Rogério Christofoletti
Professor de Jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

Houve um tempo em que os papeis estavam bem definidos. Os jornalistas saíam às ruas para colher informações, entrevistar pessoas, juntar dados dispersos, enfim, apurar. Retornavam às redações, selecionavam e hierarquizavam o que tinham e distribuíam para o público o noticiário do momento. As audiências confiavam aos jornalistas a tarefa de produzir aquele conteúdo elaborado, e por isso se abasteciam dele. As fontes de informação movimentavam-se dentro de um perímetro restrito: eram fornecedoras de matéria bruta. Cada elemento da equação informativa resignava-se com sua função e o jornalismo seguia seu caminho mais ou menos estável.

De uns tempos para cá (e não foi muito), o que parecia cristalizado voltou a vibrar. Com isso, a tarefa de oferecer informações deixou de ser exclusividade dos jornalistas, os públicos passaram a intervir cada vez mais nas etapas de produção e distribuição de conteúdos, e algumas fontes simplesmente ignoraram a liturgia dos veículos convencionais e passaram a se comunicar diretamente com as audiências.

Mercado e academia se debruçam sobre as muitas transformações que o jornalismo vem passando, tentando compreender os cenários que se redesenham e antecipar as tendências que devem novamente promover alguma estabilização das novas forças. Esses esforços todos inspiram uma impressionante quantidade de previsões – como a do fim dos jornais impressos -, e a eleição de outros focos de interesse – “novos modelos de negócio” se tornou o novo mantra. Empresas e pesquisadores também tentam rebatizar fenômenos na clara tentativa de congelar objetos tão dinâmicos e fugidios. Assim, se o público deixou a posição de mero receptáculo da informação e cada vez mais participa do processo comunicativo, produzindo conteúdos e interferindo nas gramáticas da sua circulação, ele não pode ser mais chamado só de “público” ou “audiência”. O cidadão comum que também contribui com o mosaico informativo é uma mescla do produtor e do consumidor de informações, ele é um “prosumidor”. Bem como o jornalista passa a ser considerado um “produtor de conteúdo”, já que o material que gera transcende os limites em que a informação jornalística estava confinada.

Nessa direção, “fonte de informação” também é uma expressão que já não dá mais conta da natureza e da função desse personagem no ecossistema midiático. O rótulo alude a alguém ou alguma instância onde o jornalista poderia ter acesso ao dado bruto de uma ocorrência. Um lugar onde o repórter poderia se servir, e a partir dali, formular uma narrativa que ajudasse a explicar a realidade. O conceito provocou o surgimento de expressões derivadas, entre as quais a carimbada “direto da fonte”, que nada mais era senão uma informação pura, sem interferência ou tratamento. Se o noticiário estivesse apoiado em informações “diretas das fontes”, mais condições tinha o público de acessar a verdade dos fatos, como o sujeito que bebe água direto da mina, líquido imaculado e cristalino que brota da natureza.

Fica nítido hoje que a expressão “fonte de informação” trazia em seu interior uma falácia desde sempre. Sabemos todos que as fontes têm lados e interesses; que podem omitir informações e enaltecer outras; que podem cometer erros de avaliação e julgamento; que estão sujeitas a confusões; que mesmo os documentos mais críveis podem ser resultado da disputas de versões; e que são frutos das ações de sujeitos humanos, portanto, frágeis na sua blindagem da verdade. Nossas fontes não eram o grau zero da informação, mas precisávamos estabelecer um ponto a partir do qual recolheríamos os fragmentos que nos auxiliariam a recompor o quebra-cabeças da realidade. Como ela, a realidade, é complexa, multifacetada e dinâmica, recorremos a um auto-engano para justificar nossas ações subsequentes.

Se a expressão “fonte de informação” sempre foi insuficiente, agora, ela parece mais desajustada ainda. Um punhado de episódios recentes sinalizam como é complicado classificar quem supre jornalistas e públicos de informações. Em julho de 2013, o programa Fantástico, da Rede Globo de Televisão, veiculou denúncias de que a National Security Agency (NSA, dos EUA) monitoravam empresas brasileiras, ministros e até mesmo a presidente da república Dilma Rousseff. Na série de matérias, o jornalista norte-americano Glen Greenwald era nominado como coautor da reportagem ao lado de Sonia Bridi. Ele recebera informações do ex-analista de informação da NSA Edward Snowden, e as estava repassando ao público brasileiro. Acontece que ao mesmo tempo em que assinava a matéria, Greenwald também era entrevistado pela colega brasileira, estratégia que torna porosos os limites entre os papeis de jornalista e fonte convencional de informação.

Na classificação a que estávamos habituados antes, o ex-analista de informação da NSA Edward Snowden é uma fonte, um vazador de informações. Ele teve acesso a dados secretos e, por motivos de convicção pessoal, decidiu ignorar seu compromisso profissional de confidencialidade para tornar públicas as informações que julgava mais importantes que sua ocultção. Foi como em outras tantas vezes: Mark Felt foi o “Garganta Profunda” dos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein na série de reportagens do Washington Post que ajudou a derrubar o presidente Richard Nixon na dé cada de 1970; na mesma época, Daniel Ellsberg vazou os chamados Pentagon Papers com segredos da Guerra do Vietnã ao New York Times e outros veículos; mais recentemente, Bradley Manning fez o mesmo, aproveitando sua condição de acesso a informações militares, ao abastecer o WikiLeaks com dados que permitiram conhecer publicamente segredos da diplomacia e das ofensivas norte-americanas.

O jornalismo se vale dos “vazadores” (whistleblowers, em inglês) para embasar denúncias e dar vozes autorizadas às narrativas. A maioria desses personagens atua como informantes, delatores, denunciantes, mas como classificar Julian Assange, o rosto à frente da iniciativa WikiLeaks? Ele é fonte de informação ou um agente midiático, que informa publicamente através do maior site de vazamentos do mundo? WikiLeaks é um banco de dados de empresas e governos ou um modelo para veículos informativos na era do Big Data? Ao se associar a The Guardian, The New York Times, El País, Le Monde e Der Spiegel, em novembro de 2010, para tornar públicos mais de 250 mil documentos secretos do governo norte-americano, Julian Assange atuou apenas como vazador ou como editor?

No livro “This machine kills secrets”, o jornalista Andy Greenberg oferece uma bem contada história recente desses vazadores e como tal atividade vem evoluindo com a informática, a criptografia e o hackerismo. Os também jornalistas David Leigh e Luke Harding narram como os mais influentes veículos impressos do mundo negociaram com o WikiLeaks para uma operação consorciada do maior vazamento de dados da história. Contam também como a redação do The Guardian teve que se adaptar e se preparar para lapidar a quantidade monumental de dados brutos, atentando para questões éticas próprias dos veículos jornalísticos (e geralmente ignoradas por vazadores). Sim, e aqui está o ponto que mais me interessa nessa discussão toda em torno do que antes chamávamos de “fontes”. Saber o que elas são e até onde atuam é condição fundamental para que os jornalistas decidam como se relacionar com elas. Compreender quais as suas motivações e medir seus alcances e influências é também essencial para delimitar qualquer aproximação.

Nos casos mencionados, Glen Greenwald e Julian Assange não só fornecem dados para uma história, mas participam da estrutura das narrativas e se preocupam com a sua distribuição. Não existe medida exata e única que deva separar o repórter de sua fonte. O primeiro precisa se aproximar da segunda para extrair dados, conhecer versões, apropriar-se de visões de mundo. Não pode ficar alheio a ela, sob pena de não ter acesso ao que busca. Também não pode se aproximar tanto a ponto de se misturar a ela, espelhando uma visão unilateral, em detrimento de algo mais amplo. Certamente nos dois casos, os staffs jornalísticos estavam cientes desse dilema, mas decidiram correr certos riscos.

Ouso pensar que os episódios mencionados não serão histórias isoladas. Mais vazamentos virão e não apenas com o WikiLeaks, pois já existem empreendimentos análogos em funcionamento por aí, alguns até mesmo patrocinados por veículos convencionais de informação (vejam o FolhaLeaks e a Safe House, do Wall Street Journal). Governos, empresas e outras organizações ainda se esforçarão em manter ocultas informações de seus interesses, e jornalistas e outros atores sociais tensionarão pela publicidade desses atos. Informantes e vazadores terão, cada vez mais, condições técnicas de prescindir de repórteres e empresas jornalísticas para tornar públicas histórias antes desconhecidas.

Se os veículos e os profissionais de informação não quiserem ficar alijados desse processo, será necessário repensar as formas como se relacionam com as tais fontes. Como devem tratá-las? Como podem se mostrar confiáveis a elas? Que restrições éticas poderão impor em seus acordos? Estarão em posição de fazer tais exigências? Em nome do que vão compor parcerias com elas? Como vão preservar suas credibilidades diante desses novos arranjos?

Sim, essas perguntas não têm respostas fáceis ou prontas. E qualquer pessoa com um mínimo de juízo pensaria muitas vezes antes de tentar respondê-las. No fundo, qualquer pessoa ajuizada também teria muita saudade do tempo em que os papeis de jornalistas, públicos e fontes estavam bem definidos, mas isso faz parte do passado.