Melissa Bergonsi
Mestranda no POSJOR-UFSC e pesquisadora do objETHOS

Os jornalistas do Diário do Pará passaram por um grande vexame na semana passada. Em sua edição de 10 de julho, a publicação da família Barbalho, opositora conhecida do atual governo daquele estado, estampou em sua capa chamada para matéria que denunciava o precário estado da Santa Casa de Misericórdia de Belém ilustrada por três fotos que teriam sido enviadas por um suposto funcionário do hospital por e-mail aos repórteres do jornal. A que está no centro, onde aparecem bebês “acomodados” em caixas de papelão, é uma chocante imagem, mas não de um hospital em Belém. A foto que o jornal alega ter recebido de um funcionário da Santa Casa, se trata de uma imagem que ilustrou matérias sobre a situação caótica que vive o Hospital de Occidente, em Honduras, em novembro do ano passado.

Primeira página de 10/07/2013
Primeira página de 10/07/2013

Vídeo com a matéria de Honduras: http://www.youtube.com/watch?v=iGupZy-Fh84

Imagem nos sites de Honduras: http://www.reporteconfidencial.info/noticia/3180186/fotos-asi-estamos-en-el-hospital-de-occidente-recien-nacido-en-caja-de-carton-/

O episódio da falsa foto ganhou destaque nas redes sociais e deve render uma ação judicial do governo do estado contra o jornal. Enquanto isso, a publicação cuidou para estampar na capa do dia seguinte um editorial com pedido de desculpas (ainda que sem explicar as razões do erro) e ratificar que as condições da Santa Casa de Misericórdia são exatamente como as reveladas no texto da matéria (ainda que ilustrada por foto errada). A capa do dia 10 de julho foi retirada do ar da versão online.

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O erro do Diário do Pará é bastante parecido com o episódio que colocou o jornal El País em uma situação mundialmente constrangedora com a publicação em primeira página de uma falsa foto de um suposto Hugo Chávez entubado em Cuba. O periódico assumiu o erro, pediu desculpas e alegou ter comprado a foto da Agência Gtres Online. Logo depois, o jornalista italiano Tommaso De Benedetti assumiu publicamente que retirou a imagem de um vídeo do YouTube com o título “Entubação de acromegalia ANWAD” e a enviou para três agências como que para expor as fraquezas de apuração da mídia tradicional na atualidade. De Benedetti é conhecido pela imprensa mundial por se passar por personalidades como Umberto Eco e teria sido quem iniciou, pelo Twitter, a primeira falsa notícia da morte do líder cubano Fidel Castro. Em uma entrevista ao inglês The Guardian, em março de 2012, De Benedetti afirmou que as redes sociais são incontroláveis como fonte, mas a imprensa a usa e acredita pela necessidade de velocidade de publicação imposta nos tempos de hoje.

Tanto usa que uma pesquisa divulgada pelo Oriella PR Network entrevistou 500 jornalistas em 15 países do globo para investigar o impacto da internet no jornalismo. A edição de 2011 trouxe dados reveladores. Quase a metade dos entrevistados (47%) disse que usa o Twitter e um terço (35%) o Facebook para pesquisar novas matérias. No Brasil, o Twitter é o escolhido de 66,67% dos jornalistas entrevistados e o Facebook é a opção de 58,33% dos entrevistados como fonte para novas reportagens. Enquanto isso, as agências de assessoria de imprensa e/ou relações públicas aparecem como fonte para metade dos entrevistados.

Bem antes desses números, Carrol (2006) já afirmava que as redações teriam que aprender a tratar com esse novo tipo de jornalismo. Para Barcelos (2011), este movimento que dá também ao cidadão comum o poder de distribuir informação jornalística “é um dos mais conflitantes paradigmas do jornalismo na atualidade” (p.10).

De qualquer maneira, para Sodré (2011), o ambiente do boato está cada vez mais presente como notícia legitimada pela imprensa tradicional à medida em que as novas mídias, seu excesso de fontes somada à baixa qualidade de apuração se consolidam nas redações. É neste mesmo cenário, onde se assiste à implosão da checagem como pilar máximo do jornalismo, que se abre um grande e favorável campo de atuação para manipuladores de mídia como De Benedetti, o americano Ryan Holiday, autor de “Acredite: estou mentindo – Confissões de um manipulador de mídia” e também anônimos como o suposto funcionário da Santa Casa de Belém. Não apenas por uma profissionalização destas pessoas, mas pela crise que assola as redações enxutas e coligadas com o fenômeno das redes sociais, das informações de última hora, do publicar antes para checar depois, como afirma o próprio Ryan Holiday (2012):

“Conforme os veículos de mídia lutam com prazos mais apertados e equipes menores, muitos dos antigos padrões de verificação, confirmação e checagem de fatos estão se tronando impossíveis de manter” (p.159)

O paradigma fica explícito quando os constantes erros de publicações jornalísticas baseadas em informações veiculadas em redes sociais como Twitter e Facebook por perfis não confiáveis, faz a Online News Association (ONA), em 2011, reiterar uma série de recomendações óbvias sobre apuração e checagem de fontes aos jornalistas. Entre elas, pedir o número de telefone ao perfil para que possa ser entrevistado e perguntado se testemunhou ou ouviu falar sobre aquela informação, ou, então, buscar a fonte original da história. Regras básicas que estão sendo deixadas de lado por conta do ambiente descrito por Ryan Holiday, mas que se mostram cada vez mais incompatíveis com a ordem global da velocidade.

Pavlík (2000) já defendia que as funções do jornalismo devessem se afastar do breaking news e “caminhar em direção à análise da informação” para que possa escapar das armadilhas impostas pelo cenário das novas mídias. A ideia do estudioso é que o jornalista deva reduzir a energia que despende em ser o mais rápido, para trabalhar com mais inteligência. Ao mesmo tempo, Sodré (2011) defende que a “apuração metódica, como prática emblemática” não deva morrer sob o risco de a imprensa ver-se cada vez mais absorta em sua crise de credibilidade perante o público.

“Trata-se sim de olhar ao redor, na paisagem nacional, e tentar ver o que está acontecendo na ‘coligação’ implícita da mídia corporativa com as chamadas redes sociais na internet. Eticamente, é parecido com certas coligações partidárias: vale tudo”. (p.30)

Os jornalistas terão, hora ou outra, que reassumir suas obrigações básicas de mínima investigação ou o preço será – e já está sendo – além do que se pode pagar. Afinal, são as fontes em infinidade que estão fazendo chegar pronto às mãos do jornalista o que ele deveria buscar nas ruas.

Referências

BARCELOS, Marcelo. Jornalismo Cidadão: participação do leitor nos jornais do Grupo RBS em Santa Catarina. 2011. 176 f. Dissertação (Mestrado em Jornalismo) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis. 2011.

FLOCK, Elizabeth. Twitter hoaxer Tommaso De Benedetti comes clean. The Washington Post, em 30 de março de 2012. Disponível em: <http://www.washingtonpost.com/blogs/blogpost/post/twitter-hoaxer-tommaso-de-benedetti-comes-clean/2012/03/30/gIQARjYwlS_blog.html> . Acessado em 11 de julho de 2013.

KINGTON, Tom. Twitter hoaxer comes clean and says: I did it to expose weak media. The Guardian, Roma, 30 de março de 2012. Disponível em: <http://www.guardian.co.uk/technology/2012/mar/30/twitter-hoaxer-tommaso-de-benedetti?utm_source=feedburner&utm_medium=feed&utm_campaign=Feed:+theguardian/media/rss+(Media)>. Acessado em 12 de julho de 2013

PAVLÍK, John; MOREIRA, Sonia Virgínia. O impacto das tecnologias da informação na prática do jornalismo. Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, São Paulo, v. XXIII, n. 1, jan./jul. de 2000. Disponível em: < http://www.portcom.intercom.org.br/ojs-2.3.1-2/index.php/revistaintercom/article/view/540/509>. Acessado em: 10 abr.2012

Pesquisa Oriella PR Network 2011. Disponível em: <http://www.vianews.com.br/PESQUISAORIELLA2011FINAL.pdf>. Acessada em 20 mar.2012.

SILVERMAN, C.; JENKINS, M. B.S. Detection for Journalists. Disponível em: <http://www.slideshare.net/mandyjenkins/bs-detection-for-journalists>. Acessado em 12 de julho de 2013.

SODRÉ, M.; PAIVA, R. Informação e Boato na Rede. In Jornalismo_Contemporâneo – figurações, impasses e perspectivas. Salvador/Brasília, 2011. p.21-49.