Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Uma piada antiga conta que andavam por uma praia Jesus Cristo, seu apóstolo Pedro e um fiel aflito. De repente, o filho de Deus e o futuro porteiro do céu passaram a andar na direção do mar, caminhando sobre as águas. O fiel foi acompanhando os dois, mesmo se vendo afundar cada vez mais. Quando estava com água na altura do nariz, não se conteve: “Jesus, me ajuda aqui!”. Piedoso, Cristo sorriu e disse: “Ó, São Pedro, ensina o caminho das pedras aí pro rapaz!”, revelando que ambos não levitavam sobre o mar e sim tomavam um atalho.

De gosto duvidoso, a anedota ajuda a ilustrar a ideia de como é bom ter a informação precisa no momento necessário. É justamente apoiado na expressão “O Caminho das Pedras” que o Diário do Litoral batizou seu recém-lançado guia de ética e autorregulamentação jornalística, livro de bolso que objetiva ajudar os repórteres do jornal, evitando “enfiar o pé na lama e ficar preso no lodo”.

Para quem não conhece, o Diário do Litoral é o popular Diarinho, tabloide que circula no Vale do Itajaí (Santa Catarina) e é notório por manchetes impactantes, linguagem sem pudor e irreverência jornalística. Há 33 anos nas bancas, o jornal já acostumou seus leitores com suas capas de cores fortes, noticiário apoiado em crimes-política-esportes, e um jeito malcriado de ser, a ponto de largar na primeira página manchete como “Timinho de merda”, referindo-se a uma derrota acachapante do clube de futebol da cidade (10/02/2012). O estilo do “macriado” – como se auto-refere o jornal – se deve não só a uma linguagem que – como a piada acima – tem gosto duvidoso, mas a uma postura avessa à bajulação dos poderosos e de autoridades de plantão.

Popular, influente e polêmico, o Diarinho é um fenômeno de vendas na região, apesar de recorrer a fórmulas do clássico sensacionalismo. Volta e meia pode-se ver na primeira página manchetes ambíguas, como a de 7 de abril de 2009, que aludia ao tombamento de um caminhão na estrada com 23 toneladas de frango congelado: “Pinto na pista”. Ou ainda carimbar abaixo do logotipo uma foto sangrenta de um corpo, vítima de assassinato ou acidente de trânsito, acompanhada de “Porradaço”.

Assumidamente marginal, porque faz questão de não se filiar à media mainstream, o Diarinho surpreende em alguma medida com o seu “Caminho das Pedras”, pois há quem possa ver nisso uma maneira de domesticar o “macriado”, de justificar alguns exageros ou ainda sustentar as práticas que tornaram o jornal conhecido nacionalmente. Não acho que seja o caso, e talvez a motivação maior seja sinalizar para os leitores que existem critérios para oferecer o produto naquela embalagem…

Decodificando

Além de orientar seus jornalistas em situações delicadas, o que o guia do Diarinho faz é explicar para o leitor comum como o jornalismo que se pratica ali é feito. Códigos de ética também servem para isso, e existem centenas de casos semelhantes. Chama a atenção pelo fato de o Diarinho querer fazê-lo agora e não antes, mas a iniciativa pode ser entendida como resultado do lento processo de modernização do jornal após a morte de seu fundador em 2004. Desde então, o tabloide lançou sua versão online, fez ajustes na redação e se insinuou no mercado da capital, Florianópolis. O colunista César Valente e formulador do guia adiciona outra razão: o Diarinho é filiado à Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e a entidade vem incentivando seus membros a implementar iniciativas de transparência e respeito ao leitor, entre as quais a edição de documentos, guias e manuais, conforme conta Valente por email:

“A maioria das demais providências sugeridas pela ANJ (canais para manifestação do leitor, espaço para cartas, forma de publicar correções, etc) já eram usuais no Diarinho, praticamente desde a sua fundação. Mas faltava um guia. A necessidade de colocar no papel alguns princípios da política editorial já era sentida antes da recomendação da ANJ,  sempre que se precisava ajudar jornalistas recém-contratados a entender mais rapidamente o que é e como “funciona” o Diarinho. A provocação da ANJ ajudou na tomada de decisão e na definição de prazos”.

De maneira geral, o guia trata de aspectos comuns e necessários da discussão ética no jornalismo: parcialidade, independência editorial, cuidados com as fontes, manipulação de imagens e dados, correção e precisão, distinção entre opinião e informação, e separação formal entre os departamentos comercial e editorial dentro da empresa jornalística. Em algumas situações, o Caminho das Pedras é bem sinalizado: o jornal “não vende pautas”, “sigilo de fontes é exceção”, “se o presente [oferecido pela fonte] for tão bom que dê pena devolver, deve ser devolvido”, “jornalista não é notícia”, entre outros. Em outras, nem tanto.

Na dúvida, fale com a chefe

O jornalismo é permeado de situações delicadas, de dilemas éticos. Um código de ética ou um guia precisam sinalizar condutas, e o que a bússola do Diarinho aponta, em vários momentos, é uma saída comum: a sala da diretora de redação. No item que trata de acordos ou acertos com as fontes, por exemplo, o guia não elimina tal possibilidade, apenas retirando da alçada do repórter a decisão final sobre aceitar ou não. Talvez o cuidado proteja o repórter de certas responsabilidades, mas não livra o leitor de receber informação eventualmente obtida em condições que sejam ilícitas ou antiéticas.

A mesma orientação é dada quando se trata de “gravações feitas em segredo (com ou sem autorização judicial), trechos de processos que correm em segredo de justiça, dados confidenciais obtidos por meios obscuros”. Tudo isso deve ser levado à direção para avaliação e tomada de decisão. É esperado mesmo que haja a preocupação de controlar esses passos tortuosos, mas a brecha deixada pode se transformar num fosso de permissividade para o jornal. O que impediria o Diarinho de agir como o The News of the World, que grampeou ilegalmente dezenas de pessoas no Reino Unido e precisou ser fechado?

O Diarinho “tá certo”

Edição de 27/05/2010

Um dos aspectos mais tratados pelo guia é a linguagem adotada pelo jornal: escrachada, bem-humorada, permeada de gírias e flexível a palavrões. O guia insiste: o Diarinho é “macriado” não porque use palavrões e a voz das ruas, mas porque não apela para o puxa-saquismo e à reverência. De forma fácil, o guia dá um recado importante e certeiro: ética não pode ser confundida com etiqueta, com bom-mocismo. Quem lê o Diarinho sabe que o jornal está longe de ser bonzinho ou educado, e que muitas vezes mais parece ranzinza e desafiador. Este jeito mal-criado de ser é uma maneira de sinalizar independência editorial, não comprometimento com os núcleos convencionais de poder. Esta é uma escolha editorial, um princípio de conduta e, por isso, um aspecto central da ética que o jornal se impõe. Neste sentido, o guia “tá certo”.

Mas o guia tropeça em algumas pedras e escorrega em outras.

Apesar de insistir que a irreverência está no DNA do jornal, o guia repete o que faz em suas edições diárias: recorre a um mito-fundador para justificar seu estilo, o fundador Dalmo Menezes. A tecla martelada é a que o jornal é uma extensão do temperamento do “veio Dalmo”, que criou o Diarinho à base da fala das ruas e que imprimiu nele o seu humor (bom ou mau). Porque o jornal tem genuínas origens populares estaria desculpado a se comportar de forma às vezes despudorada, apaixonada, indignada. O jornal seria um reflexo da comunidade, como querem fazer crer. Ora, isso é a construção de uma imagem de um produto editorial que pode se mostrar uma caixa de ressonância do leitor ou funcionar como uma máquina jornalística populista. Qual o limite entre uma coisa e outra? Difícil dizer. A grande contradição do guia é que, no afã de insistir na irreverência, o jornal é reverente ao seu criador, alimentando um imaginário conveniente: somos fieis ao espírito do “veio Dalmo”. Claro que a redação pode se esforçar a isso, o que ajuda a dar uma unidade editorial ao produto, mas um jornal é produzido a partir do trabalho de muita gente, e de pessoas diferentes, muitas das quais sequer conheceram ou conviveram com o fundador do “macriado”…

Pisando na bola

Edição de 01/02/2010

O Caminho das Pedras não fica tão evidente quando alguns aspectos mais agudos da ética jornalística são colocados em cena. O guia do Diarinho, por exemplo, afirma que o leitor deve ter acesso à autoria de fotos e informações apresentadas nos textos, mas é um expediente comum do jornal trazer matérias assinadas por nomes-fantasia, como o de Hyury Potter, por exemplo. Por que o anonimato? O que pode justificar essa opção?

Outros tropeços dizem respeito mais ao trabalho de editores – que respondem pelas decisões do que é publicado e com que destaque – do que aos repórteres. O guia de ética do Diarinho não diz nada sobre o uso de fotos sangrentas, chocantes ou apelativas em suas páginas, o que é bastante comum encontrar. Nesses casos, não estão em jogo apenas a morbidez, o mau gosto e o sensacionalismo. Estão em questão também apresentar pessoas mortas em situações degradantes ou vexatórias, sem qualquer possibilidade de defesa; intensificar o sofrimento de familiares; achincalhar com as pessoas, mesmo as mais criticáveis. Mas é o próprio guia de ética quem diz que “o Diarinho acredita que todos têm direito à sua boa imagem e à construção de uma boa fama na comunidade”. O que dizer quando se depara com capas que privilegiam o crime, a morte, a violência e a sensação de insegurança? Até que ponto um jornal deve se apoiar em estratégias que preferem alarmar a sociedade ao invés de informá-la e orientá-la a agir?

Edição de 08/10/2010

Os corpos sangrentos dividem espaço com as fotos de delegacia que tentam “fichar” os acusados de crimes. Assim, são carimbados os retratos de “traficas”, de “dimenores” (de costas), de “psicopatas”, de inimigos da sociedade. Entra em cena o jornalismo justiceiro que não se limita a registrar o fato, mas se apressa em escancarar o rosto dos acusados e suas identidades, de maneira a iniciar um pré-julgamento público de quem ainda não passou por um júri formal e institucional. A exemplo dos cartazes do Velho Oeste, com o título de “Procurado”, o Diarinho estampa as fotos daqueles que devem ser caçados e punidos, ignorando um princípio básico das democracias que é a presunção de inocência.

Polêmico e inquieto, o Diarinho resiste numa fórmula que desafia o tempo e a evolução dos valores nas sociedades mais complexas. Seu sucesso em bancas pode se dever ao formato diferenciado, ao estilo desbocado e até mesmo a bons serviços jornalísticos prestados à comunidade. Mas pode também ser fruto da necessidade de mais bom-humor na mídia, da irreverência editorial, de um contumaz desejo pelo mórbido e pelo cruel desejo de vingança popular. É difícil decifrar o segredo do sucesso do Diarinho.

O guia de ética e de autorregulamentação jornalística, recém-lançado, não explica esse segredo nem tenta fazê-lo. Mas pode ajudar o jornal a buscar caminhos mais transparentes na sua produção, dando a saber quais os critérios de escolha editorial. O próprio guia sabe de suas limitações, pois “não é definitivo nem esgota o assunto”. Avançar na direção do público não é apenas reproduzir a sua prosódia, mas também tornar claro como se chega ao resultado final do trabalho de apuração e edição jornalísticos. Não se trata de domesticar o “macriado”, mas de torná-lo mais claro, nítido e próximo de quem o consome. O guia é um passo, mas o caminho das pedras exige mais fôlego, persistência e senso de direção.

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