Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

O cinema já voltou sua atenção para o jornalismo mais de uma centena de vezes, em produções de orçamentos variados, com elencos estelares (ou não) e uma quase obsessão pelos caminhos que percorre uma reportagem antes de chegar ao seu público. De “A montanha dos sete abutres” a “Todos os homens do presidente”, passando por “O Quarto Poder” e “Intrigas de Estado”, os filmes sempre trazem questionamentos de ordem ética a que são expostos seus personagens jornalistas. Os dilemas – mais do que as tecnicidades da profissão – atraem o espectador à posição do repórter e o convidam a refletir sobre a correção de sua conduta. No cinema, rende cerca de duas horas de diversão, mercado que a produção audiovisual para TV vinha ignorando até o surgimento de “The Newsroom”, série da HBO que estreou no final de junho nos Estados Unidos e que só desembarca no Brasil em agosto.

A audiência acostumada a ver em ação investigadores (na franquia “CSI”, “Law & Order”, “NCSI” e tantos mais) e médicos (“E.R.”, “House”, “Gray’s Anatomy”, “Scrubs”, etc.), agora tem a chance de ver o frenético e conturbado mundo do telejornalismo. Em “The Newsroom”, o gatilho é a explosão pública de um âncora num debate com universitários. Will McAvoy (vivido por Jeff Daniels) surta após ser indagado sobre “o que faz dos Estados Unidos o melhor país do mundo”. Comparado a um Jay Leno dos noticiários – o que significa dizer que não incomoda ninguém de verdade – , McAvoy vomita um glossário de razões que mostram justamente o contrário. Os Estados Unidos não são o melhor lugar para se viver. A surpresa gerada com a reação do antes cronicamente acomodado jornalista provoca suas férias forçadas. Quando McAvoy retorna, está com nova equipe e a possibilidade de voltar a fazer jornalismo de verdade. Mas isso se dá a despeito do que ele deseja.

Acontecimento jornalístico

A nova equipe de McAvoy tem à frente a produtora executiva Mackenzie MacHale (interpretada por Emily Mortimer), com quem o âncora parece ter um passado comum. Saber da chegada de Mackenzie na última hora é o gatilho para uma nova explosão de McAvoy, agora de mau humor e destempero. Enquanto ambos discutem na sua sala quem realmente manda no “show”, acontece um grande acidente ambiental em um poço de petróleo no Golfo do México. Como por mágica e sob a pressão do deadline, elementos da equipe antiga e da nova passam a trabalhar juntos, aos tropeços, para fazer um noticiário agressivo, disposto a trazer informação de qualidade e de interesse público. Os anteriormente acomodados são instados a reagir jornalisticamente, como se um instinto superior às suas vontades o tirassem na inércia.

A discussão entre McAvoy e Mackenzie merece atenção: em diálogos cortantes e rápidos, a produtora tenta convencer o âncora a oferecer um produto jornalístico com informações relevantes e úteis, de forma a fazer valer a função pública daquele telejornal. McAvoy resiste, menos por não acreditar naquilo, mas mais pelas mágoas que parece ainda acumular do passado com a jornalista. Os fatos – a crise na plataforma de petróleo – arrastam McAvoy para a necessidade de chacoalhar a poeira e assumir uma posição de maior risco.

Basta decidir fazer?

O primeiro episódio de “The Newsroom” traz ainda dois oportunos momentos para se pensar o jornalismo e sua ética. Quando a informação do acidente ambiental chega à redação, o antigo produtor de McAvoy hesita em acreditar nas dimensões da notícia. Acreditando num precário sistema de cores das pautas – a do vazamento era amarela -, Don não acha que aquilo seja o suficiente para um programa especial. Mas não é apenas a confiança no sistema de cores de pautas que o prende à quela certeza, e sim a insegurança de perder seu posto para Jim Harper, o jovem produtor trazido por Mackenzie. Mais uma vez, são as razões pessoais que guiam as escolhas dos jornalistas, cegando-os de forma egoísta dos fatos que se apresentam à sua frente e que exigem reações mais técnicas, impessoais, jornalísticas.

Um segundo momento para se pensar a partir do primeiro episódio de “The Newsroom” se dá ao final, quando já subiram os créditos do programa, a equipe já deixou a redação, e o diretor de jornalismo Charlie Skinner vai parabenizar McAvoy pelo sucesso da noite. O diálogo tem forte carga idealista da parte do executivo. Ele tenta convencer o âncora de que novamente estão no rumo certo, aquele que escolhe produzir um telejornal que incomode, que coloque fontes contra a parede e que seja agressivo na transmissão das notícias. Isto é, o caminho retomado é o do jornalismo e não mais do show, apesar de os norte-americanos chamarem de “show” tudo aquilo que exibem na TV. E a satisfação de Skinner tem um motivo: eles apenas decidiram fazer, apenas escolheram.

O idealismo repousa justamente na facilidade da explicação, como se não houvessem elementos que impedissem a escolha anteriormente ou que se contrapusessem a ela. Trocando em miúdos, será que apenas basta escolher para se fazer jornalismo na televisão atual? Será que os jornalistas estão dispostos a fazer isso? Será que os anunciantes e outros compromissos que atam as redes de TV poderiam permitir? Pode-se, afinal, dizer 100% da verdade na televisão? Suportaremos isso?

“The Newsroom” é só uma série televisiva e talvez não possa responder a esses questionamentos, mas a sua exibição já nos incita a fazer algumas das perguntas mais incômodas para o momento.