Francisco José Castilhos Karam
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Recentes ataques a policiais em São Paulo, Rio de Janeiro e Florianópolis, a mando de facções criminosas que ordenam assassinatos em represálias a ações do Estado, estão na pauta cotidiana da mídia em seus diversos suportes tecnológicos, do impresso ao digital, das emissoras de rádio às de televisão. Não é novidade nem a ação e nem a cobertura jornalística. A novidade é o volume e a intensidade das ações.

Com tais fatos ocorrendo de forma generalizada e às portas da casa de cada um, a cobertura poderia ter mais densidade, regularidade e longevidade. Para cada criminoso preso e/ou assassinado, corresponde hoje uma reação tão ou mais preparada pelas organizações vinculadas ao narcotráfico, ao contrabando de armas, ao tráfico de mulheres e de menores. O Poder de tais organizações chega a ser superior ao do Estado em muitas circunstâncias e regiões, seja em volume dos “soldados” , seja em volume de dinheiro que circula, chega pela estrutura armamentista.

Há algumas questões que podem ser propostas.

Uma delas é se as organizações do crime poderiam avançar sem o aval, ainda que parcial, das instituições do Estado. Outra é sobre a ineficácia do próprio Estado para resolver questões estruturais, o que levaria um contingente populacional significativo à adesão a um dos lados da contradição social, no caso, aos que oferecem as garantias de uma vida mais digna e satisfatória, seja em termos de apoio à escolaridade e educação e/ou à assistência médica; à moradia; ao “emprego” e à própria “ aposentadoria”. O crime se estrutura para tal e tem eficácia para formar e garantir um enorme número de aliados. E uma terceira abordagem permitiria tratar do cinismo, isto é, até que ponto os que combatem e denunciam também não são, em parte, os que consomem e traficam?

Se na ponta de baixo encontramos menores entregando drogas e matando sob ordens do crime organizado, protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, na ponta de cima, que estimula a de baixo, há uma volumosa circulação de dinheiro e que ajuda a matar menores ou maiores e que os utiliza a seu favor quando conveniente. Ela transforma o narcotráfico, por exemplo, num dos negócios mais rentáveis do planeta. Ao seu redor, orbita uma constelação de celebridades, que podem incluir desde um ator-ídolo até um juiz federal; desde um governante do executivo até um jornalista famoso.

O tráfico e consumo de drogas é recorrente, regular e reiterado a cada dia em diversos organismos do crime mas não deixa de existir, ainda que de forma parcial, em organizações do estado e em organizações midiáticas.

Na ponta de baixo, o assassinato à queima-roupa; na de cima, uma preocupação com os rumos da sociedade. As duas pontas não se encontram. E, na mídia, pouca cobertura há que sintonize as duas.

O resultado é que a preocupação com a solução dos problemas não vem acompanhada de uma efetiva cobertura jornalística que mostre as duas e/ou as muitas pontas do mesmo negócio e da lógica da sobrevivência dos diversos grupos envolvidos com os negócios escusos do dia-a-dia. Afinal, como no Direito, ninguém é obrigado a produzir provas contra si mesmo. Mas também o discurso jornalístico moralizador e punitivo tem uma ineficácia gigantesca, dada a superficialidade e a efemeridade com que o tema é tratado nos noticiários.

A tal ineficácia, aliam-se campanhas midiáticas pelo enxugamento do Estado, contra reajustes salariais para categorias do serviço público e , simultaneamente, pela resolução imediata dos graves problemas da criminalidade. Se “todos somos responsáveis”, falta muita cobertura jornalística que junte os diversos fios da mesma trama. Em uma estrutura global em que empresas jornalística são sócias das armamentistas, agropecuárias e banqueiras, por exemplo, a autonomia e a vontade do profissional para propor, investigar e relatar é limitada por constrangimentos de toda ordem: ameaças de morte; pressões econômicas e políticas; falta de estrutura; baixos salários (que obriga a buscar um segundo emprego); e desinteresse em algo duradouro. Como instituição vinculada à vitalidade democrática, o jornalismo tradicional e ainda hegemônico, a continuar assim, corre o risco de ver seu espaço de legitimidade e credibilidade sociais reduzido a poucos e eventuais momentos. Ou seja, sofre um ataque de si mesmo em nome de algo que já não é mais jornalismo e sobre o qual pouca gente tem preocupação.