Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

O 1º Seminário Brasil-Argentina de Pesquisa e Investigação em Jornalismo (Bapijor), que aconteceu nos dias 9 e 10 de junho em Florianópolis, apontou ao menos três conclusões, a meu ver: a) não conhecemos a realidade dos vizinhos platinos; b) precisamos conhecer mais essa realidade; c) observando e estudando o caso dos argentinos, reconhecemos mais elementos da nossa própria realidade jornalística.

Promovido pelo Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) e pelo Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (Posjor/UFSC), o Seminário foi um evento distinto já a partir de seu formato: queria aproximar nomes da academia e do mercado, discutindo o jornalismo investigativo de dois países distintos. É bem verdade que quase um chileno impediu o encontro de argentinos e brasileiros. A erupção do vulcão Puyehue lançou nuvens de cinzas que fecharam aeroportos em todo o Cone Sul por dias, e foi numa “janela” de boas condições de vôo que os seis convidados estrangeiros conseguiram pousar em Florianópolis: os jornalistas Eduardo Blaustein (jornal Miradas al Sur), Sebastián Lacunza (Ámbito Financeiro) e Rodolfo Barros (diário Perfil), e os acadêmicos Martín Becerra, Washington Uranga e Adriana Amado, das universidades de Quilmes, Buenos Aires, La Plata e La Matanza. Entre os convidados brasileiros, participaram os jornalistas José Roberto de Toledo (O Estado de S.Paulo e Rede TV!), Claudio Julio Tognolli (revista Consultor Jurídico) e Angelina Nunes (O Globo), e os pesquisadores Gislene Silva, Mauro César Silveira, Samuel Pantoja Lima, Francisco José Karam e Rogério Christofoletti, das universidades federais de Santa Catarina e de Brasília.

Houve quem perguntasse a necessidade de colocar na mesma mesa brasileiros e argentinos, mas uma rápido retrospecto dilui qualquer dúvida: são os países mais influentes da América do Sul; passaram por longos e coincidentes períodos de ditadura militar; redemocratizaram-se e fizeram evoluir suas indústrias jornalísticas; vêm desenvolvendo paulatinamente seus instrumentos e sistemas de investigação jornalística. A Argentina tem 40 milhões de habitantes, um pouco mais que um quinto da população brasileira, e conta com um PIB que corresponde a um quarto dos nossos resultados econômicos. Apesar do desnível, Argentina e Brasil são dois fortes parceiros comerciais, e vêem-se como referências culturais e esportivas locais. Na política, as proximidades se estendem até o fato de os dois países serem repúblicas comandadas por mulheres de temperamento forte.

Embora vizinhos, Brasil e Argentina se conhecem menos do que poderiam. O Brasil é autocentrado não apenas com relação aos platinos, mas sofre de um autismo que o impede de enxergar ao redor. Em termos jornalísticos, nas redações ou nos centros de pesquisa acadêmica, nosso conhecimento fica no nível mais superficial na maioria das vezes. Conhecemos poucos veículos de comunicação, ignoramos especificidades de consumo local, pouco citamos os pesquisadores e teóricos vizinhos. Daí que nos surpreende, por exemplo, a informação de existem hoje 15 jornais diários circulando por Buenos Aires. Eles vão do poderoso Clarín, com quase 280 mil exemplares, a títulos bem menores, com 5 mil. É evidente que, a médio prazo, nem todos sobreviverão, mas chama a atenção a diversidade e a capacidade polifônica de acesso a informação.

Na Argentina, a maior parte das agressões a jornalistas é feita por agentes públicos, segundo aponta pesquisa. Muitos jornalistas locais mantêm trabalhos paralelos com patrocínio de empresas grandes, reduzindo assim sua margem de trabalho para investigações de maior fôlego e alcance. Os argentinos também tentam aperfeiçoar seus métodos jornalísticos. Para Eduardo Blaustein, por exemplo, o jornalismo investigativo de lá foi mais efetivo nos tempos do presidente Carlos Menem (1989-1999) do que é atualmente, quando dispõe de mais democracia e instituições consolidadas. Curioso é perceber que o Brasil também experimentou um episódio marcante de seu jornalismo investigativo dentro desse período, mais especificamente em 1991 e 1992, no ocaso do governo Fernando Collor.

Como os brasileiros, os argentinos também lutam para efetivar suas leis de acesso a informações públicas e novos marcos regulatórios para o setor das comunicações. Sofrem com dilemas éticos e jurídicos, próprios de países em fase de consolidação democrática e estabilização econômica.

Do lado de cá da fronteira, chama a atenção o fato de sermos o país no subcontinente que mais denuncia violações à liberdade de imprensa, o que aponta para um paradoxo: as nações que mais se queixam da falta de liberdade nem sempre são as mais caladas! E o Brasil também é campeão, agora mundial, em processos judiciais contra jornalistas. De acordo com Claudio Tognolli, existem hoje cerca de 5 mil repórteres e editores respondendo ações na justiça, motivados por leis e sistemas jurídicos que facilitam o cerco às redações.

Interessante foi perceber que comparando as realidades argentina e brasileira, em meio ao seminário, ficaram muito reforçados alguns desafios comuns para jornalistas e acadêmicos: do ponto de vista econômico, a dependência dos veículos de comunicação a verbas publicitárias oficiais funciona ainda como constrangimento para seguir adiante em algumas reportagens, e a concentração das empresas no mercado impede uma competitividade que viria a alimentar novas investigações; do ponto de vista político, vigora ainda uma concepção partidária em alguns veículos, fragilizando sua credibilidade junto a público maior, e percebe-se movimentos antidemocráticos que restringem o trabalho dos profissionais da informação; do ponto de vista cultural e corporativo, uma ética e uma estética televisivas atrapalham um pouco o trabalho dos jornalistas argentinos e brasileiros, um tipo de “amnésia” contamina nossas redações e nos impede de retomar casos mais antigos, pouco se reflete sobre a própria profissão, e muitas vezes nos mostramos incapazes de abordar agendas complexas ou distintas do senso comum.

Os desafios são muitos e complexos, pôde-se constatar no Bapijor, desta vez sem assombro. Questões ficaram por ser respondidas, como a de José Roberto de Toledo – O jornalismo ainda é relevante numa era de superinformação? – ou a de Washington Uranga – Se tudo está a mudar, por que também não muda o jornalismo?

Mas essas questões impulsionam jornalistas e pesquisadores a refletir sobre suas próprias condições, a comparar realidades e a construir possibilidades de aperfeiçoamento. Neste sentido, um evento como este Bapijor pôde contribuir.

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