Samuel Lima
Docente da FAC/UnB, é professor-visitante do curso de jornalismo da UFSC e pesquisador do objETHOS.

A palavra de ordem é precisa e clara: “Occupy Wall Street” (Ocupem Wall Street, em tradução literal). O movimento começou dia 17 de setembro em Nova York e ocupa muito mais que o parque Zuccotti, entre o centro financeiro e o Marco Zero. Literalmente, ganhou ruas e praças dos EUA, incluindo-se Washington, o centro do poder político. O protesto, focado na crítica aos banqueiros, tem sido tratado de maneira superficial e enviesada pela mídia nativa, à exceção do Valor Econômico.
A tentativa de desqualificação, a bem da verdade, vem da própria cobertura dos acontecimentos na origem, como assevera o pesquisador John Hanrahan, no site Nieman Watchdog: “A cobertura inicialmente foi depreciativa e mínima – e mea culpa, eu mesmo não dei muito atenção a elas”.
Com a feição dos jovens desempregados novaiorquinos, o protesto começou com uma convocação veiculada pela revista canadense Adbusters. Sem um modelo de organização tradicional (exceto a realização diária de assembleias e passeatas), nos cartazes nota-se a inspiração na chamada “Primavera Árabe” pela democracia, especialmente os protestos na Praça de Tahrir no Cairo que resultaram na Revolução Egípcia de 2011:

– “Ocupem Wall Street, desocupem a Palestina!”
– “Nós somos os 99% que pagam impostos, junte-se a nós!”
– “Quando a injustiça impera, resistir é nosso dever” (Thomas Jefferson)
– “Vocês viram a Primavera Árabe, venham conhecer o Outono Americano”
– “Bem-vindos aos Estados Soviéticos da América”.

JN, 20 dias depois…
Um exemplo evidente de invisibilidade do protesto vem da TV Globo. O Jornal Nacional só transformou o acontecimento em notícia 19 dias depois.
Na reportagem da jornalista Giuliana Morrone, a constatação: “Estudantes, aposentados, desempregados e trabalhadores inconformados com a crise saíram em passeata por uma das principais ruas de Nova York. A multidão ocupou as calçadas”. Pelos cálculos da correspondente, cinco mil “inconformados com a crise” tinham um alvo em comum inequívoco: “Os manifestantes, que há 19 dias protestam contra o sistema financeiro”.
Mudou Giuliana ou mudaram os fatos? Uma semana antes, no Bom Dia Brasil, edição de 29/09 ela assegurava que os jovens defendiam “maior distribuição de renda e que os ricos paguem mais impostos”, ainda que registrasse uma palavra de ordem sem contexto: “Bancos ganham ajuda financeira e o povo fica quebrado”.
Mais que a ausência de fontes plurais e especializadas para refletir sobre o fato, o tom da matéria reflete uma contaminação por um viés ideológico conservador. É a hipótese dos “mercados perfeitos”, dominante nos últimos 30 anos de teoria econômica, hoje em estado adiantado de decomposição a céu aberto, nas ruas, praças e palácios do mundo global. É ironicamente incompreensível seu vaticínio, no Bom Dia. Conclui Giuliana: “Os manifestantes avisam que podem ficar semanas, até meses, no local, protestando contra o sistema financeiro”.

Duas notas na Folha Online
O portal noticioso da Folha de S. Paulo, entre 17/09 a 09/10, registra tão somente duas pequenas notas sobre o movimento, ancoradas ambas em textos de agências de notícias.
Já na terceira semana dos protestos, a Folha.com publica (02/10) uma notícia de 1.765 caracteres, chamando no título a atenção dos leitores para o conflito: “Detidos em Wall Street são soltos, enquanto protestos se multiplicam”. O texto, ancorado na Agência EFE, dá conta de que “cerca de 700 pessoas foram presas no sábado em um protesto que bloqueou a ponte do Brooklyn”.
Quatro dias depois, a Folha.com volta a insistir no conflito:

Com a ocupação em Wall Street já ingressando em seu 20º dia, a polícia de Nova York confrontou manifestantes usando spray de pimenta e cassetetes em barricada próxima à entrada do centro financeiro americano na noite de quarta-feira. Ao menos 28 pessoas foram presas, incluindo um acusado de agressão depois de um policial ser derrubado, segundo o porta-voz da polícia Paul Browne.

Quanto ao “alvo” dos cidadãos, o site do jornal paulista escolheu temas diversos: “Contra a desigualdade de renda, ganância corporativa e outras questões sociais”. Trocando em miúdos, quase três semanas depois dos acontecimentos, sem cobertura própria, a Folha “descobriu”, através de textos de agências internacionais, a existência do movimento.
Ainda assim, as duas notas publicadas cobriam conflitos com a polícia, o que em tese caracterizaria os manifestantes como “baderneiros”. Com extremo zelo de classe, o diário paulista tira de foco os banqueiros, escroques e especuladores que dominam os mercados financeiros, nos EUA, União Europeia e economia global.

Valor Econômico, exceção à regra
Não obstante ter entrado tardiamente na cobertura dos fatos, o Valor foi o único que destacou um jornalista, Eduardo Graça, que esteve durante três dias no parque Zuccotti, ouvindo os líderes do movimento, sindicalistas, especialistas e personalidades que foram ao local hipotecar apoio: o cineasta Michael Moore, Joseph Stiglitz (Nobel de Economia), o produtor musical Russell Simmons, a atriz Susan Sarandon, o pensador Noam Chomsky e o músico Peter Yarro – do grupo de folk Peter Paul and Mary.
A reportagem ganhou chamada de capa (“Rebelião americana”, ed. 7 a 9/10/11) e foi destaque do caderno Eu & Fim de Semana, intitulado “O outono americano”. Trata-se de alusão aos ventos da “Primavera Árabe” e outros protestos que se espalham pelo mundo, colocando o centro do modelo econômico em xeque: o poder tirânico do capital financeiro, e dos banqueiros.
Graça ouviu múltiplas fontes e passou a noção mais completa desse inusitado fato histórico, em curso. Do sociólogo Stephen Duncombe, da Universidade de Nova York (NYU) ouviu: “Ainda não podemos sequer afirmar se tratar de uma federação. Eles são cidadãos comuns que perceberam não fazer mais parte da engrenagem da sociedade americana. (…) O que se dá em Manhattan, hoje, é o nascimento de um novo tipo de movimento social, multivocal, sem ícones, conectado”. A reportagem do Valor destaca a análise do colunista Andrew Ross Sorkin, do The New York Times, nome de peso do jornalismo econômico. Sorkin foi taxativo: “A mensagem desses meninos é clara – eles querem que Wall Street e as corporações americanas paguem o que devem pela crise financeira e o aumento da desigualdade social do país. E se a economia continuar o ciclo negativo por mais tempo, poderemos evoluir para algo mais próximo de uma desobediência civil em massa”.
O jornal especializado em economia fechou sua cobertura parcial com uma nota publicada no portal (www.valor.com.br), em 10/10: o movimento realizou mais uma grande passeata (o Valor não quantifica) no Sul de Manhattan, que ao contrário dos sábados anteriores, terminou sem nenhuma prisão.
Entre a exceção e a regra, a cobertura do “Outono Americano” nas páginas da mídia brasileira transitou errática. À sombra generosa de John Maynard Keynes, considerado o maior economista do século 20, os banqueiros globalizados continuam se alimentando de sigilo e “sombra” de informação, sobretudo fugindo dos lampejos emanados do jornalismo. A ver os desdobramentos do movimento “Occupy Wall Street” e a atuação da imprensa, lá e cá.

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