Samuel Lima
Professor da FAC/UnB, docente colaborador na UFSC e pesquisador do objETHOS

Virou “clichê do clichê” atribuir um poder quase místico – revolucionário e democrático – às redes sociais, especialmente as mais vistosas como Facebook e Twitter. O processo de celebrização de personalidades virtuais tem despejado, dia após dia, comunidades e páginas a serviço de determinadas causas e ideias. Simulacro de jornalismo, tais comunidades em geral orientam-se por alguma noção de “verdade” e suposto interesse público, mas trazem no seu DNA um paroxismo fatal: podem se converter, da noite para o dia, numa vertente para o fascismo.

Vamos refletir sobre um caso concreto: a comunidade “Diário de Classe”, página de Isadora Faber, 13 anos, estudante da Escola Municipal Maria Tomázia Coelho, no Santinho, Florianópolis. A comunidade foi criada em 11/07/2012 e no final de setembro chegou à casa dos 7 milhões de visitantes; outras 344,7 mil pessoas haviam “curtido” (até 23/10) e interagido, de algum modo, com os propósitos da página.

Abaixo do nome da comunidade, sobre um fundo vermelho, lê-se em letras amarelas: “A verdade…”. Ao lado de sua foto de perfil a promessa: “Eu Isadora Faber que tenho 13 anos, estou fazendo essa página sozinha, para mostrar a verdade sobre as escolas públicas. Quero melhor não só pra mim, mas pra todos”. Nos dias atuais, o jornalismo fala em publicar a melhor versão da verdade (ouvindo todos os lados possíveis da notícia) e a ciência pós-moderna admite que a margem de erro e a refutabilidade são critérios de cientificidade.

A estudante virou celebridade na internet. Ganhou páginas e espaços fartos na mídia tradicional, impressa e eletrônica. Viu seu modelo de comunidade ser copiado país afora (30 clones entraram no ar) e virou centro de um debate sobre os atributos místicos das redes sociais. Na realidade, o fenômeno Diário de Classe não é espontâneo. Ele foi turbinado pela mídia tradicional que multiplicou o número de acessos e conferiu legitimidade política. Como fenômeno midiático, o Diário de Classe se transformou como somatória de vários clichês: “a força das redes sociais”; “a falência da escola pública”; ou ainda o mais batido – “exemplo de cidadania”.

Isadora vira heroína porque reverbera estes clichês como realização de um sonho de celebrização, e mais: uma celebridade justiceira, moralista e vingativa. Tudo que se diz é pela ótica exclusiva de seu celular-espião. Os contextos são desprezados, o contraditório não existe e ela vira porta-voz da verdade. Que perigo!

Com efeito, para ilustrar essa possibilidade de viés de transformar o espaço da escola, independente de sua natureza (pública ou privada), em uma espécie de “Big Brother” cujo conteúdo será mediado e validado através do Facebook. O anjo vingador atuará, na forma de uma menina de 13 anos ou de seus clones, fazendo as vezes de promotoria, júri e juiz, sem direito a advogado de defesa. Ou seja, estaríamos diante do fim de um direito fundamental à vida em sociedade: a presunção de inocência. Ao acusador cabe o ônus de apresentar as provas, e não o contrário. Isto é a base dos direitos individuais previstos na Constituição Federal. Outro aspecto é o direito à privacidade. Ora, a publicação de imagens (em vídeo ou fotografia) deve ser balizada por critérios éticos, profissionais (no caso dos jornalistas e empresas habilitadas para tal) e razões de Estado – quando envolve entidades com poderes de investigação conferidos pela Lei.

Para observar isso mais de perto, vamos analisar e comentar criticamente algumas postagens do “Diário”.

Breve leitura das postagens

As primeiras postagens, feitas por Isadora e Melina (sua colega e parceira no “Diário de Classe” até 17/08/12) tratava de coisas como:

Essa é a porta do “banheiro feminino” da nossa escola que fica no Santinho. Nem fechadura tem!!! (Postagem 11/07/12)” [acrescida de uma foto do local.]

Ao final do primeiro mês de existência, a página ganhou ampla repercussão na mídia local, desembocando em canais nacionais de mídia (emissoras de TV e portais na internet), conferindo uma boa dose de visibilidade nacional, de 21 de agosto em diante.

No final de julho, duas semanas depois de colocar a comunidade no ar, Isadora e sua colega já percebiam que o diário iria ganhar uma dimensão maior que o Santinho. E anunciavam, já indicando o caminho a seguir:

Essa pagina não é contra a escola só que bem agora está a eleição e estamos mostrando a verdade sobre escolas publicas que não são cenários queremos saber quem vai melhorar isso, quem vai ser responsabilizar de ir ate a escola e cobrar, com que arrume e com que os alunos tenham atenção queremos punição ”coisa que é difícil” como falamos da menina que levou a arma. Porque ficar brabo com a verdade estamos querendo o que já era pra ser exigido não por alunos, mais SIM chegou ao ponto que alunas da escola estão exigindo a punição, pra ver onde chegou a coisa. (Postagem 30/07/12, extraída da página com grafia exata da autora)

Mostrar a “verdade” vista pelas lentes de seus celulares, em precários vídeos publicados na página, que cumprem apenas o papel de satanizar o professor “A” ou professora “B”. O clichê é um mantra: os professores são maus; a escola (pública) não presta e ponto final. Através do “Diário…”, o professor de matemática foi denunciado (não sabia dar aula, na visão de Isadora), julgado e executado – e por fim, demitido. Mas a coisa fica mais grave quando a comunidade assume a defesa da “transparência total”, ou seja, a colocação de câmeras de vídeo no ambiente da sala de aula, justificando pelo senso comum de “quem não deve, não teme”. Vejamos:

Sei de professores e funcionários que não querem câmeras internas por que a escola vai virar BBB [Big Brother Brasil, programa da TV Globo]. Na escola (particular) da minha irmã tem câmeras até dentro das salas e não tem problema algum. Qual problema de câmeras em escola pública? Quem não faz nada errado não tem do que ter medo. Em outros tempos podia ser assim mas hoje em dia tem que ter transparência. Como todo mundo sabe, quero ser jornalista e acho esse cartaz na secretaria da escola no mínimo duvidoso. [Na imagem do cartaz, lê-se: “A imprensa pode causar mais danos que a bomba atômica e deixar cicatrizes no cérebro”, atribuída a Noam Chomsky] (Postagem 27/09/12)

A falsa oposição entre transparência e obscuridade, nos termos apropriados pela autora da página em sua inocência, deixa de lado (e seus mais de 1,7 mil comentaristas também seguem na mesma linha) uma questão fundamental: o ambiente de ensino-aprendizagem, o sagrado chão da sala de aula não pode ser transformado num palco midiático, senão transformando a figura do professor e/ou professora num mero epifenômeno do processo de ensino-aprendizagem. Se falta de luz leva à cegueira, a “idade mídia” já provou com inúmeros exemplos que o excesso de luz pode igualmente levar a cegueira – e causar mortes de inocentes, como é o caso da estudante Eloá Pimentel assassinada pelo ex-namorado Lindemberg Fernandes Alves (ver artigo publicado em “A Notícia”, edição 02/11/2008, em parceria com o pesquisador Jacques Mick).

No espaço virtual de uma fanpage inexiste qualquer preocupação com o princípio do contraditório, amplo direito de defesa, presunção de inocência ou quaisquer outros direitos balizadores das relações humanas nas modernas sociedades democráticas. Vale o princípio do espetáculo e do publicismo, que remonta às origens do Jornalismo, no começo do século 17. Esse território é propício apenas ao aplauso. As vozes discordantes, poucas nos espaços de comentários do “Diário de Classe” são desqualificadas, ato contínuo. Uma delas recomendava à autora (sobre a instalação de câmeras de vídeo na sala de aula):

Meu anjo, existem motivos pedagógicos para não existir câmeras na sala de aula. Por que vc não convida a Angela Antunes do Instituto Paulo Freire pra falar para os professores, alunos e pais sobre a escola democrática? Ela tem um texto publicado na net bem interessante: “Democracia e cidadania na escola: do discurso à prática”. Lê e me conta o que achou? (Andrea Luswarghi)

Ora, a questão parece razoavelmente simples: as centenas de milhares de comentários publicados no “Diário…” se prestam à louvação e aplauso à autora da página. Inexiste o debate porque, paradoxalmente, este não é um espaço inclusivo, democrático. Esse é um exemplo inequívoco da negação da diversidade de visões e formas de conceber as coisas, presentes na dimensão real do mundo, da vida. A promessa de “transparência” é tortuosa tanto e quanto turva e precária sua noção de “verdade”. E lembremos: a comunidade promete “mostrar a verdade sobre as escolas públicas”, algo que poderia ser feito num esforço coletivo de reportagem ou ainda no âmbito de um projeto de pesquisa que tivesse como recorte esse objeto.

Por contraditório que pareça, a autora da fanpage precisa ser preservada do excesso de exposição midiática. Talvez ela não saiba que virou uma espécie de justiceira virtual. Foi ungida com atributos que não tem pela idade, pela imaturidade e pelas circunstâncias. O estrago que ela causa está, no momento, limitado a uma escola que ficou na berlinda, com as câmeras do grande irmão (e da pequena irmãzinha) voltadas para ela. Mas se surgirem justiceiros com relação aos costumes? Às opções sexuais? Às opções políticas? Às preferências estéticas? Aí poderemos falar, sim, em fascismo.

Nem verdade, nem verossimilhança. Apenas a dogmatização de uma visão possível da realidade, vista pelas lentes de uma menina de 13 anos, munida de seu celular e uma plataforma de publicação que não tem como valor fundante o critério de verdade – na acepção da palavra “veritas”: a verdade é passível de verificação, apuração, construção. Aqui vale o espetáculo da denúncia. Os acusados? Bem, eles que apresentem a prova de suas inocências… Nessa perspectiva, o Facebook poderia abrir as portas para o fascismo.

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