Samuel Lima
Professor adjunto da Faculdade de Comunicação da UnB e pesquisador do objETHOS

Depois de acompanhar, em tempo real na Internet e nas redes de TV aberta, as manifestações no Sete de Setembro de 2013, ontem, saí cedo no domingo à cata de quatro grandes jornais impressos para conferir suas narrativas e enquadramentos, pelo menos em torno dos principais elementos de edição: manchetes, imagens, linhas finas e algumas passagens de lides nas páginas de Correio Braziliense (Brasília), O Globo (Rio de Janeiro) e os paulistas O Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo.

Na véspera, a meu juízo, ficou nítida a tentativa desesperada de síntese dos acontecimentos, na narrativa da TV Globo (com leve discrepância no DFTV, o telejornal de sua afiliada, em Brasília), que pudesse dizer algo aos telespectadores: restou à apresentadora do Jornal Nacional (JN, ed. 07/09/13) o enunciado: os protestos eram “contra a corrupção, pela melhoria dos serviços públicos e prisão imediata dos mensaleiros julgados pelo STF”. Nas imagens, nenhuma alusão direta a isso. Questão de fé!

Voltando aos jornais impressos, à primeira leitura fica evidente uma questão de fundo: o desencontro altamente relevante de informações, com números díspares de gente presente aos desfiles oficiais, nas manifestantes e até a identificação de eventuais “entidades organizadoras”. Observemos as manchetes e linhas finas (de apoio):

1) Correio Braziliense:

Manchete: “Protestos, confrontos e depredação em Brasília”, sem linha fina, sustentada por quatro imagens, uma delas em seis colunas captando o momento, segundo o jornal de maior tensão (quando manifestantes tentaram marchar rumo ao Estádio Nacional Mané Garrincha).

2) Folha de S. Paulo:

Manchete: “Protestos no Rio e em Brasília têm confronto e detidos”. Na linha fina, o diário paulista acrescentava: “Manhã de Sete de Setembro não atraiu multidões, porém pequenos grupos causaram tumultos em diferentes capitais” (com duas imagens dos confrontos no Rio e na Capital Federal);

3) O Estado de S. Paulo:

Manchete: “Brasília tem desfile esvaziado e Rio enfrenta protestos”. Na linha fina: “Dilma deixa comemoração da Independência sem ver confronto; manifestantes invadem desfile carioca”. Uma imagem do confronto no Rio e uma fotolegenda da presidente Dilma acenando, no desfile de Brasília fechavam a capa.

4) O Globo:

Manchete: “Violência de mascarados domina protestos no país”. Nas linhas finas sobrepostas: “Pelo menos 212 pessoas são detidas em doze capitais; mais de 30 saem feridas” e abaixo: “Grupo invadiu desfile militar no Rio; em Brasília, confronto começou após parada, na qual Dilma foi aplaudida”. Na imagem em cinco colunas, a ação dos Black Blocs, no Rio de Janeiro, na estátua de Zumbi dos Palmares, retirando a bandeira do Brasil – que seria queimada, ato contínuo.

Note-se que os jornais paulistas (Folha e Estadão) não cobrem os confrontos em São Paulo (capital), porque seus horários de fechamentos adiantados os impediram de realizar a cobertura em tempo hábil. A “Folha” fechou a edição de domingo (08/09), às 14h38 do dia 07; já o Estadão encerrou a edição dominical às 15h do sábado (07/09). Na capital paulista, o Grito dos Excluídos, que reuniu 5 mil manifestantes, aconteceu no período da manhã. Organizado por entidades ligadas à Igreja Católica, Movimento dos Sem-Teto, entidades sindicais e associações de moradores, fez um trajeto da Avenida Paulista em direção à Zona Sul, evitando qualquer confronto com o desfile oficial, no Sambódromo. Os Black Blocs paulistas entraram em cena no período da tarde, quando os dois jornais já tinham fechado suas edições nacionais.

Dança dos números e desinformação

O desencontro das informações começa nas primeiras linhas dos lides das reportagens. Quantas pessoas foram aos desfiles? No exemplo mais simbólico, o desfile oficial de Brasília, os números são díspares: 5 mil pessoas na Esplanada (Correio Braziliense e O Globo, citando a PM); o público teria sido de 10 mil para o Estadão e 15 mil para a Folha. Faça sua média, caro leitor.

O ziguezague dos dados prossegue quando se trata de medir quantos manifestantes foram às ruas. Observe que todos trataram de minimizar o fiasco do que foi chamado, pelas redes sociais, como “o maior protesto da história do país”. Quanta gente foi protestar? Para O Globo, o mais otimista e totalmente “fora da curva”, em Brasília 40 mil pessoas foram às ruas (certamente, o editor de política não conversou com correspondentes e nem acompanhou imagens da afiliada da Globo, no DF); o Correio Braziliense foi mais comedido e contou apenas 1 mil manifestantes; na Folha, apenas 250 manifestantes (número da emissora local da Globo, reafirmado no DF-TV, telejornal das 19h); O Estadão não estima esse dado e diz apenas que o número de policiais mobilizados (4 mil) era muito superior aos manifestantes. No portal G1 (Globo.com), na véspera, esse número foi de 1.300 militantes. Qual seria o número correto? 40 mil (O Globo), 1.300 do G1, os 1 mil do Correio ou ainda os 250 da Folha/DF-TV?

O infográfico publicado no portal de notícias G1 trazia os números de manifestantes nas ruas, com coisas bizarras do tipo: 1) Florianópolis contou com exatos 53 pessoas protestando; 2) Manaus, 20 seres humanos foram às ruas; 3) Em João Pessoa e Rio Branco, outras 70; 3) Salvador (com 3 mil) e Recife (com duas mil) foram as capitais com mais gente na rua, protestando. Pelos cálculos do G1, pouco mais de 16 mil pessoas participaram dos protestos, no país.

Em suma, a manchete de O Globo revela à perfeição a síntese política perseguida pelo principal ator em cena (os chamados Black Blocs, que não foram citados uma única vez na edição do JN, 07/09/13). A violência, como estratégia política, mas, sobretudo midiática desse grupo anarquista paramilitar, foi o que “salvou o protesto”, do ponto de vista de garantir espaço de mídia com uma narrativa crítica ao governo federal. Dois outros grupos, que operam na Internet, foram citados pelos jornais, além dos Blocs: o Anonymous Brasil (que se reivindica apenas uma “ideia” e diz lutar contra a corrupção) e a Anel – Assembleia Nacional de Estudantes Livres. Por seu lado, militantes de entidades que organizam, há 20 anos, o Grito dos Excluídos ocuparam praças e ruas, resgatando antigas bandeiras (reforma agrária, reforma urbana, políticas de inclusão social, pelo fim da violência etc.) e fizeram um caminho distinto, evitando confrontos. O Grito nasceu da luta do Setor Pastoral Social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em 1993.

O Rio de Janeiro deve ser visto como outro “ponto fora da curva” em termos de repressão e falta de cintura democrática. É hoje a máxima expressão de uma PM que manteve intacta o modus operandi da ditadura militar. Há ainda uma pergunta sem reposta: cadê o Amarildo? O governo Sérgio Cabral, refém dos paramilitares e do crime organizado, agoniza em praça pública…

É possível que o temor da violência entre manifestantes e forças policiais tenha contribuido para esvaziar os desfiles oficiais. A promessa de que “Dilma voltaria ao centro dos protestos”, feita via redes sociais (e estampada Correio Braziliense, ed. 07/09) também não se consumou. A estratégia midiática dos Black Blocs (e outros grupos difusos) é a única coisa a registrar neste Sete de Setembro. Do ponto de vista democrático, nada mais retrógrado do que alimentar a repressão e manter vivo o modus operandi das PMs, herança maldita (e greal) da ditadura militar. Do ponto de vista dos grupos de mídia (aqui representados por estes quatros jornais), resta o velho e manjado protagonismo político, afinal as eleições de 2014 estão na esquina. São quatro jornais à procura de um ator.