Daniel Piassa Giovanaz
Acadêmico de Jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

Os acontecimentos jornalísticos mais fáceis de se mapear e denominar são aqueles que ocorrem mais frequentemente: em caso de dúvidas, os repórteres e editores solucionam suas dúvidas verificando como fatos análogos foram tratados anteriormente. O problema é quando acontece algo inédito, ou que possui especificidades que o tornam incomparável.

​A destituição do então presidente egípcio Mohamed Morsi pelas Forças Armadas do país na última semana provocou a indecisão dos jornalistas nos cinco continentes: será que devemos chamar isso de golpe? Embora esta não seja a primeira derrubada de um governo constitucionalmente legítimo na história da humanidade, não há consenso entre os jornalistas sobre o que difere um golpe de Estado de uma revolução, de um impeachment ou de uma guerra civil.

​No senso comum, são definidos como revolução (e não golpe) os casos em que a deposição do chefe de Estado é impulsionada por manifestações populares, pacíficas ou não. Essa definição, embora rasa, parece ser a preferida da imprensa internacional, e é justamente daí que derivam a falta de consenso, as discordâncias e incertezas – as praças repletas de egípcios festejando a queda do presidente indicam que uma parcela significativa da população do Egito é favorável a intervenção do exército; no entanto, não se pode esquecer que no dia 2 de abril de 1964 um milhão de brasileiros participaram da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, e nem por isso o que se sucedeu em nosso país foi uma revolução.

​A comparação com os primórdios da ditadura militar brasileira é logicamente inadequada, mas decidi incluí-la para provocar uma reflexão sobre a cobertura jornalística em casos desta natureza: os maiores jornais brasileiros, à época, não definiram os acontecimentos de 1º de abril de 1964 como golpe.

Um editor prudente, ao refletir sobre tais questões, concluiria que a decisão mais acertada é não qualificar o processo de transição de poder no Egito como golpe de Estado, nem como revolução. Cauteloso, ele utilizaria vocábulos aparentemente neutros como “deposição” e “destituição”, e esperaria até que a história desse uma resposta concreta. Porém, ao se abster da responsabilidade de dar nome ao acontecimento, o jornalista corre o risco de legitimar um golpe de Estado – ou seja, nada muito diferente do que chamá-lo de revolução.

Não creio que seja este o panorama político do Egito,tampouco penso que temos a necessidade de defini-lo como golpe ou revolução – entre o branco e o preto existem inúmeros tons de cinza, e para identifica-los é necessário não só uma apuração minuciosa das informações, mas também uma leitura crítica dos textos de agências de notícia. Refletir sobre a falsa neutralidade das coberturas internacionais é a única forma de evitar deslizes históricos, como a omissão dos principais jornais brasileiros diante do golpe no Paraguai em junho de 2012.

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