Guilherme Longo Triches
mestre em Jornalismo pelo POSJOR e pesquisador do objETHOS

As pessoas, quando reunidas com amigos, acabam por externalizar pensamentos que, noutros ambientes, não o fariam. Soltam pérolas que muitas vezes evidenciam preconceitos. No entanto, servem como marca daquela pessoa. Caso agisse doutra forma, talvez aqueles ao seu redor não fossem seus amigos. E amigo que é amigo falaria: “Não diga estas coisas… manere…”. Assim, falar o que se pensa em ambientes que possibilitam esta descontração é normal.

No entanto, a descontração ultrapassou a fronteira das reuniões informais. Hoje há as redes sociais. Apesar de tratarmos nossos contatos nas redes de relacionamento como “amigos de facebook”, por exemplo, estes muitas vezes não são propriamente amigos. Assim, quando externalizamos nossos pensamentos via rede social, podemos estar falando coisas que chocam quem não é do nosso convívio próximo. A Revista Época da última semana (09 set. 2013) trouxe matéria de capa sobre estas manifestações que, no ambiente corporativo, “deixaram a salinha do café, os corredores escuros e ganharam visibilidade: estão na internet – onde todo mundo pode ver.” (pág. 78)

Nas empresas este comportamento tem gerado problemas de relacionamento entre colegas de trabalho. Não raro a exposição dos pensamentos via redes sociais tem exposto situações que acabam parando na justiça. Este também tem sido o destino de contendas envolvendo jornalistas que escrevem, mesmo informalmente, nas redes sociais.

Nas últimas semanas, dois jornalistas tiveram problemas desta ordem. O primeiro deles, a jornalista Micheline Borges, foi acionada judicialmente pelo Sindicato das Empregadas e Trabalhadores Domésticos da Grande São Paulo por comparar, por meio do Facebook, médicas cubanas a empregadas domésticas. Tais profissionais de saúde, bem como médicos de outras nacionalidades, foram trazidas ao Brasil pelo programa Mais Médicos do governo federal.

O segundo jornalista a se dar mal foi Flávio Gomes, então na ESPN Brasil. O jornalista, por meio de seu twitter, elencou uma série de ofensas ao clube de futebol Grêmio e sua torcida. Tudo por culpa de um possível beneficiamento da arbitragem ao time gaúcho em jogo contra a Associação Portuguesa de Desportos. Flávio Gomes, torcedor da Portuguesa, foi demitido da ESPN Brasil.

O jornalista da contemporaneidade, pela visibilidade que possui, não detém uma profissão qualquer. Investido na condição de jornalista, este é jornalista toda vez que se posiciona, seja no meio de comunicação, seja na rede social. Ele é uma personalidade, seguida tanto por ser jornalista, quanto por ser uma pessoa conhecida. Quando o jornalista fala o que pensa, mesmo nos rincões do Brasil, seu nome cairá no burburinho virtual, com uns a favor e outros contra. Poderá, inclusive, virar notícia de jornal.

Sabe-se que a imparcialidade é um objetivo a ser alcançado no trabalho do jornalista. Seja na rede, onde o jornalista se exprime também como cidadão, ou em seu local de trabalho, o profissional será cobrado, sobretudo pela população, enquanto jornalista que é. Este deve fazer uma breve reflexão antes da publicação nas redes de relacionamento: “Eu falaria isso no jornal?” Por mais angustiante que seja não se exprimir ou não ter um momento de cidadão comum, o jornalista deve encarar este ônus. Do contrário, falando o que “der na telha”, ratificaria a visão do Poder Judiciário brasileiro que julga que qualquer um pode ser jornalista.

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