Sob Fogo Cerrado

Por Nayara D‘Alama
Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

Até onde vai o limite da isenção jornalística? Até que ponto um fotógrafo deve apenas registrar cenas de violenta repressão em meio a um confronto sem tomar partido? A veracidade das informações está acima da luta desesperada e justa de um povo para livrar-se de seu líder ditador? Qual é o limite entre ser jornalista e humano? Todos esses questionamentos sobre a ética jornalística em uma cobertura de guerra são abordados em Sob Fogo Cerrado.

No filme dirigido por Roger Spottiswoode e lançado em 1983, Nick Nolte é Russel Price, um famoso repórter fotográfico que cobre conflitos em vários países, junto ao casal de jornalistas Claire Stryder (Joanna Cassidy) e Alex Grazier (Gene Kackman). A história mescla política, jornalismo, ética e amor, tendo como pano de fundo a revolução que houve em Nicarágua no ano de 1979, quando grupos rebeldes da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) entraram em conflito armado com as forças governistas de Anastasio (Tacho) Somoza para derrubá-lo do poder. Começou um sangrento confronto civil no país, que arrasou cidades inteiras. Price e Claire viajam juntos para registrar os fatos para a imprensa americana enquanto começam a viver um romance, o que pode interferir em sua amizade com Alex.

Price revela sua posição inicial em relação à guerra quando é preso por fotografar uma ação violenta do governo. Um prisioneiro lhe pergunta de qual lado estaria, e o fotógrafo responde: “De nenhum dos dois”. Entretanto, sua opinião vai mudando ao longo de sua estadia no país e ele começa a se identificar com a causa dos rebeldes e questionar suas atitudes como jornalista. Ao presenciar uma ação da FSLN, o fotógrafo vê um soldado sobreviver ao ataque, mas não denuncia ao grupo e logo após isso um membro dos rebeldes é morto pelo sobrevivente, o que começa a fazer Price questionar-se sobre suas ações e ver que elas podem interferir no combate.

O clímax do filme é o momento em que sua ética jornalística é colocada em jogo. O grupo rebelde o leva a seu esconderijo e pede que Price tire fotos de seu líder, já morto, como se este estivesse vivo, para provar ao mundo que o governo estaria perdendo a guerra e impedir que uma ajuda bélica americana chegasse ao país.

Em sua breve estadia no vilarejo que serve como refúgio aos rebeldes, Price fotografa o povo que vive lá. Depois descobre que suas fotos são roubadas e usadas para identificar e exterminar os civis. Price, Claire e Alex são os únicos que sabem a verdade sobre a morte do líder revolucionário. Enquanto Alex defende que deem o furo jornalístico, os outros dois simpatizam com a causa e pensam em encobrir a verdade e ajudar a população a se livrar de seu presidente violento e corrupto, que revogou a constituição e dissolveu a Assembleia Nacional em 1971.

O desfecho da história é bastante surpreendente, já que a morte inesperada de Alex tem consequência direta no confronto. Após fotografar seu amigo ser baleado pelo governo, Price luta para salvar sua vida enquanto tenta entregar o material à imprensa para que seja divulgado. Após a transmissão do fato, Anastasio Somoza perde prestígio e ajuda internacional e foge de Nicarágua. A guerra estava terminada.

Os 127 minutos de trama captam a atenção do expectador do começo ao fim, e saber que a história é baseada em fatos reais torna o filme imperdível àqueles que desejam refletir sobre os limites da ética em situações extremas.

FICHA TÉCNICA

Título original: Under Fire
Ano: 1983, EUA
Duração: 128 minutos
Direção: Roger Spottiswoode
Elenco: Nick Nolte, Gene Hackman, Joanna Cassidy, Ed Harris, Jean-Louis Trintignant
Roteiro: Ron Shelton
Fotografia: John Alcott
Trilha Sonora: Jerry Goldsmith

Advertisements