Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

As relações entre mídia e política são intensas, variadas e nem sempre claras. Embora meios de comunicação não sejam poderes instituídos – como são Legislativo, Executivo e Judiciário – funcionam como poderes consolidados nas sociedades contemporâneas. E isso se deve à legitimação dada pelos cidadãos comuns, que depositam nos veículos uma função pública que pavimenta sua finalidade social. Ao longo dos últimos séculos, a função de fiscalizar os demais poderes fortaleceu as bases que sustentam o jornalismo e, de quebra, alargou uma zona de atrito em torno das redações.

De uma forma generalizada, passamos a considerar que o jornalismo é uma atividade que se dedica a confortar os aflitos e a afligir os confortados. A rigor, jornalistas não promovem ou divulgam ações acriticamente, mas investigam, questionam, denunciam, enfrentam interesses que se contrapõem aos da coletividade. Esses contornos deram aos meios de comunicação não só autoridade para narrar a crônica do presente, mas também popularidade, aceitação, reconhecimento e legitimidade.

É claro que essa história não tem apenas episódios corajosos e engrandecedores. Há capítulos que tornam mais opacas as fronteiras que separam meios de comunicação de classe política. Afinal, os veículos de comunicação pertencem e são controlados por grupos empresariais que têm suas ambições econômicas, seus interesses políticos e seus projetos de sociedade. Nem sempre caminham juntos os desejos dos controladores da mídia e dos diversos grupos políticos que atuam numa sociedade. Como a política é mais que o exercício de mandatos e a efervescência partidária, todo movimento para fazer prevalecer projetos coletivos e vontades pessoais também fica no âmbito da política. O cenário torna-se complexo porque os movimentos no tabuleiro mostram-se múltiplos, contraditórios, enigmáticos.

No caso do Brasil, as relações entre mídia e política acentuam vícios históricos (como o patrimonialismo e o clientelismo), mas também atualizam as formas de exercer poder, de influenciar destinos e de acomodar forças. Como na distribuição de renda, o setor das comunicações é desigual, altamente concentrado e aparentemente resistente a mudanças. Como na estrutura social do país, o setor é conservador, desenvolvido à sombra de regimes autoritários e nas brechas da legislação, revelando uma perversidade poucas vezes vista na história do Ocidente.

Transformar a sociedade brasileira passa também por modificar a estrutura e o funcionamento dos meios de comunicação, tarefa das mais difíceis dadas as relações umbilicais entre políticos e empresários do setor. Quando não são compadres, são sócios; quando não são beneficiados, são a mesma pessoa.

Porque existe tanta contiguidade nessas relações e nem sempre clareza nas intenções de lado a lado, a tendência do observador comum é considerar que sempre (ou quase sempre) os interesses de mídia e política são os mesmos. Mas isso é um engano. Vigora um princípio maior: o da conveniência. Se ele prevalece, as coisas ficam mais harmônicas, mesmo que os interesses destoem. Um exemplo recente ilustra. Na edição de 17 de agosto passado, a revista Veja trouxe editorial que mais parecia um anúncio de trégua no seu relacionamento altamente conturbado com o governo federal. Quem acompanha a publicação semanal mais influente do país sabe que Veja não poupou o governo Lula nos seus oito anos. Da saudável e esperada fiscalização do poder à implacável perseguição editorial, viu-se de tudo: cerco, pressão, distorção, denúncia, acertos e erros.

O editorial intitulado “Toda a força à presidente” fincou outra bandeira no terreno. Veja relembra o leitor das recentes denúncias de corrupção que derrubaram os ministros Antonio Palocci (Casa Civil) e Alfredo Nascimento (Transportes), e critica severamente desmandos na Agricultura de Wagner Rossi (que cairia dias depois). Veja, então, denuncia que há uma horda de políticos em torno da presidente tentando fazê-la refém de uma política de troca de cargos por apoios. A revista se alinha ao Palácio do Planalto: “Assim como outros brasileiros honestos, pagadores de impostos, Veja está ao lado da presidente (…) Que Dilma Rousseff continue a fazer sua faxina e que seu exemplo se espalhe por todos os níveis da administração pública”. Então, Veja hasteou uma bandeira branca? Nem tanto assim.

Veja leu os corações e mentes da classe média – que engrossa seu leitorado – e se reposicionou. A revista percebeu que os movimentos rápidos da presidente para afastar suspeitos de irregularidades foram bem recebidos por seus leitores, que as ações fortaleceram o governo e funcionaram como respostas aos anseios da população. O Grupo Abril, que edita Veja, pode não concordar com toda a plataforma política de Dilma, mas decidiu sinalizar publicamente um apoio à presidente para se aproximar mais de seus leitores e reforçar um ideário de país. Parece pouco, mas está longe disso. A política se faz também em boa medida no plano do imaginário, do simbólico. Carro-chefe de um dos conglomerados de comunicação mais poderosos do país, Veja dá um recado estridente de que, na guerra contra a corrupção, cerra fileiras com um governo que exibe disposição para fazer este combate. Não se trata de uma trégua, mas de uma conveniência conjuntural. Sem os compromissos de um partido aliado, a publicação pode mudar de lado logo em seguida. Isso se detectar mudança de humor de seus leitores ou se perceber outros perigos a sua sobrevivência mercadológica. Parece política, e é. Mas também é business