O Custo da Coragem

Murilo Souza
Jornalista graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina

Quando decidiu pisar nos guetos irlandeses para escrever matérias sobre o comércio ilegal de drogas e o enriquecimento vertiginoso dos barões do tráfico, a jornalista Verônica Guerin tinha uma proposta: contribuir para a diminuição do número de jovens viciados. Destemida e ousada, só percebeu o quanto havia se aproximado dos fatos e personagens envolvidos quando ela própria foi vítima de um atentado a bala que lhe atingiu a perna. Sem se deixar intimidar, seguiu a linha investigativa da reportagem mesmo sob constantes ameaças físicas e psicológicas. Mas em 1996, sua sina acabou sendo a mesma de outros 51 jornalistas naquele ano: perdeu a vida durante o exercício da profissão.

E são exatamente os últimos dois anos de vida da jornalista, desde que começou a escarafunchar becos, bares e mansões atrás dos responsáveis pelos cerca de 15.000 jovens viciados em heroína de Dublin, que aparecem recontados em O Custo da Coragem, sob direção de Joel Schumacher (Por um Fio, Em Má Companhia). A trajetória de Verônica já havia sido levada aos cinemas em Alto Risco (2000), mas os produtores do filme foram obrigados a trocar os nomes dos personagens principais e a modificar partes do roteiro original. Em Alto Risco, Verônica aparecia como Sinead Hamilton e era interpretada por Joan Allen.

O Custo da Coragem começa com o assassinato de Verônica, morta em seu carro ao sair de uma audiência que decidiria a cassação ou não de sua carteira de motorista por causa das inúmeras multas por excesso de velocidade. Na seqüência, uma série de letreiros explica, de forma resumida, o que supostamente teria levado ao assassinato.

Longe de ser um reflexo do que deve ter sido de fato o trabalho de apuração da jornalista, o filme peca por infantilizar algumas situações e por tentar fazer de Verônica um arquétipo de profissional, decidida e ciente de sua “missão”. Um exemplo desse tipo de comportamento que pouco se assemelha à realidade jornalística é quando a personagem aborda algumas pessoas perguntando ingenuamente se elas vendem drogas para jovens. Ou ainda, quando bate na porta da casa de um perigoso e temido chefe do tráfico, vivido por Gerard McSorley, e faz acusações incisivas sobre a origem de seus bens.

Mas graças às atuações de Cate Blanchett (Verônica Guerin) e  Gerard McSorley (John Gilligan), as boçalidades da personagem, heroificada pelo roteiro de maneira forçada, ficam ofuscadas pelo talento interpretativo. A própria continuação da cena em que John se sente desafiado na porta de casa e acaba espancando Verônica é uma boa prova disso.

No epílogo, uma narração em Off distribui um destino para cada um dos envolvidos, e credita ao trabalho da jornalista a queda no número de viciados um ano depois de sua morte. O Custo da Corage, talvez seja apenas um filme com o clichê hollywodiano retratando a vida de uma nobre e meritória jornalista.

FICHA TÉCNICA

Título original: Veronica Guerin
Produção: Estados Unidos, 2003
Duração: 98 min.
Diretor: Joel Schumacher
Elenco: Colin Farrell, Brenda Fricker, Cate Blanchett, Ciarán Hinds

 

 

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