Francisco José Castilhos Karam
Professor na UFSC e Pesquisador do ObjETHOS

O que leva a coberturas tão díspares o jornalismo da TV Globo, canal aberto, e o da Globo News, canal pago? Aparentemente, a rentabilidade econômica, a amplitude do público e a necessidade de atender o maior número possível de registro de fatos com versões simplificadas da realidade. Isto traz conseqüências na forma de abordagem de um mesmo fenômeno, acontecimento ou fato. Enquanto o canal aberto está destinado ao grande e heterogêneo público, com publicidade em valores muito altos, e, portanto, sujeito a um jornalismo fast food, o segundo é bancado pelo rendimento do primeiro, propiciando um jornalismo de mais e melhor análise, de mais entrevistas e entrevistados com mais qualidade e mais tempo de análise. E permite programas que, além do texto, trabalham detalhadamente o contexto.

Seria injusto atribuir a todo o jornalismo a designação de superficial – e também ao da própria Rede Globo -, já que lida com o tempo presente e suas diferentes formas de manifestação. Se a sociedade tem um ritmo acelerado, tal ritmo se reflete nas atividades contidas nela. O jornalismo imediato é dirigido a pessoas que, além de diferentes entre si, estão em um ritmo veloz de vida, que pode levar a uma vida também fast food. A informação com tais características é causa ou conseqüência?

O jornalismo fast food que cobriu o assassinato de Osama Bin Laden pouco tem a ver com o jornalismo de contexto e de lenta duração que tratou do mesmo assassinato, embora um possa complementar o outro. Assim, programas como Milênio e outros de entrevistas e de debates, da Globo News, trataram e atualizaram o tema à luz de fatos e de versões controversas e profundas, esclarecendo o contexto da ação e dos precedentes históricos. Isto veio em versões também de ex-agentes da CIA e de ex-integrantes do governo anterior, de George Bush, em parte descontentes com as ações unilaterais e autoritárias de seus comandantes. Veio também, em parte, pelo depoimento de ex-membros da Central da Inteligência dos Estados Unidos da América, nos quais as convicções traídas e mesmo a própria idade contribuem para certo arrependimento de crimes, torturas e assassinatos.

Parece importante o contexto. E, para isso, a diversidade temática necessita diversidade midiática, tanto em propriedade quanto em fontes e formatos. Apesar de importante, o jornalismo segmentado e contextualizado, em grandes mídias e canais pagos, não atende ainda a múltiplos e diferenciados públicos. Tal perspectiva requer mídias massivas e em rede para, coletivamente, potencializar a controvérsia pública, essencial à democracia.

Certamente, as expressões terrorismo e terrorista não são exclusividade nem de fundamentalistas islâmicos nem de Bin Laden…e tampouco de governos momentâneos que agem à revelia da legislação e acordos internacionais. Trata-se de saber quem começou primeiro e se um dia isso vai parar e como realizar as condições sociais para tal. Pela lógica histórica e militar norte-americana, todos devem seguir a democracia, que é a sua, e a liberdade – que também é a sua – o que pode significar que a liberdade e a democracia dos outros não vale nada.

Por exemplo, a liberdade e a democracia de Argentina, Brasil, Chile e Uruguai não valeram nada – ainda que emanadas do Estado e das urnas nos anos 1960 e 70 – porque, para liquidá-las, bastou o patrocínio do governo “democrático” dos Estados Unidos, apoiando e dando sustentação política, militar, instrucional e propagandística para os golpes militares de que todos estes países foram vítimas. E enviando especialistas em tortura, como Dan Mitrione, para ensiná-la na região. Isto vale para centenas de ações, patrocinadas pelos Estados Unidos em todo o planeta – sobretudo a partir da Segunda Guerra Mundial – de invasão, ocupação, torturas, assassinatos e extermínios não só de terroristas, mas de velhos, crianças, bebês, mulheres inocentes e daqueles que utilizam as palavras liberdade e democracia em desacordo com o sentido para elas entendido pelo governo norte-americano.

Assim, há necessidade de conviverem tanto informações factuais, com registros simples, e aquelas que exigem contextualização e aprofundamento, para permitir o esclarecimento adequado ao entorno social de forma mais rápida e consistente. E, para isso, a luta já histórica pela democracia das comunicações no Brasil – envolvendo novos protagonistas, novas mídias, novas narrativas, novas fontes e a capacidade de acesso massivo a elas – está na base da luta por um jornalismo que se estruturou como negócio mas se legitimou como serviço público.

A democratização da comunicação para ampliar o jornalismo como esclarecimento público é relevante. O cenário público de relatos, versões e controvérsias tem necessidade de ampliação; o surgimento e a consolidação de novas mídias também é importante para que não validemos mecanicamente a ação dos outros, de quaisquer outros. Por isso, um dos temas mais importantes para a sociedade brasileira, nesta semana, será o Seminário “Marco regulatório – Propostas para uma comunicação democrática”, promovido, nos próximos dias 20 e 21 de maio, no Rio de Janeiro, pelo Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação. Ele quer nada mais nada menos do que propiciar as condições para que a democracia possa ser discutida e implementada por mais gente. E que o Estado, por dever de ofício, cumpra o papel de favorecer a democracia.

É prejudicial à democracia que significativa parte da grande mídia até o momento tenha manifestado tanto desprezo pelo tema sem contexto algum das propostas e dos debates propostos nos sucessivos eventos promovidos pelo FNDC e por entidades congêneres. E que esteja pautando o governo federal sobre o que devem ser ou não as políticas de comunicação para o país e como tratá-las, com quem tratá-las e quais interesses particulares não devem ser enfrentados.

Da mesma forma, é grave que o governo federal atual aceite que empresas privadas de comunicação condicionem as ações de Estado, responsáveis por dirimir dúvidas, suscitar debates e contemplar propostas que favoreçam a democracia midiática e os processos plurais e controversos do universo jornalístico. Ainda que programas jornalísticos como Milênio e outros aqui e ali favoreçam tal cenário – o que é muito bom -, cabe ao Estado intensificar tal perspectiva em nome da própria democracia real e não de uma qualquer “democracia vigiada”, subproduto do interesse particular que rebaixou, hegemonicamente, o assassinato de Bin Laden e todo o contexto do Oriente Médio à condição de informação fast food.