Todos os Homens do Presidente

Por Clayton Haviaras Wosgrau
Jornalista  graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina

Em 1972, em meio à campanha presidencial norte-americana, quando o então presidente Richard Nixon tentava sua reeleição, cinco homens invadiram a sede do Partido Democrata, situada no edifício Watergate, em Washington, e roubaram algo em torno de dois mil dólares. Algum tempo mais tarde, o inocente assalto se revelou numa sinistra operação de instalação de escutas na sede dos democratas. Pior ainda: essa operação de sabotagem seria apenas mais uma entre as várias realizadas por pessoas ligadas direta ou indiretamente ao Partido Republicano e ao presidente Nixon, desde o início de sua campanha para  a reeleição. No dia nove de agosto de 1974, os norte-americanos assistiam pela televisão o pedido de renúncia do carismático presidente, no meio de seu segundo mandato.

Toda essa balbúrdia na política americana aconteceu basicamente em função da persistência e do incansável trabalho de investigação de dois jovens repórteres do jornal Washington Post: Carl Bernstein e Bob Woodward. Eles transformaram seus dois anos de pesquisa e investigação no livro “Todos os homens do presidente”, que em 1976 foi roteirizado pelo escritor William Goldman e filmado por Alan J. Pakula.

Estrelado por Dustin Hoffman (Bernstein) e Robert Redford (Woodward), o filme pode ser considerado um manual para qualquer jornalista que queira aprender o mínimo sobre seu ofício. Desacreditado pelos próprios diretores do Post, tanto que os outros jornais praticamente ignoraram o assunto por um bom tempo, Bernstein e  Woodward exibiram as mais variadas técnicas de busca de informação para mostrar que o simples furto era, na verdade, uma trama digna de James Bond. Sabiam exatamente que papel representar frente ao entrevistado em cada caso, em cada situação. Quando faziam perguntas constrangedoras às fontes por telefone, eram sempre serenos e sem inflexões no tom de voz. Quando  conversavam com alguma garota bonita, eram sedutores e agradáveis. Se a pessoa demonstrasse nervosismo ou tensão, a isso contrapunham calma e paciência.

O trabalho de Woodward e Bernstein integra um tipo de jornalismo que hoje parece cada vez menos existir. É de uma época em que o tempo físico para se produzir uma reportagem com o mínimo de profundidade e apuração dos fatos era considerado um fator crucial. Atualmente, parece impossível imaginar que dois jornalistas possam conduzir um trabalho de tamanho fôlego que culmine com a renúncia de um presidente da República. Não custa lembrar que, no caso brasileiro, Fernando Collor renunciou porque foi preciso seu irmão, por motivos financeiro-familiares, denunciar aquilo que muitos jornalistas já sabiam, ou seja, a pérfida influência de Paulo César Farias nos corredores do governo collorido. O caso chegou a ser apelidado de Collorgate. Nada a ver.

Alguns anos depois da investigação, do livro e do filme, já nos anos 1990, Carl Bernstein conversou com alunos de comunicação e jornalismo da Universidade da Pensylvania. Entre outras coisas, afirmou categoricamente que no jornalismo americano atual “o estúpido e o sensacional são mais importantes do que a verdade e a notícia”. Talvez nessa frase, de um dos homens que derrubaram Nixon, esteja contida a principal transformação porque passou a atividade jornalística nas últimas décadas.

FICHA TÉCNICA

Título original: (All the President’s Men)
Lançamento: 1976 (EUA)
Direção: Alan J. Pakula tores: Dustin Hoffman, Robert Redford, Jason Robards, Jack Warden
Duração: 138 min
Gênero: Drama