O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy

Por Murilo Souza
Jornalista graduado pela Universidade Federal de Santa Catarina

Ele é o retrato perfeito de um egocêntrico sem conteúdo. Da obsessão pelo próprio visual aos comentários jocosos que faz no ar enquanto apresenta o telejornal mais importante do canal 4 de San Diego, Ron Burgundy (Will Ferrell) é excesso e entretenimento o tempo todo. Popular e presunçoso, o célebre âncora da década de 70 cativa a audiência com um apanhado de histórias quase sempre interessantes, mas raramente essenciais a quem quer que seja. Diariamente equilibrando-se à beira do ridículo, o telejornal de Ron tem ainda na equipe três excêntricos repórteres: o homem do tempo, Brick Tamland; o comentarista esportivo, Champ Kind; e o repórter de campo, Brian Fantana.

De carona nos traços exagerados da personalidade de Ron e achincalhando o pedantismo e o status de celebridade de alguns apresentadores, O Ancora – a Lenda de Ron Burgundy  é uma sátira do estilo machista e arcaico de ancoragem. Ao contrário de vários outros títulos que abordam os bastidores da rotina jornalística, o filme não tem a pretensão de polemizar questões éticas e muito menos teorizar a informação. Na verdade, a única crítica que permeia todos acontecimentos ao longo dos 91 minutos de tela está concentrada nas dificuldades enfrentadas pela competente jornalista Verônica Comingstone (Christina Applegate) de realizar o sonho de ser âncora – principalmente pelo fato de ela ser mulher.

A idéia para o roteiro surgiu a partir de um programa de TV visto por Will Ferrell, onde a jornalista Jessica Savitch falava sobre os hábitos machistas de um de seus companheiros de bancada. A primeira imagem do filme, uma frase, brinca justamente com isso: “Baseado em fatos reais. Apenas personagens, lugares e situações foram alterados.”A partir daí, o diretor estreante Adam McKay – que escreveu o roteiro junto com Ferrell – começa  a juntar os fotogramas para parodiar o excesso de empostação, as risadas forçadas e inflexões pouco naturais usadas por alguns âncoras do passado. A trama de Mckay se vale basicamente do humor nonsense, muitas vezes previsível e quase nunca o preferido do público adulto.

Vivendo em um universo onde a gravidez de uma ursa panda torna-se a grande história da temporada, Ron Burgundy é uma espécie de Austin Powers do jornalismo. Mulherengo e cabotino, o âncora é idolatrado tanto pelos telespectadores que o reverenciam quanto por si mesmo. Por isso se questiona se seria possível algum dia uma mulher rejeitá-lo. Para sua surpresa, a resposta vem logo depois que ele encontra Verônica. Desdenhado por ela, se indigna ao descobrir que, além de ter sido contratada para trabalhar em seu noticiário, a moça ainda tem pretensões de ocupar o lugar dele atrás da bancada.

Entre o desejo de conquistar Verônica e a possibilidade de ver sua reputação ameaçada, o âncora vive uma série de situações cômicas que vão desde uma conversa terapêutica com Baxter, seu cachorro, até a seqüência que mostra uma briga entre as equipes de vários telejornais, incluindo participações especiais de Ben Stiller, Jack Black e Tim Robbins. E, claro, quando o diretor do telejornal diz casualmente que Ron lê qualquer coisa que aparece no teleprompter, o espectador imediatamente já imagina que um incidente constrangedor está por vir. Mas, mesmo assim, a descoberta não compromete a piada.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Anchorman: The Legend of Ron Burgundy
Gênero: Comédia
Tempo de Duração: 91 minutos
Ano de Lançamento (EUA): 2004