Rogério Christofoletti
Professor de jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

Como você pretende estar em 2039, daqui a 25 anos? Como estarão organizadas as nossas sociedades no planeta? De que maneira as pessoas vão se divertir, buscar informações, organizar-se e tomar decisões?
É difícil responder com precisão a cada uma dessas perguntas, mas há quem não só se preocupe com isso mas também queira ajudar a determinar cada uma dessas condições. Vinte e cinco anos é mais ou menos a duração de uma geração, o que sinaliza uma medida para nossas ocorrências. A World Wide Web está completando 25 anos em 2014 e já é possível observar algumas das muitas transformações humanas decorrentes desse evento. São mudanças na comunicabilidade humana, na nossa sociabilidade, na maneira como nos relacionamos com o conhecimento, a informação e os ambientes que habitamos. E um detalhe importante: não apenas assistimos a tais modificações como temos participado delas, fazendo escolhas, alterando hábitos, aderindo a protocolos, aceitando situações ou delegando poderes.
A web – é preciso reconhecer – tem características que muito a diferenciam de qualquer outro empreendimento humano coletivo na história. A rapidez de sua disseminação, o alcance e a profundidade das mudanças que vem provocando, tudo isso, reforça esse entendimento. Mas a web é um ambiente tão distinto dos demais mercados de mídia? Tim Wu, professor da Escola de Direito da Universidade de Columbia (EUA), resiste em responder a pergunta de uma forma definitiva. Em “Impérios da Comunicação: do telefone à internet, da AT&T ao Google”, o especialista analisa um século da evolução da indústria norte-americana e de como invenções como o telefone, o cinema, o rádio, a televisão e a internet se inseriram na vida social contemporânea de uma forma tão intensa, rentável e poderosa. Monopólios, oligopólios, roubos de patentes, cartelização, violações de direitos autorais e todo tipo de trapaça são listadas para mostrar como grandes conglomerados se formaram, como dominaram mercados inteiros e como se perpetuaram por décadas. Sob as barbas dos governos, em conjunção carnal com eles e a despeito de seus interesses contrariados. Com os gigantes Google e Facebook, a internet é diferente? Se formos pensar no poder que apenas esses dois impérios têm, veremos que eles ignoram fronteiras geográficas, linguísticas, sociais, financeiras, culturais. Que lançam mão de estratégias agressivas para se apossar de fatias generosas dos mercados consumidores, ao mesmo tempo em que buscam anular suas concorrências e ganhar os corações e mentes de seus clientes/usuários.

Terra de gigantes
Professor Wu, com a web é diferente? Assistiremos a um mercado mais equilibrado, não concentrado, aberto à concorrência? Ele reconhece que agora o público tem um poder muito maior do que já teve, mas só isso não basta. “Quando escolhemos as opções mais convenientes, cedemos coletivamente o controle às grandes empresas baseados numa série de pequenas escolhas cujas consequências mal levamos em conta. Nossos hábitos têm muito mais poder que as leis para moldar o mercado”, explica Tim Wu.
Eli Pariser, em “O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você”, faz revelações assustadoras sobre como Facebook, Google, Amazon e outras tantas empresas da web se valem dos dados de seus usuários para criar um sistema de circulação de informações que retroalimenta infinitamente os seus ganhos e presenças no mercado. A tese do autor é simples: todo internauta oferece dados pessoas em sua navegação e esses traços ajudam a compor complexos perfis consumidores que serão consultados pelas maiores empresas do ramo. Quanto mais completo estiver o perfil desse usuário, mais condições as empresas terão de lhe oferecer produtos e serviços conforme seus gostos e hábitos. A publicidade dirigida se apoia no detalhamento das informações sobre o comportamento do consumidor, na relevância desses dados e na oferta de praticidade e conveniência. Que pessoa não quer receber ofertas que tenham a sua cara, ao invés das toneladas de anúncios para todos os públicos?
Pariser alerta que as grandes empresas hoje estão criando uma bolha de filtros invisíveis que fecham a web cada vez mais em torno do usuário. Se a ideia da rede era poder conectar uma pessoa a qualquer outra (mesmo desconhecida), agora cada internauta encontra apenas o que está buscando (ou o que acha que necessita). Os resultados de uma mesma busca no Google são distintos para duas pessoas. Graças a dispositivos informáticos, os sistemas “identificam” e “lembram” de suas pesquisas mais recentes, seus hábitos de navegação, suas características e oferecem os resultados mais próximos de sua conveniência ou raio de interesse. Pode parecer prático, mas também é nefasto, já que oculta parte que pode ser relevante dos resultados. O serviço – que antes se pensava ser desinteressado, técnico – revela-se sensível a influências mercadológicas, a fatores desconhecidos.
A cada operação na web, deixamos rastros e dados sobre quem somos, onde estamos, o que queremos. Imagine a imensa quantidade de dados que você oferece todos os dias com suas buscas no Google, com os e-mails que dispara do Gmail (ou qualquer serviço semelhante), com as curtidas que deu no Facebook, com as estrelinhas que deu para os livros que comprou na Amazon, com as notas que deu ao vendedor do Mercado Livre, entre outras ações. Se existe um mercado customizado de produtos como roupas ou livros, como evitar que haja também algo parecido com o seu noticiário?

Moldando o futuro
Quando se trata de informação jornalística, o assunto fica mais sério. Afinal, este é um tipo de produto que ajuda o cidadão comum não apenas a se atualizar sobre o que acontece na sua comunidade como também permite que ele compreenda como funciona aquele ecossistema e tome decisões sobre os rumos dele. Isto é, o noticiário ajuda a entender o que está se passando e o que se pode fazer para mudar as coisas. Por isso, discutir o futuro imediato das sociedades é também pensar sobre as nossas próximas decisões políticas, tecnológicas e culturais. E isso não se posterga.
No mesmo ano em que a web completa o seu primeiro quarto de século, acontece em São Paulo o Encontro Multissetorial Global sobre o Futuro da Governança da Internet, o NetMundial. O evento é uma oportunidade para reunir empresas, governos, organizações e usuários do planeta inteiro para definir políticas para a web, de maneira a poder moldar boa parte de seu perfil num futuro próximo. Marcado para os dias 23 e 24 de abril, o NetMundial vai colocar nas mesmas mesas gente como governantes mundiais e gênios da computação, internautas e ativistas, empreendedores e investidores. Um documento de base foi elaborado a partir de consultas públicas, e chegou a receber mais de 180 contribuições de quase cinquenta países. É este documento – veja aqui – que vai orientar os debates para a definição de princípios de governança da internet e um roteiro de evolução futura dessas bases.
Estão em pauta temas como liberdade de expressão e de informação, acessibilidade, privacidade, diversidades cultural e linguística; segurança e estabilidade da internet, arquitetura aberta e distribuída, inovação e criatividade; governança aberta e participativa, transparência e confiabilidade; colaboração, inclusão e igualdade; agilidade e padrões abertos. São aspectos importantes para definir limites, contrapartidas, responsabilidades, deveres e direitos de usuários, empresas, governos e demais interessados. Não é pouca coisa e interessa a todo o mundo, todos os usuários de internet e principalmente aos jornalistas.
Por quê?
Porque um encontro como este ajuda a decidir como pode funcionar a web e para onde ela vai se orientar nos anos seguintes. Porque as escolhas que surgirem do NetMundial e que forem implementadas vão ajudar a desenhar os mercados de informação e comunicação onde o jornalismo se insere. Porque as definições de público, usuário, cliente ou consumidor de informação estão mudando e se fundindo, e os jornalistas precisam saber para quem estarão trabalhando. Porque a web é o grande terreno onde novas relações estão sendo engendradas entre jornalistas e audiências, a exemplo de participação ativa e colaboração. Porque uma rede mundial de computadores em contínua mutação e aprimoramento requer melhores serviços de informação (entre os quais a jornalística). Porque novos parâmetros éticos e novos valores podem surgir a partir das emergentes relações entre os diversos grupos envolvidos nos processos comunicativos on line. Por essas razões e outras mais, os jornalistas devem estar atentos ao NetMundial. Se ficarem míopes diante de um acontecimento como este, não vão perder apenas boas notícias. Vão perder também a oportunidade de participar dos debates e das decisões que afetam inexoravelmente a sua profissão e seu campo de atuação.
Volto a perguntar: Como você pretende estar daqui a 25 anos? Como estarão organizadas as nossas sociedades no planeta? De que maneira as pessoas vão se divertir, buscar informações, organizar-se e tomar decisões? O NetMundial não resolve todas essas questões, mas certamente nos motiva a pensar em possíveis respostas.

Referências
PARISER, Eli. O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você. RJ: Jorge Zahar, 2012.
WU, Tim. Impérios da Comunicação: do telefone à internet, da AT&T ao Google. RJ: Jorge Zahar, 2012.

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