Samuel Lima
Docente da UnB, professor visitante na UFSC e pesquisador do objETHOS

Washington D.C., madrugada de 17 de junho de 1972. Cinco homens são presos por arrombamento da sede do Partido Democrata, localizada no edifício Watergate. Bernard L. Barker, Virgilio R. Gonzalez, Eugenio R. Martinez, James W. McCord Jr. e Frank A. Sturgis têm algo em comum: são todos ligados aos serviços de informações de Estado (CIA e FBI). Na manhã daquele dia, os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein começariam uma cobertura histórica, que iria desembocar na renúncia do presidente Richard M Nixon, dois anos depois.

O primeiro relato do lendário Alfred Lewis, veterano com 35 anos de reportagem policial no The Washington Post, já descartava, usando o singelo recurso da descrição, a tese do suposto crime comum:

Os cinco homens presos às 2h30 da madrugada vestiam ternos completos, e todos usavam luvas cirúrgicas de borracha, marca Playtex. A polícia havia aprendido um walkie-talkie, quarenta rolos de filme virgem, duas câmaras fotográficas de 35 mm, gazuas, armas de gás lacrimogêneo do tamanho de uma caneta e instrumentos transmissores aparentemente capazes de interceptar tanto as conversas telefônicas, como as que ocorressem no próprio recinto.

Na tarde daquele dia, Woodward cobriria a primeira audiência dos arrombadores no Palácio de Justiça. Inquiridos pelo juiz James E. Belsen quanto às suas ocupações, coube a McCord Jr. responder em nome de todos: “anticomunistas”. Não satisfeito, o magistrado chamou McCord à frente e repetiu a pergunta e finalmente ouviu a revelação que daria ao jovem jornalista do Post um indício fundamental: “Consultor de segurança da CIA”.

Na primeira reportagem da longa série de mais de dois anos, oito jornalistas trabalhavam para compor um texto, “sob a batuta de Alfred Lewis”, segundo relato de Woodward e Bernstein. O primeiro lead (em matéria veiculada na edição de 18/06/1972, domingo), criação coletiva, com a aprovação dos editores Barry Sussman e Howard Simons, indicava o caminho que iria chegar até o Salão Oval da Casa Branca, algum tempo depois:

Cinco homens, um dos quais declarou ser ex-funcionário da Agência Central de Inteligência, foram presos às 2h30min da madrugada de ontem, quando praticavam uma ação que segundo as autoridades era um plano minucioso e complexo para instalar transmissores clandestinos nas salas do Comitê Nacional do Partido Democrático, nesta cidade.

Os ecos do “Caso Watergate” ainda podem ser ouvidos, quatro décadas após, quando se fala de jornalismo investigativo. Mais do que uma histórica canônica, virou símbolo de prática jornalística de primeira grandeza, que combina apuração autônoma, coragem política e a defesa do interesse público, de forma inconteste. Há um algo a mais, que os jornalistas destacam na primeira linha do clássico Todos os homens do presidente: “Este livro, tal como foi a cobertura jornalística do caso Watergate pelo Washington Post, é o resultado de um trabalho de equipe com nossos colegas executivos, redatores, repórteres, bibliotecárias, telefonistas, estagiários”. Nos agradecimentos ressaltam ainda dois personagens que foram fundamentais na história: Benjamin C. Bradlee, editor-executivo, e Katharine Graham, editora e dona do jornal.

Ao longo da obra de 283 páginas é possível observar com clareza o percurso desta longa cobertura. Woodward e Bernstein não encarnam heróis, tampouco o típico do “mocinho”. Ambos buscam, em todo o episódio, pontos de equilíbrio e verdade factual na teia de mentiras, dissimulações, tensões e alta pressão articulada a partir da Casa Branca contra o jornal e sua equipe. Em momentos cruciais, foram reportagens publicadas nos concorrentes The New York Times, Los Angeles Times e na revista Time que apresentaram fatos novos, pressionaram positivamente os profissionais do Post à busca de novas provas e informações exclusivas sobre o caso.

O lançamento da nova biografia de Ben Bradlee, no começo de maio de 2012, suscitou velhas polêmicas sobre a acurácia das reportagens escritas pelos dois jornalistas, entre outros aspectos correlatos que rendem acalorados debates em revistas, jornais e portais da internet. Uma resenha, publicada  na revista New York Mag sugere que Bradlee duvidara “secretamente, de alguns aspectos da reportagem de Bob Woodward e Carl Bernstein que ajudou a provocar a renúncia do presidente Richard Nixon, em 1974”. O texto, como descreve Jefferson Morley, “gerou uma forte negação de Woodward, uma objeção de Bradlee, um chat online no Poynter e um artigo no Daily Beast pelo acadêmico Max Holland, que defende que o livro de Woodward e Bernstein sobre o escândalo – Todos os homens do presidente – é um ‘conto de fados, embora muito atraente’”.

Polêmicas à parte, o que nos parece fundamental resgatar nesses 40 anos de Watergate é o tipo de papel que o bom jornalismo pode cumprir nas sociedades contemporâneas. De 1972 para cá o mundo mudou radicalmente, com o advento das tecnologias de informação rede global, que revolucionaram as comunicações e a vida em sociedade, em todos os aspectos possíveis e imagináveis, da produção econômica às possibilidades de fruição da arte e do lazer.

Em artigo recente no Observatório da Ética Jornalística da UFSC (objETHOS – , o pesquisador Rogério Christofoletti (UFSC) aponta com precisão cirúrgica essa razão, que remete aos fundamentos mais sagrados do jornalismo:

Se a indústria jornalística está se transformando, se as relações com as audiências são distintas de anos atrás, se a sociedade busca novas funções para o jornalismo, os jornalistas também precisam modificar seus modos de operar e ler a realidade. Principalmente os repórteres, aqueles que enfrentam as ruas, que encaram as fontes, que se dispõem a sujar as mãos no mar grosso das informações dispersas. Não é a tecnologia que vai ditar esse conjunto de mudanças, nem os tremores econômicos ou as tensões políticas. É a dimensão humana que atravessa os dias desses profissionais que vai sinalizar como mudar.

O jornalismo que se reinventa neste começo de século 21, como papel social e modelo de negócios, também busca seus novos canais de legitimidade perante os seus distintos públicos (impresso, radiodifusão e internet). Esse gênero humano, forma social de conhecimento de primeira necessidade ao futuro e existência da democracia, continua carente dos bons ensinamentos da cobertura do caso Watergate – com seu percurso atípico, não-linear, mas profundamente conectado com o interesse público.

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