Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Uma rápida passada pelos meios de comunicação ao longo da semana permitiu entrever ao menos três episódios em que a mídia ficou refém de suas próprias ânsias: foi anunciada a morte de um promoter que continua vivo; os veículos se surpreenderam com a possível reviravolta num escândalo sexual internacional; e os meios passaram a condenar um nadador por um controverso teste positivo de doping. Aparentemente desconexos, os três casos reforçam um comportamento endêmico nas redações e cúpulas diretivas das empresas jornalísticas: a pressa desmedida que acarreta em erros e desinformação.

Na manhã de terça, 28 de junho, portais noticiosos anunciaram a morte do promoter de celebridades Amin Khader. A “notícia” era curta, sem detalhes do ocorrido, e a informação era atribuída a um amigo, David Brazil. Houve quem se emocionasse ao vivo em programas televisivos, assinando o recibo do hoax. Poucas horas depois, soube-se de que se tratava de um boato, mas já era tarde demais. O anúncio da morte foi repassado ao público sem a esperada e obrigatória confirmação por parte de repórteres. Uma frase difundida no Twitter por um amigo foi o suficiente para evidenciar a fragilidade do esquema de cobertura de celebridades.

Dois dias depois, vem à tona a informação de que o campeão mundial e olímpico Cesar Cielo e outros três outros nadadores tiveram “resultado adverso em antidoping”. Parte da imprensa especializada, entre mal informada e “sedenta por justiça”, fecha o cerco em torno da maior estrela da natação, iniciando um processo de “fritura”. Os resultados alcançados por Cielo são colocados sob suspeita, mesmo havendo controvérsia sobre como a substância proibida pela comunidade esportiva teria sido detectada nos testes. Os atletas alegam contaminação de suplemento alimentar por parte de uma farmácia de manipulação. Mesmo diante de informações conflitantes, alguns comentaristas esportivos não deixam por menos: por que tratar Cesar Cielo diferente? Se ele se dopou, é preciso desmascará-lo. Nas redações, parece não existir inocência. Nem sua presunção.

Na mesma sexta, 1º de julho, um caso mundialmente ruidoso voltou às manchetes, e jornalistas e o público se surpreendem com a reviravolta no caso Dominique Strauss-Kahn. A camareira que havia acusado de estupro o ex-diretor-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) teria mentido às autoridades que acompanham o caso. O novo dado faria erodir a condenação midiática das últimas semanas e que provocaram a prisão de Strauss-Kahn por um mês e meio em Nova York. Desta vez, o estrago veio de redações de veículos internacionais, demonstrando não ser uma prerrogativa nacional cometer abusos “em nome da informação”.

Contemporâneos, os casos Amin Khader, Cesar Cielo e Strauss-Kahn são exemplares de um desvio que contamina jornalistas e seus veículos. A ansiedade de tornar públicas as informações tem feito com que seja dispensada uma etapa imprescindível do processo jornalístico – a confirmação de dados – e que seja esquecida uma postura essencial para o jornalismo – a presunção de inocência. Com isso, difundem-se relatos que não são verdadeiros ou são mal apurados, gerando engano e desinformação. A mentira, a falsidade e a história distorcida emergem com vigor, colocando em xeque os fundamentos do jornalismo, sua razão de existir e de se manter relevante socialmente. Com isso, espalham-se versões sustentadas por prejulgamentos, condenações prévias que mais formam opiniões do que informam. O jornalismo deixa de lado sua função de possibilitar ao público maior compreensão da realidade para se guiar por paixões que turvam o entendimento. Em nome da crítica gratuita e implacável, do reforço negativo.

O mais preocupante é que a pressa já é um fator constituinte do jornalismo, que o permite avançar e buscar padrões mais elevados de prestação de serviço, mas também causa efeitos colaterais que corroem sua credibilidade. Conforme já diagnosticou Sylvia Moretzsohn, a velocidade se torna um fetiche, contaminando profissionais de todas as partes e ditando os rumos do processo informativo, bem como o uso dos recursos ali incidentes. Pior: o que se apresenta como diferencial competitivo paradoxalmente se revela fragilidade, inconsistência, defeito; e ganha força para se tornar padrão que compromete efetivamente a qualidade.

É claro que jornais e portais não podem deixar de dar notícias; é evidente que jornalistas e veículos precisam manter o senso crítico em todas as coberturas. Mas daí a publicar qualquer informação sem a devida checagem, e a inflamar seus públicos com prejulgamentos, destilando ódio e insuflando à perseguição já é demais.

Os três episódios da semana que passou chamam a atenção de todos para uma preocupação que bem poderia se tornar uma prioridade no jornalismo: implantar sistemas de controle para garantir a qualidade da informação. São muito bem-vindos programas de redução de erros nas redações, esforços para intensificação das etapas de apuração de dados, e ações que fomentem a discussão ética em torno dos valores que realmente devem interessar aos jornalistas e a seus públicos. Não devemos nos enganar: novos deslizes voltarão a acontecer, mas trabalhar para reduzir a sua frequência e alcance pode ser uma boa saída para a subsistência do jornalismo.