas do cinema. Além disso, o texto primoroso facilita o excelente desempenho dos atores, principalmente Gable (que anos mais tarde estrelaria E o vento levou…), cujo personagem está sempre com uma resposta espirituosa na ponta da língua, independente da circunstância.

Mas, como acontece em toda comédia romântica, um imbróglio logo atrapalha a consumação da felicidade do casal. É nesse momento que Warne tem a chance de recuperar o seu emprego e de ficar com Andrews ao mesmo tempo. Diante de uma redação lotada, no meio da madrugada, o repórter escreve a matéria, cujo personagem principal é ele mesmo. No jargão jornalístico, isso se chama “morder o cachorro”. Porém, uma reviravolta na história faz com que a matéria de capa não saia. Mas nem isso e nem os desencontros do casal vão ameaçar o desenlace previsível do filme, o que, em se tratando de Frank Capra, é sempre uma virtude.

FICHA TÉCNICA

Título Original: It Happened One Night
Gênero: Comédia Romântica
Tempo de Duração: 100 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 1934
Direção: Frank Capra
Roteiro: Robert Riskin, baseado em estória de Samuel Hopkins Adams
Produção: Frank Capra e Harry Cohn
Música: Howard Jackson e Louis Silvers
Fotografia: Joseph Walker
Direção de Arte: Stephen Goosson
Figurino: Robert Kalloch
Edição: Gene Havlick

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