Em noite de lua cheia

Por Ágatha Morigi
Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

A trama da história, tão antiquada para os dias modernos, é compreendida com um susto logo na cena de abertura. O jovem casal que decide acabar com as suas vidas por acharem possuir o vírus da AIDS é triste e comovente, mas destaca também a ignorância em torno da doença, há 22 anos.

Rutger Hauer é o jornalista John Knot, ex-correspondente da Guerra do Líbano que está construindo uma grande reportagem sobre a AIDS, e para isso finge possuir o vírus e registrar a péssima resposta da sociedade a ele. Em paralelo, ele reencontra em Paris a jovem Joelle, sua antiga paixão. Rapidamente acontece a reconciliação e a descoberta que do relacionamento nasceu uma menina. Determinado a se casar com Joelle, o jornalista tem outra surpresa: na véspera da cerimônia, um exame revela que é HIV positivo.

Aterrorizado, John esconde a verdade e foge para os Estados Unidos, não dando qualquer explicação para Joelle e abandonando o trabalho e os amigos. É nesse momento que o jornalista muda de lado e passa a aceitar a mesma atitude que antes abominava, não deixa que ninguém se aproxime dele. Em Nova York conhece uma rica viúva, também portadora do vírus, e juntos conseguem mover grande quantia de dinheiro para financiar pesquisas sobre a doença. Quando Joelle, ainda apaixonada, descobre a verdade sobre John, decide viajar a Nova York disposta a aceitá-lo de volta. John já sabia, graças à análise de sangue da mulher e da filha, que as duas não estavam infectadas. Feitas as pazes, ambos decidem ficar juntos na esperança de uma vida normal. Tedioso? Clichê?

Com momentos requintados e desagradáveis, o filme passa longe do dramalhão comum ao abordar fortemente a mentalidade a respeito da doença na época. Quando se pensa que mesmo hoje a verdade sobre a AIDS ainda não é de conhecimento geral, Em noite de lua cheia faz um excelente trabalho. Em uma das cenas, quando ainda não sabia ser portador, o jornalista vai a um restaurante e mente ao garçom, dizendo ter AIDS. Imediatamente é convidado a se retirar do estabelecimento, e fingindo indignação, corta a mão com os cacos de um copo. O medo do contágio e a falta de informação estão presentes em todas as cenas como essa. Na mais melancólica, John, já sabendo ser HIV positivo, desta vez sem querer se corta com um copo de vidro. É lamentável acompanhar enquanto ele se faz vítima de seu próprio medo e esconde os estilhaços dentro de um caixote no lixo, cheio de vergonha, mesmo sentimento que transmite para quem o está assistindo.

As belas imagens e a fotografia impecável tentam, mas não conseguem fazer o filme menos perturbador. Talvez seja essa a intenção, e a trilha sonora, com forte orquestração, colabora, assim como as cenas envolvendo o sangue do jornalista, que não são poucas. Como casal, as performances de Hutger Hauer e Nastassja Kinski são convincentes e a química entre os dois é natural. Entretanto, por mais que o romance se esforce, não há como deixar de reparar a diferença de opinião do próprio jornalista sobre o vírus HIV, antes e depois de descobrir que estava infectado.

FICHA TÉCNICA

Direção: Lina Wertmüller
Roteiro: Rutger Hauer, Lina Wertmüller
Atores: Rutger Hauer, Nastassja Kinski, Peter O’Toole
Gênero: Drama
País: Itália, França
Ano:  1989
Duração: 109 min.

Advertisements