Cimarron

Por Rafael Sprícigo
Acadêmico de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

A partir de 1889, o governo dos Estados Unidos incentiva a colonização do inóspito estado de Oklahoma. Nesta corrida, 800 mil hectares são ofertados gratuitamente, e os homens que a proclamarem serão seus donos.  Entre os que almejam estas terras está Yancei Cravat (Richard Dix), editor e dono do jornal Oklahoma Wingwam. Juntamente com sua esposa e filho, ele migra para a cidade fictícia de Osage, onde planta as raízes de seu jornal.

Defensor da igualdade e dos direitos indígenas, Yancei passa a história entre participações heróicas e desaparecimentos. Seu trabalho no jornal é frequentemente substituído – e permanentemente, como se vê no final – por sua esposa Sabra Cravat (Irene Dunne) quando ele decide aventurar-se em novas corridas por terras.

Yancey é, em parte, o que deveria se esperar do homem da imprensa. Um cidadão honesto, que valoriza a consciência limpa em sua relação com o dinheiro. Determinado e corajoso, ele afronta tudo aquilo que ameaça a liberdade de imprensa, a igualdade e a exploração das minorias. Nenhum preconceito se sustenta a partir de sua fala: “todos têm o direito de lutar por sua existência”. Apesar de seu julgamento não apresentar juízos de valor, seu comportamento eufórico, em alguns casos, se apresenta como um paradoxo em sua personalidade.

Ganhador do Oscar de Melhor Fotografia em 1931, Cimarron é uma amostra de como os gostos e a sociedade mudaram. Durante o horizonte de 40 anos, somos convidados a ver o pequeno vilarejo de Osage se transformar em uma grande metrópole entre os anos 1889 e 1929, alimentado pela terra farta e a descoberta de petróleo na região.

Contudo, mesmo as quatro décadas não são capazes de fazer com que conheçamos bem os personagens da história. Suas personalidades continuam um campo raso durante todo o tempo, sendo pouco construídas. Nesta superficialidade também se incluem as relações interpessoais e os hábitos da sociedade na época. Apesar deste deslize, é possível identificar alguns estereótipos vigentes no período, como o jovem negro que recebe a chance de sair da casa de seus amos para tentar sua própria vida e morrer como herói, o vendedor judeu que vaga pela cidade com suas quinquilharias e as mulheres da alta sociedade.

Cimarron é um filme bastante crítico para sua época, alargando o campo de visão e reflexão. O julgamento de Dixie Lee (Stelle Taylor), uma prostituta da cidade de Osage, é um exemplo disso. Sem ter advogado que aceitasse trabalhar em sua defesa, Yancey faz um argumento em seu favor, afirmando que ela não é culpada por sua “queda moral”, mas sim a sociedade machista que a impedia de conseguir um trabalho “honrado”.

Quanto à relação tempo e jornalismo, é possível ver os tipos móveis e a prensa sendo usadas pelo, ainda vigente, tipógrafo. Sob o aspecto tecnológico, está presente o telégrafo, que recebe todas as informações vindas de Washington. Ainda sob os holofotes estava o automóvel com motor a combustão, que chegava a alcançar seus impressionantes 60 quilômetros por hora.

Cimarron é um bom filme, mas seus sobressaltos de tempos em tempos e a falta de narrativa fazem dele peças reunidas sem uma junção atraente.

FICHA TÉCNICA:

Gênero: Western
Duração:
123 min
Origem:
EUA
Ano:
1931
Estúdio:
RKO Radio Picture
Direção:
Wesley Ruggles 
Roteiro:
Edna Ferber
Cor:
Preto e branco
Elenco:
Richard Dix, Irene Dunne, Estelle Taylor, Nance O’Neil, William Collier Jr, Rosco Ates, George E. Stone, Stanley Fields, Robert McWade, Edna May Oliver, Nancy Dover, Eugene Jackson