Bom dia, Vietnã
Por Marco Aurélio Silva

Jornalista Graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina

A comédia Bom dia, Vietnã , (EUA, 1987) conta a história de um radialista enviado ao Vietnã, no ano de 1965, para trabalhar na rádio do Exército norte-americano, em Saigon. Adrian Cronauer se depara com forte censura, empenhada em mascarar uma guerra absurda que começaria a qualquer momento. O personagem vivido por Robin Williams inova toda a programação da rádio que, até então, era péssima e só veiculava músicas que não faziam parte do momento.

Um tenente trabalhava na rádio, o escolhedor das músicas. Ele desaprova o estilo de Adrian. Porém, os ouvintes da rádio passam a tê-lo como o melhor locutor. É a irreverência de Adrian que distrai os soldados que preparavam-se para a guerra. Sem falar dos grandes hits dos anos 60 que faziam todos dançarem.

O grande talento de Williams tem enorme peso nas locuções feitas por Cronauer. Com a imitação de várias vozes, ele transmitia as notícias que eram permitidas. Eram notícias que falavam de assuntos supérfluos e, na voz de Cronauer, tornavam-se ridículas. As informações que dessem a entender que uma guerra estava prestes a começar eram censuradas por uma “simpática” dupla de gêmeos.

Com o que ele podia veicular, fazia terríveis críticas ao governo norte-americano, sempre com bom-humor, é claro. Era uma denúncia aos absurdos da guerra. O major responsável pela rádio não desaprova o trabalho de Cronauer, apenas os subalternos deste. Mesmo quando, na edição de uma entrevista, ele ridiculariza o então vice-presidente Nixon.

Aos poucos, Adrian sente a situação apertar. Numa tarde,  quase é vítima da explosão de uma bomba no bar Jimmy Wah. Havia sido retirado de lá 30 segundos antes do atentado por seu amigo vietnamita, Tuam. Na rádio, essa notícia é censurada, pois os russos (na época ainda vigorava o “socialismo real” e existia a União Soviética) mandariam tropas ao Vietnã do Norte e a população ficaria apavorada com a perspectiva da guerra. Mesmo assim, ele começa a noticiar o atentado, no qual dois soldados morreram. Nesse momento, a rádio é tirada do ar. Adrian é suspenso e quem o substitui é o tenente que não aprovava o seu estilo. Este, que se achava o novo rei do humor, é considerado ridículo por todos os soldados.

Dias depois, frente a impopularidade do novo programa, o major da rádio resolve chamar Cronauer de volta. No início, ele se recusa a compartilhar “daquelas mentiras”. Mas, ao perceber a receptividade que tem entre as tropas, retorna.

Um dos momentos mais altos do filme é uma irônica crítica disfarçada de vídeo-clipe. Ao som de What a wonderful world , de Louis Armstrong, seguem-se imagens do dia-a-dia do povo vietnamita, a chegada dos soldados norte-americanos, as atrocidades de uma guerra que estava começando. Um mundo nada maravilhoso, mostrado em câmera lenta.

No geral, o filme não mostra o trabalho de um ou mais jornalistas em meio a uma guerra. Mostra sim a importância de um meio de comunicação de grande difusão, como o rádio, numa situação desta. Mostra também o peso da informação no rádio. Como é um veículo que, uma vez transmitido o sinal, é impossível  haver censura, os russos, neste caso, poderiam obter informações confidenciais. Todo cuidado era pouco.

Com o bom humor do gênero comédia e outras características hollywoodianas, o filme fica mesmo pelo talento de Williams e pela crítica que faz a uma guerra infundada.

FICHA TÉCNICA

Diretor: Barry Levinson
Roteiro: Mitch Markowitz
Elenco: Robin Williams, Forest Whitaker and Tung Thanh Tran
Duração: 121 min
País: Estados Unidos