Lívia de Souza Vieira
Mestranda em jornalismo na UFSC e pesquisadora do ObjETHOS

Não há nada que incomode mais o jornalista do que o erro, seja a grafia incorreta no nome de uma fonte ou um grave equívoco de apuração. Poderíamos listar aqui diversos erros que ocorrem na imprensa brasileira, com destaque para os webjornais, nos quais a velocidade de publicação muitas vezes atropela a precisão. Uma breve observação na seção Erramos, do Jornal Folha de S. Paulo na internet, mostra que os erros são diários e recorrentes. No entanto, esta reflexão parte do momento seguinte: após o erro, de que forma age o veículo jornalístico em relação a seu leitor?

Voltar a lente para o leitor é entender o que ele espera. Christofoletti e Prado afirmam que o jornalismo é uma atividade social que se apoia no compromisso de informar as pessoas dos principais acontecimentos da sociedade. “Mas, como se espera, as informações devem ser precisas, exatas, fiéis aos fatos. Logo, o público espera informação de qualidade, sem erros, sem distorções, sem incorreções”. Fiquemos com um exemplo.

Suzana Singer, ombudsman da Folha, traz em sua coluna do dia 12 de maio de 2013 um erro cometido em uma das matérias do TV Folha do dia 5 do mesmo mês. Trata-se de um vídeo obtido com exclusividade, que mostra um latrocínio em Moema (SP). “No início, os PMs deixam a vítima no chão, como prevê a norma que proíbe mexer em feridos, mas, ao descobrirem que se tratava de um policial reformado, mudam de atitude e levam o homem para o hospital”, afirma Suzana. No vídeo, dá para ouvir nitidamente o som dos tiros que acertam a vítima.

Uma matéria exclusiva, que questiona o não cumprimento de uma norma em detrimento do corporativismo e cobra explicações das autoridades. Digna de elogios, não fosse um detalhe ético: o vídeo original não tinha som.

Em sua coluna, a ombudsman afirma que é um grave erro de procedimento e acrescenta a justificativa do diretor João Wainer: “o programa não altera vídeos e errou ao incluir os ruídos de tiros. Uma correção irá ao ar hoje”. Apesar da promessa da retificação, ela não se cumpriu de forma adequada.

A errata foi exibida no TV Folha uma semana após a matéria ter sido veiculada, no fim do último bloco. Abaixo reproduzimos os frames, que foram ao ar sem narração:

 imagem 1

imagem 2

No entanto, percebemos uma importante falta de conexão entre a notícia retificada e as originais. Uma visita à página da primeira notícia publicada mostra que o vídeo continua lá, com o som dos tiros. Ainda há um texto que detalha a matéria, igualmente sem menção ao erro. A Folha ainda publicou uma nova notícia no dia seguinte (6/5), cujo primeiro parágrafo diz: “Registro em vídeo (sem som) feito por uma câmera de segurança em Moema, bairro nobre na zona sul de São Paulo, mostra policiais militares descumprindo resolução do governo ao socorrerem um homem baleado por ladrões, em vez de chamar o resgate”.

Mais uma vez, apesar de o texto incluir que o vídeo estava sem som – o que não chega a ser uma retificação, mas pelo menos avisaria o leitor de alguma forma – o vídeo publicado na página permanece com o som dos tiros.

Como o programa dominical é exibido simultaneamente na internet e na TV Cultura, consultamos a página da emissora e constatamos a mesma situação: vídeo publicado com o som dos tiros, sem qualquer retificação. Além disso, não encontramos errata na seção específica do site da Folha ou na versão impressa. Para completar, ainda enviamos uma comunicação de erro por meio do formulário que consta no site, mas não obtivemos resposta.

Uma breve reflexão deste episódio revela que, apesar de admitir o erro na coluna da ombudsman, o diretor do programa não tomou a atitude seguinte, igualmente indispensável: a de retificar a informação de forma adequada. Entendemos, portanto, que a errata é o instrumento que dá visibilidade ao erro jornalístico e deve ser utilizada todas as vezes em que a notícia necessitar de correção. Seu caráter é de prestação de contas com o público leitor, pois, agindo com transparência na admissão de erros, o veículo mantém sua credibilidade.

Imagine a seguinte situação: o leitor assistiu à matéria no site da Folha ou na TV Cultura e foi impactado pela cena, já que no próprio vídeo há uma mensagem de “cenas fortes”. Sabemos agora que essa “força” muito se deu pelo som dos tiros inserido artificialmente, já que a imagem não é muito nítida e mostra o fato de longe. A menos que o leitor tenha tido acesso à coluna da ombudsman ou tenha visto o TV FOLHA uma semana depois, ele jamais terá ciência do erro, já que não houve erratas nos canais onde a notícia foi propagada.

Soma-se a isso o fato de que, na internet, é quase impossível controlar a circulação de uma informação. Como mensurar quantas pessoas compartilharam o vídeo pelas redes sociais ou o republicaram em blogs, por exemplo? É a multiplicação do erro e um contrasenso, já que a internet possibilita, como nenhum outro meio, a retificação imediata e o registro na própria página onde foi divulgada a notícia. Para se ter uma ideia do alcance, segundo dados da Folha, o site possui 22 milhões de visitas únicas por mês, uma média de 730 mil visitantes por dia.

O erro incomoda o jornalista e admiti-lo, como fez a Folha, é o primeiro passo. No entanto, de nada adianta se não houver a atitude seguinte de efetiva correção em todos os canais onde ela foi disseminada. Trata-se de ultrapassar o desconforto e importar-se com quem realmente importa: o leitor.

Referência:
CHRISTOFOLETTI, Rogério; PRADO, Raffael Oliveira Do. Erros nos jornais: aspecto ético e fator de comprometimento de qualidade técnica. In: XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, 2005, Rio de Janeiro (RJ).