O povo contra Larry Flint

Mariana Wachelke
Jornalista graduada pela Universidade Federal de Santa Catarina

Um empresário do meio pornográfico vindo de uma família pobre do interior dos Estados Unidos constroi um império, envolvido num cenário de atritos ideológicos disfarçados pelo controle da moral. O sonho americano de buscar um novo nicho, em plenos anos 70, é possível na biografia traçada pelos passos de Larry Flynt.

O filme é um drama enrustido numa crítica quase cômica à liberdade de imprensa no país. Flynt (Woody Harrelson) administra, junto com o irmão Jimmy (Brett Harrelson – também irmão do ator), uma cadeia de clubes de strip-tease em Ohio, o Hustler Go Go Club. À beira da falência, ele começa a circulação de fotos de dançarinas explicitamente nuas na tentativa de recuperar a freguesia. A ideia se transforma numa revista nacional, acessível para homens da classe média baixa e com uma leitura fácil. Até aquele momento, a concorrente Playboy, de Hugh Hefner, já era um sucesso de vendas e ilustrava textos elitistas.

Um ano depois do lançamento, a publicação alcança seu sucesso em 1975, com a edição de fotos de Jacqueline Kennedy Onassis, nua na Ilha de Skorpios. Logo após a venda de 2 milhões de exemplares, a censura e a direita conservadora, junto com os grupos religiosos entraram em confronto com a circulação da revista e entra em cena secundária Alan Isaacman (Edward Norton), um jovem advogado intrigado pelo caso polêmico de Flynt. Entre os inúmeros processos, Flynt se envolve um anúncio de bebida, anexado ao boato de que o líder religioso mais influente nos Estados Unidos teve relações sexuais com sua respectiva mãe. Entre uma sessão e outra, o argumento de defesa é sempre a liberdade de expressão. Afinal, não é o país onde a liberdade é respeitada acima de tudo?

A postura do roteiro é conservadora e mostra uma faceta triste de Flynt. O diretor Milos Forman – três vezes indicado ao Oscar de Melhor Diretor – faz jus ao seu estilo e combina individualismo, comportamento humano e personagens complexos, como em outros filmes como O Mundo de Andy (1999). O empresário é baleado por um radical religioso e, paraplégico, se envolve com drogas e mora isolado na sua mansão, junto com a sua quarta esposa Althea (Courtney Love), que morre de AIDS. O anti-herói pobre vira milionário, com uma cabeça atordoada digna de latir no tribunal e usar a bandeira nacional como fralda, e perde o controle da vida.

Flynt é um personagem conturbado, mas um tanto ingênuo quando o assunto é interesse político. Após uma de suas prisões, ele cria a “American For Free Press” e compara a violência de uma guerra com o sexo. O que é mais obsceno nas publicações?

Fotos de corpos ensangüentados ou imagens de corpos nus? Entre uma breve relação com a igreja carismática e remodelagem na linha editorial, ele persiste numa estratégia: enfrentar a justiça na luta pela liberdade de imprensa e defesa de fontes. E se convence que “ter dinheiro é poder mudar o sistema”.

O verdadeiro Larry Flynt, com atuais 60 anos, ainda é o editor da revista masculina Hustler e a imagem do sucesso à americana. Em entrevista, o próprio avalia  a interpretação de Woody Harrison perfeita. Antes das filmagens, os dois mantiveram contato e depois continuaram amigos. Entretanto, o empresário realmente se surpreendeu com a personagem de Althea, considerada a alma gêmea e braço direito de Flynt – na época do lançamento foi a maior surpresa do filme por sua similaridade com a dançarina.

O povo contra Larry Flynt ganhou o Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim e recebeu dois Globos de Ouro: Melhor Diretor e Melhor Roteiro. Teve, também, duas indicações ao Oscar: Melhor Diretor e Melhor Ator.

FICHA TÉCNICA

Título original: People vs. Larry Flynt, The
Ano: 1996
Direção: Milos Forman
Origem: Canadá/Estados Unidos
Gênero: Biografia/Comédia/Drama
Duração: 129 minutos
Elenco principal: Brett Harrelson, Burt Neuborne, Courtney Love, Crispin Glover, Donna Hanover, Edward Norton, James Carville, James Cromwell, Miles Chapin, Richard Paul, Vincent Schiavelli, Woody Harrelson

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