Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

O maior grupo de comunicação do país, as Organizações Globo, anunciou no último final de semana o que chama de seus princípios editoriais. O documento sintetiza as diretrizes jornalísticas que orientam os veículos do conglomerado na TV, rádio, jornais, revistas, e internet, e está sendo amplamente divulgado nesses meios. Mas onde está a novidade? Está mais no lançamento do documento do que em seu teor propriamente dito.

“Princípios editoriais das Organizações Globo” é apresentado por uma carta dos irmãos Roberto Irineu, João Roberto e José Roberto Marinho, controladores do grupo que até então não contava com uma normativa ampla e clara para os seus veículos jornalísticos. Os signatários do documento reconhecem que “gerações e gerações” de jornalistas já praticavam antes esses mesmos princípios, mas de “maneira intuitiva”. A formalização das diretrizes é a novidade, já que antes desse documento havia apenas o documento “Visão, Princípios e Valores”, 1997, mais genérico e corporativo. Não se trata de um manual de redação, advertem, mas pode auxiliar na elaboração de guias semelhantes mais específicos.

Considerando a influência e a amplitude da Globo, estava na hora, afinal outras organizações jornalísticas já manifestaram publicamente as bases de seu trabalho. No exterior, o exemplo mais evidente é o da BBC, cujas guidelines são públicas, atualizadas frequentemente e ajudam a pavimentar a sua credibilidade. No Brasil, o Projeto Folha, dos anos 1980, é o mais bem sucedido.

O documento das Organizações Globo é relativamente longo: tem 28 páginas, com uma rápida definição de jornalismo e seções que descrevem “atributos da informação de qualidade”, orientações de comportamento para jornalistas, e “valores cuja defesa é um imperiativo ao jornalismo”. Com esse tamanho e nível de detalhamento, é possível que a normativa global seja lida por poucos além dos diretamente interessados, mas esta é uma questão secundária agora. Mais importante é que o conglomerado sistematize suas diretrizes e as torne públicas, sendo mais transparente em seus procedimentos e permitindo às audiências dialogar mais sobre eles. É “um compromisso com o público”, conforme reconhecem os irmãos Marinho no documento. Uma iniciativa que deve ser brindada, mas que poderia ter sido há mais tempo, é verdade…

Para as Organizações Globo, jornalismo é “o conjunto de atividades que, seguindo certas regras e princípios, produz um primeiro conhecimento sobre fatos e pessoas”. É, então, uma “forma de apreensão da realidade”, noção que não dá conta da complexidade do que chamamos hoje de jornalismo, mas que ao menos sinaliza um entendimento.

O documento é mais reducionista em outra seção, a que define as qualidades da informação de qualidade. São apenas três os atributos – isenção, correção e agilidade -, que são destrinchados em princípios que apontam para apartidarismo, laicidade, independência editorial, transparência, não parcialidade, interesse público, entre outros valores. Hoje, com complexos sistemas de gestão de qualidade, sabemos que o tripé das Organizações Globo não cobre todas as dimensões qualitativas da informação jornalística; a questão da qualidade jornalística é muito mais profunda…

Os “Princípios Editoriais das Organizações Globo” também posicionam o grupo no cenário das plataformas da internet, reforçando as orientações dadas em setembro de 2009 – para proteger informações exclusivas e direitos autorais – e preparando o terreno para políticas específicas de seus veículos. De quebra, o documento também reafirma a crença da Globo em outros sete valores: democracia, liberdades individuais, livre iniciativa, direitos humanos, república, avanço da ciência e preservação da natureza.

Como já dito, os princípios editoriais das Organizações Globo surpreenderam mais por seu anúncio do que por seus conteúdos. Por que o conglomerado com quase nove décadas de existência só agora formalizou sua carta de princípios ao público?

O documento reputa essa necessidade à consolidação da era digital. Ela “obriga a que todas as empresas que se dedicam a fazer jornalismo expressem de maneira formal os princípios que seguem cotidianamente”. Preocupação prática: separar o joio do trigo, sendo preciso definir o que é jornalismo e que jornalismo os veículos do grupo fazem.

Sim, este é um momento muito distinto para o campo da comunicação. Os avanços tecnológicos e as mudanças culturais das últimas décadas transformaram as empresas jornalísticas, os profissionais da área e os públicos; redefiniram o território jornalístico.

Mas outros fatores podem ter levado as Organizações Globo a tornar mais transparentes seus alicerces editoriais. Do ponto de vista da governança corporativa, o documento deixa os acionistas mais seguros com relação aos valores intangíveis do grupo: marca, credibilidade e imagem da organização ficam mais nítidas. É evidente que a inexistência de um documento como este nunca impediu que a Globo atraísse investidores e bem conduzisse seus negócios. No entanto, seu lançamento reforça o balanço social da empresa e o conjunto de outras iniciativas que transcendem seus resultados contábeis. As políticas editoriais contribuem para dar mais transparência às operações do grupo, e transparência é um valor cada vez mais imprescindível para o mundo dos negócios.

Do ponto de vista mercadológico, até mesmo a crise que manchou a atuação da News Corporation na Inglaterra faz parte do contexto da emergência do documento da Globo. O uso de grampos ilegais por jornais de Rupert Murdoch fechou o News of the World, provocou demissões e prisões, e enxovalhou a credibilidade do conglomerado. O escândalo está longe de terminar e suas consequências são apenas imaginadas. No centro da crise está em jogo o maior ativo das organizações jornalísticas: credibilidade. Neste setor, ela está diretamente ligada a outros fatores como a prestação de bons serviços e à oferta de bons produtos, mas também às boas práticas de seus profissionais. Não é à toa que o documento das Organizações Globo comece com uma definição do que considera jornalismo. Sem essa nitidez, atividades semelhantes podem se confundir com ele, e representar ameaça competitiva. O fato é que os mercados se protegem. A News Corporation está na berlinda? Antes que esse gigante arraste consigo a toalha e os pratos, é melhor preservar a mesa. Reforçar o jornalismo como atividade e negócio.

A crise dos grampos ingleses pode não ter sido determinante para o lançamento das diretrizes editoriais do grupo brasileiro, mas ela faz parte do contexto em que a Globo (com o inevitável trocadilho) atua como global player.

É certo esses princípios jornalísticos não alteram a maneira como os veículos Globo fazem jornalismo. Apenas tornam seus fundamentos mais transparentes. O desafio, portanto, não é seguir as diretrizes ali desenhadas, mas sim avançar no diálogo com os públicos, ampliando a via da interação e da participação. As audiências não são mais as mesmas. Tempos e hábitos de consumo de informação também são outros. Os públicos já não se conformam em apenas receber conteúdos. A equação da comunicação perdeu suas constantes e ficou recheada de variáveis. O lançamento dos “Princípios Editoriais das Organizações Globo” pode significar um lance de disposição para uma nova relação entre o conglomerado e seus públicos. Parece muito para um simples documento, mas as implementações de políticas editoriais e de uma nova cultura de relacionamento com o público vão além de palavras. Dependem mais de convicção, vontade e ação.