Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Um episódio envolvendo jornalista, advogado e um ex-atleta acusado de homicídio passou quase despercebido na semana passada, não fosse um zum-zum-zum em parte da internet brasileira. Jorge Kajuru teria desistido de veicular uma entrevista feita com o ex-goleiro Bruno, acusado da morte de Elisa Samúdio. Inédita e exclusiva, a gravação dataria de dezembro de 2010 e seria, segundo o colunista do UOL Ricardo Feltrin, “o furo policial do ano”. Aconselhado por amigos, Kajuru decidiu não mais trazer a público a entrevista, para não “manchar” seus 35 anos de carreira: “muito menos entrevistar gente que o povo já execrou, condenou e principalmente colocar no ar, alguém orientado pelo seu advogado, para negar tudo e não confessar uma só palavra, nem trazer a menor revelação relevante”.

O material com a conversa com o ex-goleiro do Flamengo, preso desde julho de 2010 em Contagem (MG), estaria em posse da Band, mas chegou-se a informar que o SBT veicularia a entrevista. Assim que Feltrin anunciou o “furo”, Kajuru teria recebido uma saraivada de críticas por retornar ao caso e alardear a façanha de convencer Bruno a falar pela primeira vez sobre o desaparecimento de Elisa Samúdio desde sua prisão. Um outro ingrediente aumentou ainda mais a temperatura: haveria um acordo de R$ 150 mil entre o jornalista e o advogado Ercio Quaresma para permitir a veiculação da entrevista.

Está claro que a história está mal contada. Sobram perguntas: Bruno teria mesmo dado essa entrevista exclusiva a Kajuru? Haveria revelações relevantes para o caso? Por que o ex-goleiro falou justamente com o jornalista, sendo assediado por tantos outros? Se o material está com o amigo de Kajuru, José Luiz Datena, por que não foi ao ar ainda? Kajuru teria pago pela entrevista?

Há pelo menos três cenários possíveis sobre o caso. Primeiro: o jornalista mentiu, já que a entrevista não foi feita. Segundo: a gravação foi feita e o jornalista pagou por ela. Terceiro: o material existe, mas o jornalista não fez acordo financeiro para consegui-lo.

As duas primeiras possibilidades são condenáveis do ponto de vista de ético. Jornalistas não devem mentir nem pagar por entrevistas. Espera-se que jornalistas investiguem, apurem, recolham dados para tornar mais claros os fatos, diluindo as incertezas e ampliando a sensação de veracidade do noticiário. Obter informações à base de dinheiro atrai o jornalismo para o ramo dos leilões, fazendo encolher os esforços técnicos e diluindo os méritos da reportagem. Os primeiros cenários são ruins para a credibilidade de Jorge Kajuru, mas o terceiro não resgata seu crédito, afinal igualmente coloca em suspeição sua conduta. Se o jornalista tem a entrevista, não pagou por ela, por que não a veiculou depois de tanto alarde? Havia valor jornalístico no material? Havia interesse público ou se tratava apenas de marketing ou exagero?

Tão misteriosa quanto o desaparecimento de Elisa Samúdio é a história da entrevista exclusiva e reveladora que não foi ao ar. O episódio quase que passou em brancas nuvens porque o destino de Bruno tem pouco interessado a opinião publica e porque Kajuru é um jornalista contestado por seu polemismo muitas vezes inconsistente. Em outras circunstâncias, o caso chamaria mais a atenção. Seria mais uma oportunidade para se pensar os limites do jornalismo e dos jornalistas.

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