A dama de preto

Por Bianca Enomura
Acadêmica de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

“Estes são os nomes de 1772 jornais diários nos Estados Unidos. Um deles é o jornal que você lê. Todos eles são as estrelas desta história”. Esta é a primeira frase vista no filme A dama de preto. Em seguida, Johannes Gutenberg e Benjamin Franklin são lembrados pelas suas contribuições significativas à imprensa. Essa pequena introdução, elucida um pouco sobre a temática que fundamenta o roteiro.

Roteirista, produtor, diretor e financiador da produção, Samuel Fuller atuou como repórter nas décadas de 20 e 30, o que lhe serviu de inspiração e base. O título faz referência à famosa rua onde localizavam-se a maioria dos jornais de Nova York, pela proximidade do New York City Hall (sede do conselho municipal da cidade), da central da polícia da Nova York e do distrito financeiro.

Ambientada nos últimos anos da década de 1880, o início da história têm como cenário  um bar onde funcionários da imprensa da região se reúnem. Phineas Mitchell, frequentador do lugar, é um jornalista empregado pelo periódico The Star, mas logo fica evidente a divergência entre seus princípios e a linha editorial assumida pelo veículo. Mitchell acusa Charity Hackett, herdeira do jornal, de explorar os casos de forma sensacionalista. E após uma ação ofensiva contra sua ex-empregadora, é demitido.

Num discurso apaixonado,  Mitchell confessa o desejo de fundar seu próprio jornal, que sustentasse suas convicções acima dos interesses políticos e defendesse a ética e a liberdade de imprensa. Rapidamente, um patrocinador apóia a ideia e oferece a estrutura necessária para rodar as edições do então batizado The Globe. A pressa do roteiro é notada neste momento, quando no mesmo dia a equipe é formada e a primeira notícia é, de certa forma, provocada para a primeira edição da publicação.

A primeira matéria de capa do The Globe exibia a caricatura de um homem que havia saltado propositalmente da ponte do Brooklin, sobrevivido, e depois preso pelas autoridades. O texto defendia a libertação do homem e através da promoção de um protesto em prol da causa, ganhou a simpatia dos leitores.

O sucesso imediato do jornal provocou a reação do rival The Star, que iniciou uma campanha para tentar fechar o concorrente. A tensão entre os dois veículos também aumentava a atração entre seus representantes, Mitchell e Charity.

Uma ação da publicação mostra carisma e se vale do patriotismo da população para conquistar o público: arrecadação de doações para a construção do pedestal da Estátua da Liberdade, na época, recém-doada pela França. Os nomes das pessoas que contribuíssem, apareceriam na edição do dia.

Um momento importante do filme é a possibilidade de ver antigos processos de impressão em uso. Desde a preparação e montagem dos tipos móveis nas prensas mecânicas e, posteriormente, a invenção da linotipia por Otto Mergenthaler, em 1884. Esse personagem foi emprestado da história real, e realmente criou a máquina que em vez de formar uma única letra, continha todas as letras de uma linha.

Na reta final, fica mais evidente a competitividade entre os rivais The Globe e The Star, culminando em boicotes no fornecimento de materiais, ataques diretos a funcionários e, por fim, na explosão da sede do jornal de Mitchell. Nenhuma dessas tentativas, no entanto, tiraram o The Globe de circulação e provocaram a elevação de sua popularidade.

Ainda que não tenha alcançado grandes bilheterias e do prejuízo decorrente para Fuller, A dama de preto foi uma impressão dos dias de repórter do diretor, uma homenagem aos pioneiros do jornalismo nos EUA e um declaração em apoio à liberdade de imprensa.

 

FICHA TÉCNICA

Título original: Park Row
Duração: 83 min
Gênero: Drama
Produção: Estados Unidos, 1952
Direção: Samuel Fuller
Roteiro: Samuel Fuller
Elenco: Gene Evans, Mary Welch e Bela Kovacs

 

Advertisements