Francisco José Castilhos Karam
Pesquisador do objETHOS

No auge de uma sociedade pós-industrial e na chamada era da sociedade da informação e do conhecimento, a mediação do Estado e a representação do indivíduo, diante do crescente campo dos valores tidos como universais mas representativos de grandes ou pequenas “teologias”, de segmentos, de grupos e de indivíduos precisam encontrar, no campo ético, uma validade que seja mais global e mantenha a sociedade humana de pé.

Como há conflitos de toda ordem em uma sociedade de grande complexidade, é normal que haja tensões e conflitos que perpassam a vida social a todo instante. Por isso, o campo da ética redobra sua importância no início do século 21, incluindo a preocupação moral com os distintos papéis sociais, que vão dos exercidos pelo Estado aos do conjunto da sociedade civil; dos lugares ocupados pelas empresas às especificidades das profissões, por exemplo.

O caminho da ética precisa certa convergência, o reconhecimento do outro. É com esta perspectiva que uma ética da comunicação e das profissões nela contidas não existe sozinha. Precisa tanto dos conflitos quanto dos acordos mínimos entre empresas, com seus interesses particulares, e das profissões, com seus valores éticos normativos que dão sustentação, legitimidade e credibilidade sociais a suas finalidades.

É inaceitável, por exemplo, que os bombeiros, diante de um prédio em chamas, chamados a apagar o fogo, argumentem que “está muito quente” ou que “vão se queimar”. Ou que salva-vidas invoquem o direito à própria vida para evitar entrar num mar tempestuoso, argumentando que podem “morrer afogados”, deixando o “náufrago” à “deriva” pessoal. Ou seja, há deveres jurídicos e morais específicos, tanto de profissionais como de empresários, que não podem ser contornados, já que, pelos papéis sociais que desempenham, têm mais conhecimento, mais capacidade e mais técnica para lidar com uma situação de interesse geral, envolvendo compromissos éticos claros e objetivados. Por ocuparem papel singular, são específicos, embora conectados ao todo.

Se temos papéis sociais claramente definidos há um compromisso social de assumi-los, ainda que haja custos. E é porque este papel social é exercido unicamente por aquele indivíduo que está ali, e é a ele que cabe determinada finalidade diante dos outros.

Os profissionais – se tomarmos como exemplo jornalistas, publicitários, relações públicas ou outros setores da Comunicação – assumem uma perspectiva prático-moral logo que passam a exercer a atividade. Os valores morais profissionais em cada uma de tais áreas estão perceptíveis tanto nos códigos de conduta próprios quanto no modus operandi e nos fundamentos, que envolvem uma teoria, uma técnica, uma estética e uma ética específicas diante do conjunto social. É com base em tais perspectivas que se situam a legitimidade e a credibilidade sociais de tais áreas para obter o reconhecimento dos outros.

Da mesma forma, o produto de uma empresa e as relações internas e sua transparência perante o público necessitam um certo grau de responsabilidade tanto no resultado final da qualidade oferecida como no respeito às especificidades e valores de cada grupo/profissão que as compõem internamente. Esta é a razão última de qualquer empresa, que deve apresentar-se “a favor da humanidade”, apesar dos lucros e dos processos competitivos. Por isso, a ética da comunicação – das profissões da Comunicação, em suas especificidades – é essencial. E, por isso, os processos comunicativos são tão importantes dentro de empresas, profissões e sociedades. Os meios de chegar a isso vão desde a comunicação intra-pessoal até os sofisticados produtos tecnológicos que, apresentados em diferentes suportes, carregam conteúdos que devem ser diversos e plurais e, de preferência, estabelecer a controvérsia para que haja maior transparência e convicção ao se assumir determinados valores.

Certamente a co-responsabilidade e os resultados envolvem processos comunicativos qualificados e transparentes, nos quais os distintos atores de uma organização tenham possibilidade e capacidade de debater temas e de expor opiniões, ainda que entrem em conflito com os demais participantes de tal cenário. O processo de comunicação ético, para obter eficácia, depende do convencimento consciente. Do contrário, legitima-se a “terra de ninguém”. E os valores particulares assumem posto de salvaguarda geral, normalmente acompanhados de coerções recorrentes nas relações de Poder, não raras vezes trazendo conseqüências negativas e mesmo trágicas tanto para a vida dos indivíduos quanto para a permanência da democracia.

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