Assassinos por natureza

Por Guga Fakri
Jornalista graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina

Pela história de Oliver Stone, se entende de onde saiu toda a originalidade de Assassinos por Natureza. Nascido em Nova Iorque em 1946, o diretor despertou interesse pelo cinema inspirado por Luis Buñuel e Jean-Luc Godard. Foi aluno de Martin Scorsese, na Universidade de Nova Iorque. Serviu no Vietnam, de onde aproveitou a experiência para filmar Platoon, seu primeiro grande sucesso. Dirigiu JFK e Nascido em Quatro de Julho, filmes que acabaram ligando seu nome a produções de cunho político social. Participou do roteiro de Scarface e O Expresso da Meia-Noite. Toda essa experiência resultou num domínio técnico pouco comum. Em Assassinos por Natureza, Oliver Stone e Robert Richardson (diretor de fotografia) utilizam-se de técnicas de documentário, colorido psicodélico, preto e branco, câmeras de vigilância e até animação, gerando imagens audaciosas que se somam a uma excelente trilha sonora.

Mickey e Mallory (Woody Harrelson e Juliette Lewis) são dois jovens unidos por um grande amor e por um gosto especial pela violência. Após assassinarem mais de 50 pessoas, se tornam o casal mais famoso do país e a principal fonte de audiência do programa “American Maniacs”, apresentado pelo ambicioso jornalista Wayne Gale (Robert Downey Jr.). Os dois são perseguidos por Jack Scagnetti (Tom Sizemore), detetive implacável movido pela fascinação que sente por Mallory. Mickey e sua amada são dramaticamente presos e vão para uma penitenciária dirigida por Dwight McClusky (Tommy Lee Jones). Durante uma entrevista exclusiva para Wayne Gale na prisão, o casal finalmente tem a chance de escapar.

A história é contada sob uma estética exagerada, os personagens são estereótipos insanos da sociedade, o que torna a obra engraçada, apesar de violenta. Como na parte em que a infância traumática de Mallory é representada no formato de seriado de comédia americano. A garota é violentada sexualmente por seu pai (Rodney Dangerfield), que arranca gargalhadas de uma platéia empolgada.

Assassinos por Natureza é considerado um dos filmes mais importantes da década de noventa, e deve muito dessa fama às atuações de seu elenco. Os personagens caóticos são representados magistralmente. Robert Downey Jr., por exemplo, nos mostra a caricatura do jornalista que só está comprometido com a audiência e ignora a ética profissional. Wayne Gale é uma crítica inteligente e divertida a nós, profissionais da mídia.

Talvez a notoriedade de Assassinos por Natureza tenha sido ofuscada por outro filme, lançado no mesmo ano: Pulp Fiction, de Quentin Tarantino, o grande sucesso de 1994. De qualquer forma, os dois filmes representam com genialidade a cinematografia americana dos anos noventa, cuja principal característica é a banalização da violência. Um pouco da semelhança entre ambas deve-se ao fato de o roteiro do primeiro ter saído de uma história escrita por Tarantino em 1988, quando tinha 25 anos. A principal diferença é com certeza o conteúdo. Enquanto Pulp Fiction é puro entretenimento, Assassinos por Natureza é uma sátira da sociedade obcecada pelo mito-celebridade e da mídia faminta por sensacionalismo.

FICHA TÉCNICA

Título original: Natural Born Killers
Produção: Estados Unidos, 1994
Duração: 118 min.
Diretor: Oliver Stone
Elenco: Woody Harrelson, Juliette Lewis, Tom Sizemore

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