Lívia de Souza Vieira
Mestranda no POSJOR-UFSC e pesquisadora do objETHOS

 No último dia 17 de agosto, o jornal Extra, do Rio de Janeiro, protagonizou um feito raro: publicou uma errata na capa do jornal. “Extra erra e dá a entender que aumento valia para toda a categoria”, dizia a chamada, referindo-se às negociações durante a greve dos professores.

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Tudo começou com a manchete do dia anterior, que afirmava: “Paes dá até 35% de reajuste a professores, mas eles rejeitam“. O erro estava principalmente na palavra ‘reajuste’, pois os 35% eram, na verdade, uma equiparação pela qual professores II e merendeiras lutavam há anos. Não haveria, portanto, melhora de salários. E como o reajuste real que os professores pleiteiam é de 19%, essa equiparação proposta pelo prefeito era, logicamente, insuficiente.

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Dada a contextualização inicial, analisaremos alguns acontecimentos importantes entre a publicação da notícia original e a errata. São 24 horas que dizem muito sobre o empoderamento dos leitores e sobre questões éticas aplicadas ao jornalismo online, discussões que surgem e se renovam no contexto da cibercultura.

Na manhã do dia 16, logo após a manchete com o erro chegar às bancas, o Extra publicou em sua página no Facebook a capa daquela edição, desejando a todos “bom dia e uma ótima sexta-feira”. Mas o dia certamente não seria bom. Foram 245 comentários e 95 compartilhamentos em tom de grande revolta. Desses, 27 pessoas – a grande maioria, professores –  pediam explicitamente que o jornal publicasse uma retratação, diante do erro flagrante. Além disso, muitos deles questionavam a credibilidade do Extra. Uma das leitoras chegou até a publicar o tradicional juramento feito pelos jornalistas no ato da formatura, afirmando que o jornal deveria ‘relembrá-lo’. Veja abaixo alguns exemplos:

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Diante dessa tensão, o jornal publicou uma nova notícia em sua versão online, às 18h22, afirmando que “O Extra errou ao dar a entender que o aumento beneficiaria toda a categoria. A diferença salarial será para cerca de 1.500 docentes, que terão uma equiparação”, errata bem semelhante à que seria publicada no dia seguinte. Rapidamente, o jornal postou um link para essa notícia, como um comentário ao fatídico post que anunciava a capa equivocada. Como não explicitou que se tratava de uma retificação, as pessoas continuaram pedindo a retratação na capa do jornal. Veja:

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Enfatizamos que a iniciativa de publicar a notícia retificada antes mesmo da edição do dia seguinte é muito característica do jornalismo online. Hoje, o veículo não precisa mais esperar para retificar. A errata também pode ser dada em tempo real, aproveitando as potencialidades do meio. A falha do jornal, que infelizmente se repete em outros veículos, é a de não conectar as duas notícias. Visando levar a informação completa e contextualizada aos leitores, o Extra deveria ter mencionado a errata na notícia original. Assim, a correção teria sido feita na mesma página, sem, no entanto, apagar a informação inicial, importante para o contexto da própria errata.

Durante todo o dia 16, a pressão dos professores continuou nas redes sociais. Imagens como as abaixo circularam por diversos perfis e são exemplos do alcance negativo do erro num contexto de empoderamento do leitor. Seja com bom humor ou raiva, é fato que a liberação do polo emissor da informação, antes majoritariamente nas mãos dos jornalistas, traz consequências rápidas e desastrosas, se não solucionadas em tempo.

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Foi assim que o Extra publicou, no dia 17 de agosto, a rara errata na capa do jornal. Dessa vez, o post no Facebook teve mais elogios que críticas, em consonância com o seguinte raciocínio ético: embora os jornais temam perder leitores com a admissão de seus erros, os próprios leitores, por saberem que os jornais erram, estão dispostos a perdoar os erros – desde que admitidos. Ou seja, agir com transparência ao errar pode ser a melhor maneira de não perder leitores.

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Há mais de 10 anos, o jornalista Ricardo Noblat relatou um caso semelhante no Correio Braziliense e chegou à seguinte conclusão, após ter ganhado o Prêmio Esso de “melhor contribuição à imprensa” pela atitude tomada:

“Nunca vi um erro ser tão celebrado! Assim como não se deve brigar com a notícia, muito menos se deve brigar com o erro. Erro existe para ser confessado. Os leitores sabem que os jornais erram. E na maioria das vezes, estão dispostos a perdoar os erros – desde que admitidos. E desde que também não errem tanto quanto costumam errar” (NOBLAT, 2002: 40)

Mesmo com falhas no percurso e sofrendo grande pressão dos leitores, a atitude do jornal Extra precisa ser lembrada como um bom exemplo, que deve se tornar cada vez menos raro. Ser transparente é, em última instância, admitir erros na mesma proporção em que foram difundidos.

Referência:
NOBLAT, Ricardo. A arte de fazer jornal diário. São Paulo: Contexto, 2002