Rogério Christofoletti
Pesquisador do objETHOS

Um dos maiores prêmios do fotojornalismo contemporâneo acaba de ser dado a um trabalho desconcertante: o retrato de uma jovem afegã que teve nariz e orelhas cortados pelo marido. A fotografia assinada pela sul-africana Jodi Bieber e publicada na capa da Time em agosto do ano passado venceu o World Press Photo. Ousada e agressiva, comovente e revoltante, a imagem correu o mundo por conta da sua contundência e do impressionante alcance da publicação que a estampou nas bancas.

Mas por que o jornalismo recorre a um expediente desses ainda hoje? Afinal, para que serve uma foto dessas?

Há seis meses, quando a foto circulou na capa foi comum ouvir críticas e ataques à revista: foi apelativo, desnecessário e abusivo. Houve quem torcesse o nariz, desviasse o olhar. Claro! A imagem nos atira na cara uma violência ancestral, inadmissível porque difícil de compreender, ao menos para quem não comunga dos mesmos hábitos, das mesmas idiossincrasias. Mas não foi apenas a denúncia de uma tragédia pessoal que garantiu tanta visibilidade para o retrato da jovem Bibi Aisha. O jornalismo também usa figuras de linguagem, e a metonímia é uma delas. Ao tomar a parte pelo todo, jornalistas exibem a violência de uma pessoa como fatia de uma atrocidade maior. A denúncia ganha outros contornos, e o interesse deixa a esfera do particular, espraiando-se para a coletividade, para grupos sociais. O problema deixa de ser da mulher de 18 anos, esquecida entre tantas outras abusadas num país do qual só ouvimos falar nos noticiários. A questão se amplifica e alcança a vizinhança, sob formas mais familiares: é a violência doméstica urbana, é o caso de alguma conhecida, é a cada vez mais crescente indisposição de aceitar relações violentas em casamentos…

De forma muito hábil, a fotografia pega um atalho por uma estética muito atual, a dos retratos de famosos. Nossas revistas parecem vitrines de modelos sorridentes, de saudáveis mulheres postadas em três-quartos, dispostas a dividir conosco a sua intimidade célebre. A foto da afegã sem nariz flerta com esse clichê, mas exibe uma modelo imperfeita, deformada, mutilada. Seus traços delicados, os cabelos negros escorrendo pelos ombros, o véu tradicional, os lábios quase infantis, os olhos grandes e expressivos ajudam a compor uma estampa que se desarmoniza com a ausência de um esperado nariz no meio do rosto. O “ruído”, o “furo” que desmonta a beleza de Bibi Aisha funciona como um gatilho para a consciência do leitor. Agride o bom gosto, interrompe o nosso sorriso, afronta nosso senso de realidade.

Isso ajuda a responder pra que serve uma foto jornalística, ou como o jornalismo pode recorrer a essa linguagem para cumprir suas tarefas.

Embora vivamos cada vez mais num ambiente pasteurizado, preocupado com harmonizações de gostos, cores e estéticas, de maneira a não afrontar a audiência, o jornalismo se coloca diferente. Ele é inconveniente às vezes sim. Chacoalha as pessoas, grita em nossos ouvidos, esfrega imagens indigestas em nossas vistas. O jornalismo não é a melhor forma de bom-mocismo, e há quem já tenha dito que sua função seja “afligir os acomodados e acomodar os aflitos”.

Para o jornalismo, atender ao público não é apenas lhe oferecer o que ele pede; é também satisfazer uma expectativa maior, a de que o jornalismo possa contribuir para um mundo melhor, uma sociedade melhor. Neste caso, mostrar a vítima de uma violência atroz não é apelar ao sensacionalismo, explorar a morbidez de um rosto mutilado; é nos chacoalhar. O jornalismo precisa também desestabilizar. Mas é preciso ter cuidado. Os membros do júri do World Press Photo justificaram a escolha da foto de Bibi Aisha não pelo choque que proporciona, mas porque retrata a violência contras as mulheres de forma digna. Não é a técnica que se sobressaiu no trabalho, mas o fator humano, o cuidado, o zelo, o respeito.

Jodi Bieber, a mulher sul-africana que registrou a tragédia particular de uma desconhecida afegã, já ganhou oito vezes o World Press Photo. Ela conhece o caminho das pedras para vencer um prêmio de fotojornalismo? Talvez. Mas ela sabe muito mais de jornalismo, do papel que esses profissionais têm na atualidade e dos dilemas que enfrentam todos os dias para fazer seu trabalho. Tem ousadia, tem coragem, mas respeita muito a dignidade de quem está do lado de lá da sua objetiva. Esse respeito que alguns chamariam de empatia não é um ingrediente cosmético, superficial e dispensável. É parte importante da ética de bons jornalistas. Da essência de seres humanos.

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