Guilherme Longo Triches
Mestrando em Jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

Os eventos ocorridos em São Paulo na última semana têm gerado discussões por todo o Brasil. Novas manifestações têm sido ventiladas, bem como outros temas, que não só os 20 centavos, estão vindo à tona. Nas redes sociais pululam comentários sobre a intervenção da polícia, a legitimidade dos manifestantes e o olhar da imprensa sobre o ocorrido. Também são propostos nomes às manifestações. A maioria relacionada ao vinagre ou à letra “V”.

É certo que as autoridades utilizaram-se do poder de polícia de forma desproporcional. Também me parece claro que a manifestação, que é um direito, dirime o fato de que seus participantes também possuem deveres frente ao tecido social. No entanto, ao objETHOS cumpre comentar a atuação da imprensa.

Um dos comentários comuns nas redes é de que muitos veículos tradicionais de comunicação só mostraram um lado. Só os dados oficiais quanto a feridos – nenhum civil, segundo as estatísticas – foram veiculados. A imparcialidade, enquanto princípio do jornalismo, impõe que todos os lados sejam ouvidos. A polícia é só um dos lados. Caso não conseguisse a palavra de manifestantes frente toda àquela situação, a reportagem devia, não só mostrar as cenas, mas também questionar os dados policiais, diretamente ou pela fala de quem narrava as cenas.

Outro comentário corrente na internet diz respeito à omissão dos jornalistas quanto à realidade. Só as redes sociais estariam mostrando a verdade. O fato de muitos jornalistas saírem feridos ou presos aponta noutra direção. A reclamação de que o jornalista “fica em cima do muro” é o trunfo do profissional naquelas ocasiões. Em cima do muro, acompanharia o ocorrido com certo distanciamento. Misturado ao movimento, correu riscos desnecessários. A função do repórter é reportar. Ao entrar na multidão, faz parte dela. Quem faz parte, é parcial.

Muitos jornalistas não estiveram presentes nas manifestações. No entanto, valeram-se de vídeos e fotografias feitos por manifestantes para repercurtir o evento. Este não parece ser um posicionamento correto dos jornalistas. Se uns estiveram muito próximos, outros estiveram distantes e acompanharam por alguns recortes o que aconteceu. Seria necessária a câmera 4K, que a rede Globo apresentou nesta Copa das Confederações, para ver vídeos com completude de informação. Segundo a Globo, a câmera possui resolução altíssima, fato que possibilita gravar o todo, como uma grande angular, mas caso haja necessidade de aproximação, ela não perde qualidade de imagem.

Por fim, parafraseando Mauro Wolf, o jornalista, por estar imerso no mundo das notícias é que está mais preparado para dizer o que é ou não é notícia. Muitos manifestantes querem lutar por direitos. A visibilidade é decorrência do somatório de critérios de noticiabilidade contidos no ato. O jornalista é quem os relacionará. Quem quiser aparecer, que vá para a arquibancada, onde fatalmente a 4K o encontrará.