A Gardênia Azul

Por Camila Komatsuzaki
Graduanda em Jornalismo pela Fundação Universidade do Tocantins/Unitins e acadêmica de mobilidade discente junto à Universidade Federal de Santa Catarina

A Gardênia Azul conta o drama de uma ingênua telefonista, Norah Larkin (Anne  Baxter), que após uma decepção amorosa concorda em ir a um encontro às escuras com o  artista Harry Prebble (Raymond Burr), conhecidamente vulgar. Vítima da tentativa de abuso e  inconsciente, Norah se vê em uma cena de assassinato em que todas as pistas apontam para ela. O crime passional desperta o interesse da comunidade local graças à importância atribuída ao caso pelo colunista do jornal local, Casey Mayo (Richard Conte), um jornalista em evidência  que vai além de seus limites e de seu ofício em busca de uma boa história. O caso policial  sem grande importância torna-se uma caçada misteriosa potencializada pela abordagem jornalística a qual Casey Mayo é responsável e terá que desvendar.

Produzido em 1953 e, portanto, na simplicidade cinematográfica de sua época, o longa-metragem dirigido por Fritz Lang não entra na lista das melhores produções do diretor austríaco, mas compõe a vasta coleção de obras que discutem a influência do jornalismo na sociedade. O filme alterna em qualidade nos aspectos técnicos que se analisados no conjunto deixam muito a desejar. A atuação dos protagonistas, a escolha do elenco, a fotografia do filme e a participação especial de Nat King Cole interpretando a música emblemática do filme,  Blue Gardenia, são pontos positivos, mas que não compensam a indigência da história e a ingenuidade do roteiro. O desfecho do drama, pobremente agregado ao gênero policial e certo grau de romantismo, segue a lógica de sua história: sem sentido e nada surpreendente.

Embora esteja entre os filmes que tratam do jornalismo e a vida social, tendo-o como principal elemento constitutivo da história, não faz jus à discussão do comportamento ético do jornalista em seu ofício, uma vez que justifica sua presença na trama nos sentimentos afetivos e pessoais do personagem.

Quanto à posição protagonista do profissional da informação em seu ofício, para usar os termos fotográficos, o autor parece usar a película dos princípios éticos da profissão numa superexposição de estereótipos. Ou seja, a imagem negativa e cristalizada do jornalista se escancara em uma interpretação invertida de quaisquer valores éticos existentes. Dos exageros desta sátira disfarçada podem-se tirar exemplos antagônicos à ética jornalística evidentes na história e nos diálogos.

Em contradição ao respeito que se atribui aos roteiros bem elaborados de sua época, esta obra se constitui de diálogos óbvios e demasiadamente explícitos que nos remetem à produção massiva e pobre dos dias atuais. A conversa entre jornalistas na redação, “a lógica do jornalismo” confunde-se com a lógica de mercado enfatizada em alguns meios que não deve, mas acaba aqui sendo generalizada. Os elementos citados: beleza, sexo, paixão são como ingredientes certeiros para a receita da “boa venda”. Isso aguça a curiosidade do leitor, pela dramatização da vida real, sendo, porém, duramente reprimido pelos preceitos éticos do jornalismo. Há de se cuidar para não cegar o público com informações fúteis, seguindo-se esta lógica. Este é o grande desafio dos detentores da informação, definir com responsabilidade o que é ou deixa de ser importante para o interesse público.

A posição do jornalista no drama ficcional só se abala quando seus sentimentos  pessoais e sentimentais tocam-lhe a consciência, outro pecado cometido nos termos éticos da profissão. Embora seja sabido que não há como isentar-se de todas as convicções pessoais e dos sentimentos no ofício de jornalismo, considera-se ético e, no mínimo, de bom senso buscar a objetividade e a isenção no exercício de suas funções. Deixar-se liderar pela cobiça e pelas emoções acaba por desviar o foco dos deveres. Neste caso, como bem definiu o  personagem Sam Haynes (George Reeves), o chefe de polícia, o jornalista se desviou de seu  posto de observador atento para o de protagonista dos fatos, chamando a atenção da notícia para si na “Carta de Casey Mayo para a assassina desconhecida”. Sua imagem obviamente fizera parte do acontecido, o que lhe atribui maior visibilidade tão evidente desde os primeiros minutos.

Por mais que seja tanto perturbadora quanto caricata a forma de representação do jornalismo, a obra remete ao comportamento humano diante das predeterminações da mídia. Muito se discute sobre o que o público pede e o que ele precisa saber. Estar na posição de  crivo dessa necessidade é algo delicado e que o jornalista deve saber lidar enfrentando as possíveis tensões como a gana do público, a linha editorial da empresa, a ética profissional, suas convicções pessoais, e daí em diante. Pode-se pensar, com isso, nas distinções entre a ética social e a ética profissional deste ofício, se é que se podem separar.

FICHA TÉCNICA

Título original: The Blue Gardenia
Diretor: Fritz Lang
Elenco: Anne Baxter, Richard Conte, Ann Sothern, Raymond Burr, Jeff Donnell, George Reeves, Ruth Storey, Ray Walker, Nat King Cole
Gênero: Policial
Duração: 88 minutos
Ano: 1953
Cor: Preto e Branco