Felipe Ferreira Bem Silva
Jornalista concursado do IF-SC, onde trabalha desde dezembro de 2007

No Brasil, o trabalho de assessoria de imprensa, conforme defende a Federação Nacional dos Jornalistas, é função exclusiva de jornalista, ao contrário do que acontece em outros países, onde são, principalmente, dos relações públicas que desempenham a atividade. A pergunta que surge: é possível fazer assessoria seguindo o que diz o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros?

Acho que as instituições ainda não estão preparadas para isso. A maioria continua empregando jornalistas com a intenção de que atuem quase como lobistas, divulgando informações parciais, que atendam aos seus interesses. Não é aceitável mentir, mas vale omitir. Esse tipo de conduta, no entanto, não está de acordo com o que diz o Código de Ética logo em seu primeiro artigo: “O acesso à informação pública é um direito inerente à condição de vida em sociedade, que não pode ser impedido por nenhum tipo de interesse”.

Destaquei a expressão informação pública, porque aqui persiste outra dúvida: o que é informação pública? Pode soar utópico “fazer jornalismo” em uma assessoria de imprensa de empresa privada, já que o principal foco da formação e atuação de um jornalista é a imparcialidade na veiculação dos fatos, o que geralmente vai de encontro ao objetivo pelo qual a organização o contratou. Mas no caso de uma instituição pública é, sim, possível um assessor tentar ao menos se aproximar desse ideal.

Diferente da iniciativa privada, onde há evidente risco para a continuidade do profissional no emprego, caso ele divulgue uma informação que eventualmente seja prejudicial à empresa, no serviço público essa pressão não existe para os jornalistas concursados. Até porque o seu patrão é a sociedade, que paga seu salário por meio de impostos.

No Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina (IF-SC) conseguimos quebrar alguns paradigmas e realizar um trabalho mais próximo do que pode se chamar de jornalístico. Para citar um exemplo, desde metade de 2011, servidores da instituição estão se mobilizando para entrar em greve. Evidentemente, esta não é uma situação positiva para a gestão, no caso, a Reitoria. No entanto, fizemos uma cobertura relativamente equilibrada das atividades no informativo interno da instituição (enviado para os e-mails dos 1,5 mil servidores), sempre ouvindo o sindicato dos servidores, algo que, até então, não era praxe na comunicação institucional do IF-SC. Tentamos, na medida do possível, permitir a manifestação de opiniões divergentes e o livre debate, conforme estabelece o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros.

Essa mudança de postura foi precedida de capacitações e debates com a comunidade interna, realizadas nos últimos dois anos, sobre qual é o papel do jornalista na instituição. Questões éticas e práticas do jornalismo também foram abordadas, pois percebíamos que havia um desconhecimento sobre o trabalho do jornalista e de como funciona a imprensa – muitos achavam normal pagar para publicar notícias.

Quando digo “relativamente” ou “na medida do possível”, é porque ainda persiste em alguns servidores a idéia de que os jornalistas da instituição devem servir à gestão, apesar dos esforços empregados em desfazer esse entendimento. Acreditamos que o papel do jornalista-assessor é o de disseminar as informações de interesse dos públicos-alvo da instituição, respeitando as diferentes opiniões e visões, como estabelece o Código de Ética. Aos poucos estamos conseguindo promover mudanças na comunicação interna – ainda não conseguimos fazer isso na comunicação externa.

Claro que esse tipo de objetivo deve ser perseguido em todas as organizações públicas. Mas reconheço que é mais fácil de ser alcançado em instituições cuja cultura seja aberta a discussões ou nas quais o contraditório e opiniões divergentes faça parte da sua própria natureza – casas legislativas, como assembléias e câmaras, órgãos colegiados, como tribunais, etc. Instituições de educação, como é o caso do IF-SC, historicamente são mais propensas ao debate e ao respeito à divergência de idéias, tendo em vista o nível de politização, no sentido positivo da palavra, dos seus integrantes.

Mesmo assim, o trabalho de conscientização é permanente, pois muitas vezes é preciso repetir o “mantra” do compromisso com o interesse social e com o dos diversos públicos que integram a organização. Os jornalistas, especialmente de órgãos públicos, não podem se afastar dessa obrigação. A obstrução à livre divulgação da informação e a aplicação de censura ou autocensura são, segundo o Código de Ética, um delito contra a sociedade.

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