Francisco José Castilhos Karam
Professor da UFSC e Pesquisador do objETHOS

O ritmo da sociedade atual é refletido a cada dia no jornalismo. Há, no fundo, uma discussão de se o jornalismo e a mídia como um todo contribuem para tal ritmo ou se apenas refletem a pressa diária de parcela significativa da sociedade ocidental, industrial, contemporânea e capitalista.

O espaço de consumo , pelo qual a mídia deu e dá enorme contribuição ao fazer circular mensagens, produtos, informações e opiniões instantâneos, gera um ritmo intenso e praticamente estressante para o acompanhamento do noticiário e “daquilo que se passa”. O jornalismo “fast food”, bastante acusado de fazer fatos e opiniões perecerem sem serem digeridos ou contextualizados, não foge à regra geral da sociedade.

Da mesma forma, o crescimento de cesarianas, em lugar do parto normal, decorre da incapacidade e da falta de interesse em seguir os padrões mais recomendados para o nascimento, que leva certo número de horas. Ao invés de acompanhar sete ou oito horas um trabalho de parto, grande parte dos médicos decide que a cesárea pode ser mais “interessante” ou “necessária” . Assim, durante oito horas, um tempo razoável para um parto normal, podem fazer várias cesáreas e, ainda, dar consulta, etc. Medicamentos “fast food”; carros que permitem andar a 200 km/hora em estradas que proíbem isso; processos judiciais a cada segundo sem que qualquer juiz consiga decidir algo em menos de muito tempo são sintomas de uma sociedade que, competitiva, conflituada e individualista, aponta que no futuro está a liberdade, a justiça, a felicidade, a realização pessoal e profissional. Enfim, é lá…e para chegar lá é preciso andar mais depressa. A pressa está até mesmo no “templo da pesquisa e do pensamento”, a universidade, que cada vez exige mais produção , sem que os analistas e pareceristas tenham condição de se debruçar atentamente sobre todos os aspectos de cada produção… Mas se não for assim, a universidade, o país … os países nunca chegarão lá, lá mesmo, no futuro, onde está a liberdade, a justiça, a realização pessoal e profissional.

Ao tentar acompanhar o desdobramento diário da humanidade, a mídia e o jornalismo, em seu interior, tentam acompanhar algo que é uma contínua e quase imediata expulsão … de um artigo sobre outro, de uma notícia sobre outra, de uma opinião sobre outra. Ainda que haja certa controvérsia e contexto em vários momentos, os momentos não podem esperar o aprofundamento demasiado de qualquer coisa.

O entendimento de que assim tem de ser feito não responde muito a pergunta se “podemos saber o que se passa”. A deficiência informacional de qualquer mídia gera uma necessidade de se criar mídias próprias em instituições públicas e privadas, categorias profissionais e empresariais e mesmo por meio de cada indivíduo que cria seu blog, que está no facebook, que tuíta a cada 30 minutos ou que não consegue desligar jamais o celular.

Tal panorama tem resultado em pesquisas que mostram, apenas uma década depois de entrarmos no século 21, níveis de estresse e de esgotamento em muitas categorias, segmentos e indivíduos. Uma pergunta, a qual testam os movimentos do slow journalism, da comida lenta, do convívio mais denso e, portanto, mais vagaroso entre amigos, colegas e parentes, ronda todo o tempo: é possível fazer diferente sem comprometer o futuro, lá onde está a liberdade, a justiça, a realização pessoal ou profissional? Ou lá onde está tudo isso é apenas a constatação de que o velho conceito de alienação aposta que jogar tudo agora para chegar lá depois resulta apenas num ritmo atual que beneficiará sempre poucos? E que prejudicará a vida de grande parte das pessoas que habitam o planeta e usam sua vida para viabilizar a das demais, sem que o seu futuro esteja garantido? Mas que garante, claro, o futuro das demais.

Esperar que a mídia tradicional vá tratar do tema seria demasiado porque está no centro do furacão e dele pode se beneficiar para que atinja outros lugares e não a si. Mas novas mídias, mídias próprias, poderiam debater para onde estamos indo com mais propriedade e densidade. É também para isso que o novo cenário, tão intenso cenário do ciberjornalismo ou do ciberespaço, pode contribuir: o novo cenário deve contribuir, exclusivamente e sem volta, para o jogo da aceleração ou a virtualidade pode beneficiar a qualidade de vida, de informações, de convívio e , claro, de futuro?

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