Thiago Amorim Caminada
Mestrando em Jornalismo (UFSC) e membro do ObjETHOS
Morador de Itajaí, município da Foz do Rio Itajaí-Açu

Na semana que passou, o Vale do Itajaí (região do estado de Santa Catarina que compõe a bacia hidrográfica do rio Itajaí-Açu) sofreu com as recorrentes enchentes. Nos veículos de abrangência nacional, Santa Catarina era retratada abaixo das águas pela terceira vez nos últimos seis anos (enchentes de 2008, 2011 e, agora, 2013). Já os veículos de circulação regional e local desdobravam-se em cobrir os acontecimentos e apresentarem as projeções dos órgãos oficiais sobre o nível das águas e as possíveis áreas alagadas no decorrer das horas.

Jornal de Santa Catarina, 25 de setembro de 2013
Jornal de Santa Catarina, 25/09/2013
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Enquanto as estações de rádio e as emissoras de televisão educativas e comunitárias com área de cobertura no Vale do Itajaí interromperam suas programações em vista dos acontecimentos, os jornais impressos, por questões técnicas, dominaram as redes sociais na Internet. Os meios de radiodifusão abriram seus telefones no ar para colherem depoimentos e esclarecerem dúvidas de suas audiências. Uma estratégia um tanto quanto arriscada, mas colaborativa em que os moradores informavam o nível dos rios próximo às suas casas ou até a invasão das águas em suas ruas. As retransmissoras de redes nacionais entravam com boletins ao vivo durante a programação.

Nos sites de redes sociais, os veículos de comunicação disputavam a audiência e a credibilidade com os núcleos de defesa civil municipais e uma multidão de internautas nem sempre bem intencionados. Entre os veículos e os órgãos governamentais uma sequência de retuítes e compartilhamentos mútuos. Enquanto a página da Defesa Civil compartilhava fotos publicadas pelos veículos, os mesmos retuitavam os boletins oficiais. Já os internautas, além da republicação de conteúdos dos órgãos jornalísticos e de governo, também publicavam suas fotos e medições, porém nem sempre confiáveis. Em alguns momentos, houve a postagem de diversas fotos das catástrofes de 2008 e 2011, de maior abrangência, causando desinformação e pânico nas redes.

Mesmo que este não seja simplesmente um texto de ratificação da credibilidade das instituições jornalísticas e da sua importância na cobertura de catástrofes, se faz necessário fazer este parêntese aos leitores de diversas regiões do país. E, de fato, as empresas jornalísticas cumpriram seus papéis de responsáveis pela divulgação de informações checadas e respaldadas pela ética jornalística prestando, assim, um serviço público.

O dever de informar com qualidade atende a várias características de uma boa prática profissional, mas não atende a todas. Além da cobertura nos acontecimentos, o jornalismo é um espaço público para debate de ideias. Não se faz jornalismo apenas reportando fatos, mas discutindo-os e trazendo-os ao centro da sociedade. O caso das enchentes em Santa Catarina necessita não só de aprofundamento, mas de debate.

Sabe-se que os problemas das enchentes são de ordem geográfica, afinal existem registros históricos de alagamentos na região desde o século XIX, mas é também de ordem política, estrutural e da ocupação urbana. Não se pode alertar previamente a população da iminência do fato, cobrir o avanço das águas, registrar os estragos e a mobilização pelo reestabelecimento da ordem sem discutir ideias de mobilização social, cobrança e fiscalização do poder público.

Os meios jornalísticos devem, como é dito nos estudos da área, agendar a sociedade para os problemas na prevenção e contenção das cheias, alagamentos e enchentes. Criar uma agenda pública de debates nas folhas dos jornais e nos programas jornalísticos e de informação. Ao invés dos jornalistas serem pautados pelas intempéries, os profissionais da redação poderiam pautar a sociedade com a busca de novas soluções. Não somente nos espaços opinativos, mas através de séries de reportagens, entrevistas e debates. (Como buscou fazer o Jornal de Santa Catarina – Blumenau – no dia 25 de setembro.) Chamar para a arena pública os movimentos sociais, as associações de moradores, a Defesa Civil, órgãos ambientais, técnicos e responsáveis pelas secretarias de urbanismo e desenvolvimento urbano, especialistas do campo acadêmico…

Agendar insistentemente (não só na semana seguinte) e propositivamente o público procurando soluções, conscientizando, educando. Sabemos que quando existem interesses (e nem sempre legítimos), os veículos são capazes de, como diz a teoria do agendamento, interferirem em que e como o público pensa. Talvez, agora seja o momento de agendar, insistir e aguçar o interesse público. Isso também é jornalismo.