Samuel Lima
Docente da UnB, professor-visitante na UFSC e pesquisador do objETHOS

Os tiros que mataram 12 brasileirinhos e o próprio atirador na escola Tasso da Silveira, em Realengo, Rio de Janeiro, há pouco mais de dez dias, ainda ecoam nas redações, escolas de jornalismo, governos, instituições, parlamentos, lares e bares do país. De imediato, reacenderam a polêmica sobre a proibição do comércio das armas, com a provável realização de novo plebiscito. Do ponto de vista da crítica da mídia, e seu comportamento nessa tragédia, há inúmeros caminhos indicados, no entanto quero chamar a atenção para os nominados “crimes copycat.

A sabedoria convencional atribui à mídia o poder de produzir sentidos, socialmente. Adelmo Genro Filho, um dos grandes teóricos do jornalismo brasileiro, defende a tese de que o “jornalismo é uma forma social de conhecimento, mas não de um conhecimento qualquer, um conhecimento que se amalgama na dimensão singular da vida”. No caso em tela, a força da megacobertura, articulada nacionalmente, mistura sentimentos de solidariedade, indignação, ira cidadã e fervor religioso, com sobras pelo excesso à mimetização daquele dantesco acontecimento.

Depois do massacre de Columbine (EUA), foi o cineasta Michael Moore quem denunciou o chamado efeito “copycat” (imitadores). Lastreada por uma história que valoriza fortemente o belicismo – o porte de armas é preceito constitucional, – os Estados Unidos, um país com forte e admirável cultura comunitária, se viu invadido por uma série de tragédias similares, ceifando dezenas de vidas de jovens dentro do ambiente escolar.

A questão é delicada e envolve um debate público sobre os limites éticos e a responsabilidade, do ponto de vista do interesse público (e não “do público”) dos meios de comunicação. Cobrir a tragédia é parte do compromisso cotidiano da imprensa, mas evidenciar os detalhes sórdidos da trama, satanizando o atirador e, por vias tortas, cumprindo o roteiro pré-definido pelo assassino – corroborado pelos registros deixados. Vi, estupefato, uma reportagem no Jornal Nacional (Rede Globo), do jornalista Eduardo Tchao, tecendo hermenêutica unidirecional a partir de documentos deixados pelo matador: suas ações teriam sido inspiradas pelo Alcorão (?!).

Cristiano Abud (em texto publicado no Viomundo) pondera que seria leviano acusar a mídia pelas atitudes tresloucadas como a do atirador de Realengo. Mas faz um alerta: “A repetição e a espetacularização deles, com infográficos, reconstituições, entrevistas e vídeos exclusivos, passa com certeza uma mensagem, que mentes perturbadas transformam em modelos”. Para Abud, os novos fatos gerados a partir dessa fatalidade no Rio já se fazem sentir: “Já tivemos três casos de copycat – ameaça de bomba (trote) e jovem preso com faca no Rio de Janeiro e assassinato no Piauí. Precisamos de mais?”.

um roteiro comum que une todos esses casos, relembrados por ocasião da tragédia na escola carioca: um jovem, com graves perturbações mentais, fortemente armado e com destreza na mão, entra num ambiente escolar travestido de “anjo da morte” e tira brutalmente a vida de dezenas de crianças e jovens indefesos – e, ato final, se suicida. Foi assim na Virgínia Tech University (EUA) e na Jokola High School (Finlândia) em 2007. A mesma história se repetiu tristemente em Albertville (Alemanha) em 2009. Em todos esses acontecimentos lamentáveis, o assassino planejou midiaticamente seu feito e se transformou, no palco dessa mesma mídia que supostamente os condenou, em “modelo” a ser seguido por mentes com iguais margens de delírio e sociopatia.

No limite, seria possível pensar num pacto entre jornalistas e meios de comunicação, balizado pela ética e interesse público? O jornalista Luciano Martins Costa aposta nessa direção: “No caso desse episódio que ainda choca a opinião pública, a publicação do nome do criminoso não poderia estimular outras mentes doentias a repetir o gesto insano? Não seria o caso de um pacto entre os jornalistas para omitir, daqui para a frente, o nome ignominioso?”.

Ainda que seja, como lembra a ombusdman da Folha de S. Paulo, Susana Singer, “difícil distinguir a informação legítima da tentativa única de comover o leitor em um caso tão trágico como o de Realengo”, é fato que o tom maior da cobertura acabou sendo balizado pelas cores torpes do sensacionalismo. Susana reconhece que a Folha “cedeu a essa tentação na hora de relatar o enterro das crianças: apenas o choro de uma mãe amparada por parentes, o ranger dos carrinhos carregando caixões e o murmúrio das lágrimas contidas quebravam o silêncio com que 11 das 12 crianças mortas no massacre foram enterradas no Rio”. Houve três enterros e o clima certamente foi único em cada ato de despedida.

A dúvida permanece, atroz. Afinal, como fazer para não servir de palco midiático aos assassinos como aquele que foi a 13ª vítima da trágica manhã de 7 de abril de 2011, numa pacata escola municipal carioca, que festejava 40 anos de serviços prestados à comunidade? Uma questão a ser discutida, com zelo e rigor, por empresários, profissionais, pesquisadores e estudantes de jornalismo, em todo país.