Samuel Lima
Docente da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (FAC/UnB). Professor-visitante do curso de jornalismo da UFSC e pesquisador do objETHOS


– A principal pergunta que um jornalista investigativo faz hoje é: onde andará Bin Laden? Você tem uma ideia?

– Evidentemente é uma informação que interessa aos serviços de inteligência e aos governos. Pelo que divulgam, ele está em algum lugar no noroeste do Paquistão, em alguma das províncias froteiriças. Havia rumores na época que eu estava investigando, há 12 anos, que ele sofria de problemas no rim e precisaria de um certo grau de acompanhamento médico, se estivesse vivo. Se ele está vivo ou não ainda é uma incerteza.

O diálogo, travado entre os jornalistas Geneton Moraes Neto e Lowell Bergmann (do New York Times e professor da Universidade da Califórnia) foi ao ar em 09/10/2010, no programa Dossiê Globo News (http://g1.globo.com/videos/globo-news/dossie-globo-news/v/geneton-moraes-neto-entrevista-jornalista-que-virou-sinonimo-de-investigacao/1353876/#).

Resgato esse trecho da entrevista com Bergmann, um dos maiores nomes do jornalismo investigativo americano na atualidade, para elucidar uma questão-chave. Se o paradeiro de Osama Bin Laden era conhecido no meio jornalístico, é fácil supor que os serviços secretos dos EUA o tinham em sua tela, há tempos.

A novidade está na escolha desse momento histórico, “verdade conveniente” construída pelo governo Barack Hussein Obama. O megaespetáculo midiático montado, a partir da liberação da informação pela CNN e BBC – de forte cunho “chapa branca”- seguida de toda imprensa mundial, faz parte dessa estratégia que não começou com Obama e cujo caldo de cultura transcende aos atuais ocupantes da Casa Branca.

A rigor, a história dos EUA no cenário internacional está, irremediavelmente, ligada às guerras, pontuais ou mundiais. A história belicista marca o “império americano”, que carrega sob seus ombros o uso das únicas bombas atômicas jogadas na história da humanidade – no Japão, em Hiroshima e Nagasaki, 6 e 9 de agosto de 1945. Estima-se que 250 mil pessoas morreram, sem contar aquelas que seriam infectadas pela radioatividade e morreriam depois.

Antes do trágico 11/09 de 2001, é fundamental lembrar outro 11/09, de 1973, em Santiago (Chile). O governo democrático de Salvador Allende é vítima de um golpe militar planejado com apoio ostensivo de forças militares americanas. A ditadura de Augusto Pinochet, uma das mais sangrentas da história latinoamericana, matou mais de 3 mil pessoas. Fico nesses dois episódios históricos para reforçar o que vaticinou o bispo Robert Bowman, de Melbourne Beach (Flórida): “Somos alvo de terroristas porque, em boa parte no mundo, nosso Governo defende a ditadura, a escravidão e a exploração humana. Somos alvos de terroristas porque nos odeiam. E nos odeiam porque nosso Governo faz coisas odiosas”. Bowman, um ex- piloto de caças militares durante a guerra do Vietnã, foi citado em artigo recente de Leonardo Boff (http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-morte-de-bin-laden-por-leonardo-boff#more).

A execução sumária e ocultação do cadáver do terrorista mais procurado do planeta, conforme a propaganda da “guerra ao terror” mantida pelos EUA, não despertou ainda nenhuma novidade investigativa, no seara do jornalismo americano ou europeu. Nem mesmo o crime contra a soberania do Paquistão, invadido por um comando high tech da marinha americana (US Navy Seals), inspirou uma cobertura mais crítica. Na primeira versão, vendida por John Brennan, chefe de contra terrorismo da Casa Branca, Bin Laden teria “resistido à prisão, usando uma de suas mulheres como escudo”. Foi o suficiente para gerar capas como: “Covarde até o fim” (“Coward to the end”, do inglês Daily Express – ed. 03/05/11).

As capas dos principais jornais americanos (ed. 02/05/11) refletiam apenas a fonte oficial, a saber: The New York Times (“Bin Laden killed by U.S. Forces in Pakistan; Obama says, declaring justice has been done”); The Washington Post (“U.S Forces kill Osama bin Laden; Obama: ‘justice has been done’”); Los Angeles Times (“U.S. killes Bin Laden” – com linha de apoio ficcional indicando um suposto tiroteio: “Al Qaeda leader dies in firefight near Pakistan capital”. Na versão mais patriótica, o Daily News tascou em letras garrafais, sobre a foto de Bin Laden: “ROT IN HELL” (algo como “Apodreça no inferno”).

Outro ângulo da questão também é muito pouco investigado ou sequer lembrado é o custo financeiro da chamada “guerra ao terrorismo”, a nova cruzada patriótica que justificou o segundo mandato de George Bush Jr. e, ao que tudo indica deve garantir a reeleição de Barack Obama, em 2012. O jornal “Valor Econômico” (ed. 03/05/11) fez uma estimativa: a caçada a Bin Laden teria custado, em 10 anos, a bagatela de US$ 1,3 trilhão de dólares – o equivalente ao PIB da Rússia, a 10ª economia do mundo. Se os números divulgados pelo Jornal Nacional (TV Globo) forem corretos – US$ 3 trilhões – a soma é superior ao PIB da França e muito próximo ao da Alemanha, quarta e quinta economias do planeta.

A versão do suposto tiroteio (Bin Laden teria resistido de arma na mão) durou menos de 24h. Uma pergunta demolidora ficou no ar, sacada por um repórter na coletiva com o porta-voz da Casa Branca: “como ele resistiu se estava desarmado?”. A justificativa para a não divulgação das fotos do terrorista morto reforça a tese de execução sumária. O efeito imediato esperado: a popularidade do governo Obama saltou de 46 para 57%, segundo sondagem de opinião do New York Times.

Para o desembargador aposentado Wálter Maierovitch, presidente do Instituto Giovane Falcone de combate ao crime organizado, a execução de Bin Laden é um ato de vingança, não de justiça. Ele explica: “Obama deu continuidade à doutrina Bush, de dar licença para matar, em vez de capturar e julgar os acusados de envolvimento com o terrorismo Obama aplicou a doutrina Bush. Isso não tem respaldo no direito internacional, embora os Estados Unidos estejam fora da jurisdição do Tribunal Penal Internacional, assim como Israel, Egito, Rússia e Índia”.

Enquanto isso na “sala de justiça” espera-se a chegada do jornalismo investigativo americano, célebre em coberturas como a Guerra do Vietnã, Watergate e outras. Nos escombros das Torres Gêmeas parece também repousar esse gênero nobre do jornalismo, tão essencial à democracia e ao interesse público.



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