Elaine Manini
mestranda de Jornalismo na UFSC e pesquisadora do objETHOS

Esta semana os profissionais estrangeiros do programa Mais Médicos do governo federal serão recebidos nas capitais brasileiras dos estados onde irão atuar. O programa rendeu inúmeros debates e manifestações por parte da classe médica além de muitos comentários nas redes sociais que trouxeram à tona outras questões envolvidas no contexto da saúde pública no Brasil. A escassez de médicos no mercado brasileiro relacionada a carência de vagas nas universidades e a falta de infraestrutura nos hospitais e postos de saúde que atendem pelo SUS são as primeiras relacionadas ao tema. Mas o programa de governo possibilitou também pensar em boa parte da população brasileira que reside nas regiões mais afastadas para onde muitos médicos brasileiros se recusam a ir. A baixa atratividade de pequenas cidades do interior do país ou das periferias das grandes cidades, muitas vezes relacionadas à baixa condição de vida, é um dos fatores principais que levaram o governo adotar mais uma medida emergencial – a polêmica importação de médicos.

A observação da cobertura deste tema em três veículos de distintas abrangências possibilitou a reflexão de diferentes questões sobre os direcionamentos do jornalismo praticado em cada um deles. Será feita aqui uma breve análise de matérias publicadas sobre este tema nas últimas duas semanas no nacional Folha de S.Paulo, no estadual Diário Catarinense e no municipal Palavra Palhocense.

Neste domingo a Folha de S.Paulo destacou uma equipe com três enviados e um correspondente para diferentes municípios do país, o que possibilitou ao veículo fornecer ao leitor algumas informações sobre as realidades desses municípios. A matéria “Cubanos atuarão em postos sem banheiros e com trincas” denuncia as precariedades da infraestrutura de trabalho em que os profissionais irão atuar. Vale o reconhecimento de que o veículo não trouxe apenas números e declarações de governantes, mas um contexto montado a partir da observação in loco e de depoimentos. Entretanto, a afirmação de que falta contrapartida das prefeituras no cumprimento das “cláusulas do programa” não traz respostas sobre que exigências foram feitas, o que foi acordado entre os governos em termos específicos, quais as justificativas apresentadas e quais as soluções previstas. A matéria “Moradores farão festa para receber profissionais” trata da recepção dos médicos em diferentes municípios com detalhes que enriquecem a cobertura e dá uma noção se não completa, ao menos parcial da situação local: “Os médicos serão recebidos com refrigerantes e salgadinhos”. O leitor mais atento pode se perguntar: em que cidades a chegada de um médico é motivo para festa? Além disso, a singeleza do gesto demonstra a realidade e apreço local. São detalhes que comovem o leitor pela informação.

Reconhecidos os acertos da Folha, observemos alguns escorregões ocasionados talvez por conta de uma venda cultural colocada nos olhos do repórter que o impede de enxergar a realidade que se mostra e pensar contra a corrente. Em “Em Pernambuco, médico vai dividir quarto” trata-se das más ou até péssimas condições de moradia, em alguns lugares, dos médicos participantes do programa, com certo tom de absurdo. Afinal de contas, em nossa sociedade um “doutor” dividir quarto, ou ter que morar em uma casa em frente a um templo com cultos religiosos barulhentos, ou não ter chuveiro elétrico parecem coisas impensáveis. Vale ressaltar, no entanto, que esses médicos não vão estar retirados do mundo. Se eles vão a determinados lugares é justamente porque lá há pessoas, não menos dignas nem menos merecedoras de direitos que qualquer outra classe. No entanto, em algumas considerações essas impressões passam desapercebidas. O que parece é que expectadores consideram que para quem nasceu na pobreza, viver em tais condições não é algo tão absurdo que gere espanto. Beira ao natural e por isso não é pauta jornalística na ideia de quem nunca precisou passar por isso.

Uma última consideração nas matérias da Folha relaciona-se às referências aos cubanos. Dos 1.778 médicos do programa, 400 provém de Cuba. Os demais são brasileiros e estrangeiros de outras nacionalidades. Interessante observar como algumas questões, como compreensão do idioma ou como os médicos irão reagir diante de dificuldades, são referenciadas apenas aos cubanos, como se os outros médicos não fossem passar pela mesma situação. Talvez por não participarem da “evoluída” sociedade capitalista, os cubanos recebam de nossa limitada capacidade de compreensão um possível rótulo de “extraterrestres”. Inimaginável a contratação por parte de um terceiro quando se trata do Estado. Como pode o Estado não admitir que a classe médica não seja remunerada muito acima da maioria da população, seguindo a auto-regulação do mercado? Talvez se o contrato fosse feito com alguma empresa privada de médicos que lucrasse em cima das contratações por emprestar seus profissionais a relação comercial não seria vista como algo tão distante de nossa realidade. Mas esse já é outro tema.

Diferente da Folha, o veículo estadual Diário Catarinense limitou-se na última semana à cobertura mais factual do programa Mais Médicos. E aqui uma observação interessante: indo no inverso do que algumas teorias apontam, embora timidamente, a versão on-line conseguiu contextualizar mais que a versão impressa. Ainda assim, nada além de uma apresentação de números e dados da distribuição dos médicos, sem muitas reflexões. A primeira notícia da semana no impresso sobre o programa, falava do descredenciamento de Florianópolis e Blumenau por exigências locais não aceitas pelo governo federal e o pronunciamento descabido do secretário de saúde de que “o lado bom é que conseguimos resolver a falta de médicos tirando dinheiro do nosso bolso”. Pergunta-se: Por que então a prefeitura precisou do incentivo do programa para fazer esse esforço? Segunda questão: não seria melhor para o município ter duas vezes mais: ter “mais Mais” Médicos? As respostas inexistem porque na cobertura não há tais perguntas ou não há espaço na edição para isso. No dia seguinte, publica-se a notícia de que prefeito de Florianópolis voltou atrás, e, no subseguinte, a notícia de que o prefeito de Blumenau também repensou seu posicionamento. Interessantes respostas, sem muitas justificativas plausíveis. Balanço do Diário: papel cumprido com relação a essas duas cidades. Mas, e as demais? A última notícia fala da chegada dos médicos estrangeiros, que serão divididos entre 16 municípios, receberão treinamento sobre o SUS na primeira semana, e ponto. As condições de infraestrutura dos postos de saúde catarinenses, as necessidades dos municípios, como os médicos serão recebidos nas comunidades, o que as entidades de classe falam a respeito, a informação se as universidades catarinenses estão entre as que darão respaldo ou entre as que divergem do programa e não darão apoio, são outras perguntas sem respostas. As restrições da cobertura não permitem ir muito além na compreensão da saúde pública no Estado.

No jornal municipal de Palhoça, apesar de ser o jornal local, não se encontram tantas localidades como as que foram percebidas no nacional Folha de S.Paulo. Entretanto a expectativa de compreensão da representação do programa para o município e do contexto da saúde pública na cidade é em parte correspondida com esclarecimentos sobre atuação dos médicos e um panorama da infraestrutura disponível nos diferentes bairros (mas sem muitos detalhes). A cobertura também levanta necessidades cobradas pela população, como a existência de um hospital em um município com mais de 150 mil habitantes, e cita a complexidade envolvida na construção do mesmo (embora não explique muito bem tal complexidade, atendo-se a uma única fonte, o secretário de saúde do município). A matéria também levanta como um problema cultural da população o fato de geralmente buscar primeiro a emergência de um hospital e não uma unidade de pronto-atendimento. Fica faltando aqui as informações de serviços úteis para solucionar ao menos este problema: esclarecer a diferença.

Tais apontamentos fizeram observar que a abrangência dos veículos não é necessariamente o que delimita seu direcionamento, e talvez essa definição tenha mais a ver com aquilo que se convencionou chamar nas redações por linha editorial. Não se ousa apresentar nesse breve ensaio uma definição para isso, mas acredita-se que nesse tipo de análise há pistas e que elas indicam o comprometimento (ou a falta dele) do veículo com seu público-alvo. Com relação ao tema, nota-se que o jornalismo ou deixa de mostrar a existência de a dura realidade no interior do país, ou demonstra total estranheza ao modo de vida das pessoas que habitam esse país que não deveria existir, mas existe.