Elaine Manini
Mestranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do ObjETHOS

A falta de crença no jornalismo é questão de muitos pesquisadores da área e do público em geral que ainda parece estar longe de ser superada. Receber um diploma de jornalismo no Brasil logo após sua derrocada, há cinco anos, despertava ao menos um mínimo de receio dos estudantes. Um dos discursos tranquilizadores dos docentes dizia respeito ao preparo dos formados, como valor-agregado. Diante de um mercado multimidiático concorrido, a contratação de pessoal qualificado, preparado para as novas mídias, prevaleceria. O fato é comprovado em muitos casos, em especial nas maiores empresas jornalísticas. Porém todas essas habilidades em nada alteram a corda bamba do sentido da profissão jornalística, colocada em questão.

Na mídia, o tema credibilidade está relacionado à aceitação do público. A aceitação pode abranger dois sentidos:  o da confiança, a capacidade de acreditar naquilo que está sendo relatado; e o sentido mercadológico da capacidade de despertar interesse. Com relação ao primeiro sentido, a título de exemplo pode-se comparar um jornalista sem credibilidade a um professor ou cientista sem conhecimento, um perfumista sem olfato, ou ainda um engenheiro civil sem prumo. São características essenciais das profissões, que motivam a procura de um profissional da área a qualquer outra pessoa. O professor é procurado por conta do seu conhecimento. O olfato debilitado de um perfumista faria qualquer um procurar qualquer outra pessoa para opinar sobre o aroma de algo. Um engenheiro sem senso de equilíbrio dificilmente seria contratado. Da mesma forma, um jornalista que perde sua credibilidade perde seu valor profissional e sua informação deixa de ser diferenciada. Por credibilidade jornalística compreende-se aqui não só o compromisso com a checagem dos fatos mas também o compromisso social com a informação pública indo um pouco além inclusive do interesse, admitindo-a como um direito de todos.

Retomando o termo aceitação, considerando o segundo sentido, diz-se que tal produto teve ou não aceitação no mercado, e assim ele recebe investimento ou é retirado de linha. Localiza-se aqui uma das maiores preocupações das empresas de mídia: o concorrente virtual. Com o boom da informação na era virtual, as empresas desdobram-se e investem em diferentes recursos para atrair leitores, mas a ampla e crescente disponibilidade de informações somada ao poder de seleção direta do público através da interatividade multiplicam o número de usuários da world wide web. Na contramão os veículos tradicionais perdem espaço. Um fato recente exemplifica essa preocupação: o site de maior crescimento na internet trabalha com informações de interesse social e público e não possui jornalistas em sua equipe. O Upworthy foi lançado em 2012 e em novembro passado contabilizou 87 milhões de visitas, gerando 17 milhões de compartilhamentos no Facebook com 225 artigos publicados. A comparação divulgada por Emir Sader em seu blog no portal Carta Maior sobre este assunto é de que o número de visitantes do The New York Times é quase três vezes menor e de que o Yahoo! produz mensalmente 115 mil artigos e gera menos de 4 milhões de compartilhamentos.

As publicações do Upworthy possuem todas a mesma estrutura: duas frases curtas apresentam e trazem à tona algum tema de cunho social com um vídeo em formato variado, com algum protesto ou entrevista de famosos sobre um tema polêmico. O site é organizado em tópicos de conteúdo, como as seções. Conforme descrição no site, a missão é divulgar temas sérios e ao mesmo tempo divertidos. O público-alvo são pessoas que se preocupam com o que acontece no mundo, mas que ao mesmo tempo não querem ser “chatas com isso”. A equipe se identifica como um grupo desorganizado de rufiões. Entretanto, comprometidos com várias causas sociais, seria o Upworthy um exemplo a ser seguido pelo jornalismo? Se sim, o que justificaria uma formação acadêmica para tal função?

Desde o surgimento das novas mídias a já velha discussão do fim do impresso, da rádio, da Tv, das redes sociais que rapidamente são superadas por outras, trata do fim dos meios antigos e culmina na questão do fim do jornalismo propriamente dito. Um dos argumentos mais fortes em defesa da profissão está no compromisso com a informação pública e com a credibilidade. Maculando-se tais valores, na era da informação, o jornalismo torna-se algo frágil, posto que deixa de lado sua essência, perde sua identidade, descarta sua deontologia. A sociedade não precisa apenas de um jornalismo que faça mais do mesmo utilizando as ferramentas de sucesso de outros serviços de comunicação, como por exemplo reproduzir a composição do casal de mocinhos da telenovela das nove no casal simpático de âncoras do telejornal. Precisa de mais do que isso, mais do que atração. Há o que aprender com o sucesso do Upworthy além da forma? Sem dúvida. O senso crítico presente nas reivindicações por mudança social condizem com o que deve movimentar a prática profissional jornalística. O que difere o jornalista é o seu compromisso com tal informação. Vai além da denúncia, com “potencialidades emancipadoras, como a de qualificar o sentido comum de entendimento social sobre o entorno imediato, sobre o passado que se acumula no presente” (KARAM, 2004: 260). O jornal não precisa se retorcer para ganhar as massas, ou satisfazer seu público, a fim de competir com um viral da internet. Não é esta a sua natureza. Do contrário, cursos técnicos de redação multimídia bastariam e não haveria razão de existir formação acadêmica para isso. O que justifica a manutenção da profissão é muito mais do que o aprimoramento das técnicas, investimentos que muitos veículos insistem em priorizar. A preocupação em manter os valores bases do jornalismo mesmo diante de uma concorrente “ameaça viral”, é essencial. É dessa forma que admitir o importante papel do Upworthy não compromete o jornalismo, que mantém o seu.

Referência:
KARAM, Francisco José Castilhos. A ética e o interesse público. São Paulo, Summus editorial, 2004.