Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

“Começou o maior campeonato de futebol do mundo!”. “A bola está rolando na competição mais disputada nos gramados do planeta!”. Certamente, você deve ter ouvido isso nesse final de semana, já que teve início o Brasileirão 2011. Em campo, são cem times, divididos nas séries A, B, C e D, enfrentando-se em 38 rodadas e mobilizando torcidas de todo o país, literalmente. É sim a maior vitrine do futebol no país, onde craques são revelados, técnicos são alçados à condição de “gênios”, e outros tantos, lançados ao subsolo do esporte, o oposto da glória. Com essas características e dada a importância do futebol para o imaginário nacional, o Brasileirão pode mesmo ser o maior do mundo. Mas de que forma isso afeta o jornalismo que se ocupa dele? Ou, refazendo a pergunta: O maior campeonato do mundo tem a maior e a melhor cobertura jornalística?

É difícil definir se a cobertura que os veículos nacionais dão à competição seja a mais bem feita do planeta. As últimas duas décadas mostraram grandes avanços técnicos na transmissão dos jogos pelos meios eletrônicos: pela televisão, o público tem acesso a um festival de imagens, bem captadas e caprichosamente editadas; pelo rádio, a emoção do campo chega em áudio mais nítido e mais longe ainda; a internet vale-se de vídeos, da narração em tempo real, da interatividade que aproxima o torcedor da cobertura, de fotos e especiais multimídia. Curiosamente, os avanços na cobertura contrastam com a resistência do próprio futebol em alterar suas regras, e com a dos clubes e das federações em profissionalizar suas gestões.

No jornalismo, não se nota apenas avanços, e algumas preocupações de fundo permanecem. Nem para o público, nem para jogadores e dirigentes, parece nítida a função e a posição dos jornalistas. Só para lembrar a todos: o jornalista não é o fiel da balança num conflito, nem a sua parte mais evidente e importante. É apenas o profissional que se ocupa de fazer “marcação cerrada” nos centros de treinamento e estádios, em busca de informação. É apenas o profissional que corre atrás de notícia como o atacante corre atrás da bola. É tão somente um elemento na cadeia que tenta aproximar o público – independente da camisa que veste – do fato – no campo ou fora dele.

Jornalista pode ter time de preferência? Claro que sim. Na maioria das vezes, repórter esportivo gosta muito de futebol e por que não teria lá seus favoritos? Jornalista pode “confessar” sua equipe do coração? Pode. E ao contrário do que possa parecer, isso pode ser um reforço para a sua credibilidade como profissional, pois não estará “escondendo o jogo”. O dilema do jornalista que torce não é torcer ou expor seu time, mas fazê-lo mantendo uma distância crítica que permita que suas paixões não contaminem a cobertura dos fatos, e desviem-no do seu trabalho. Isto é, a paixão não é vetada, mas ela não pode promover uma amnésia no profissional, fazendo-o esquecer sua efetiva função naquele contexto. Mas como fazer isso? Em casos extremos, jornalistas-torcedores se tornam também cães de guarda de fora dos muros do seu clube: zelam tanto para que as coisas estejam bem que chegam a perseguir cartolas e atletas. Para que tudo esteja bem, seus times precisam estar acima da linha da perfeição. E, é claro, que aqui também temos exageros que desviam os jornalistas de suas funções, pois se “vigiam” mais uma equipe em detrimento de outras.

Como fazer, então? Buscar construir uma relação de equilíbrio, de distância segura que permita o tom crítico mas que também aceite enaltecer aspectos positivos. Não é fácil, mas jornalismo nunca é fácil. O jornalista não pode abandonar sua função de reportar para encarnar o líder de torcida, inflamado que contagia as massas. Nem pode deixar o lado racional (e razoável) para se mover pelo passional. Em outro quadrante, o profissional também deve evitar relações de subserviência, aquelas em que dirigentes, atletas e outros estão acima dos interesses públicos da boa informação. Árbitro de futebol manda no campo e apenas nos 90 minutos da partida. Não é ele quem decide o que o jornalista deve perguntar. Cartola manda no próprio clube e não pode hostilizar jornalistas, ameaçando de fechar os portões aos setoristas. Dirigentes das federações causam grande constrangimento a repórteres exigindo que esses vistam coletes de identificação para cobertura em campo, ostentando logomarcas dos grandes patrocinadores.

É no campo dos grandes interesses, geralmente conflitantes, que o jornalista joga. O futebol, como outros esportes, é polarizador por natureza: opõe equipes e objetivos contrários. Repórteres metem-se no meio desses desejos e precisam dali extrair informação qualificada. Fatores exteriores ao gramado são cada vez mais influentes: os anunciantes governam a grade de programação das emissoras televisivas, que por sua vez ditam os horários das partidas, a despeito dos interesses e conveniência de quem vai aos estádios e paga para assistir; redes de televisão disputam os direitos de transmissão dos jogos, negociando de forma agressiva e desleal, priorizando aspectos que nem sempre são esportivos ou merecedores da atenção do público. O futebol fica em terceiro plano, o esporte e a paixão ficam relegados à matéria combustível dos negócios, a informação se mescla aos espetáculo e perde parte substancial de sua natureza.

É, o Brasileirão 2011 já começou. Com ele, vêm a campo não apenas os milhares de atletas e seus sonhos de vitória, mas também jogos mais subterrâneos, dos quais o jornalista não pode também descuidar. Se isso acontecer, periga ter o gosto amargo de um gol contra.

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