Carla Algeri
Mestranda em Jornalismo na UFSC e pesquisadora do objETHOS

O avanço tecnológico nas comunicações está propiciando cada vez mais a concentração das mídias por poucos grupos econômicos. Comassetto (2007) relata estudos feitos na Inglaterra no início dos anos 90, que apontam que quatro grandes grupos de mídia controlavam cerca de 90% da circulação dos jornais. No Brasil, os três maiores jornais, Folha de São Paulo, Estadão e O Globo controlam a grande imprensa. Em Santa Catarina, o grupo RBS controla os jornais de maior circulação, além de emissoras de televisão e de rádio. Karam (2004) verifica acentuada concentração da mídia e a consequente fusão de vários subsetores, como emissoras de televisão e de rádio, revistas, jornais e outros ramos da comunicação, como telefonia fixa ou celular, redes de computador, e até mesmo empresas de outros setores, como banqueiro, agropecuário ou armamentista.

Ao mesmo tempo em que concentram cada vez mais a produção midiática, essas corporações atuam em sentido contrário, buscando a hipersegmentação (TOFLER, 1980) como diversificação de produtos e como forma de atingir novos nichos de mercado. Assim, a hipersegmentação pode ser entendida de duas formas: a vertical, ou temática, nas quais produtos midiáticos (revistas, jornais, sites, programas de rádio ou de televisão) são direcionados a um público específico, como mulheres, surfistas, adolescentes e negócios, entre outros. Essas publicações podem interessar a pessoas do mundo todo, que queiram informações específicas sobre um segmento. Em contraponto, existe a segmentação horizontal, ou seja, quando publicações generalistas se concentram em uma área geográfica específica, uma cidade, uma região ou mesmo um bairro. Assim, grandes empresas jornalísticas criam veículos específicos em diversas regiões, como forma de ampliar sua área de atuação.

De acordo com Comassetto (2007), a hipersegmentação da qual fala Toffler, aplicada aos grandes conglomerados de mídia, não tem como intenção preservar identidades ou valores nacionais ou locais e nem discutir as problemáticas à luz da realidade política e social das comunidades, mas a tentativa de ampliar o número de consumidores. Geralmente, os produtos midiáticos são estandardizados, ou seja, conteúdos locais em embalagens iguais. Podemos ver esse conceito nos cenários e formatos de telejornais veiculados por uma emissora e suas afiliadas. Indo mais longe, Dênis de Moraes (1998) já observava a “exportação de modelos televisivos” da CNN, cujos formatos dos telejornais, blocos narrativos, concepção dos cenários e até a duração média das notícias eram imitados por redes como a BBC World, a CNN em espanhol e até a brasileira Globo News.

Ainda dentro da tendência da hipersegmentação horizontal, vemos iniciativas locais de mídia segmentada, com pequenos jornais que atendem a cidades ou regiões específicas, e são fruto da iniciativa de empreendedores locais ou mesmo de associações comunitárias. Nesse sentido pode-se pensar que a discussão das problemáticas locais estaria mais nas mãos das pequenas empresas jornalísticas, mais próximas de suas comunidades, mas isso não quer dizer, necessariamente, que essas empresas estariam isentas de vínculos com o poder. Pequenos jornais, emissoras de rádio ou televisão estão mais próximas de suas fontes e dependem mais diretamente de um número reduzido de anunciantes. Esses pequenos jornais enfrentam problemas como falta de estrutura empresarial, precária profissionalização em seu quadro de funcionários, entre outras questões que influem diretamente no fazer jornalístico. Mesmo assim constituem-se em alternativas às redes das grandes corporações. São, na realidade ou potencialmente, um contraponto ao pensamento único, do qual fala Joaquín Estefanía, citado por Karam (2004), de que a passagem do poder político para o econômico geraria a impossibilidade de discussão pública de questões de interesse social e de circulação internacional, “dificultando a liberdade de escolha ou mantendo a escolha em plena liberdade… vigiada” (KARAM, 2004, p. 232). Em conclusão, podemos avaliar que o surgimento de veículos hipersegmentados horizontalmente tem seu espaço no mercado atual, sejam impressos, emissoras de rádio ou televisão, ou mesmo páginas na internet. Porém, esse espaço é tanto melhor aproveitado quanto mais distante de um pensamento único estiver a publicação, quanto mais se diferenciar das demais ao mesmo tempo que se aproxima das temáticas correntes na sua área de abrangência.

Referências

COMASSETTO, L. R. A voz da aldeia: o rádio local e o comportamento da informação na nova ordem global. Florianópolis: Insular, 2007.

Grupo RBS comemora 30 anos em Santa Catarina. ClicRBS. Florianópolis, abr. 2009. Disponível em http://clicrbs.com.br/especial/sc/rbs30anos Acesso em: 28.jan.2010.

KARAM, F. J. A ética jornalística e o interesse público. São Paulo: Summus Editorial, 2004.

MORAES, Dênis de. Planeta mídia: tendências da comunicação na era global. Campo Grande: Letra Livre, 1998.