Elaine Manini
Mestranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Há 16 dias da copa do mundo, os grandes veículos jornalísticos dividem sua ocupação entre os assuntos das festividades, as preparações, as especulações, os históricos das outras edições, perfis de craques do futebol, e as questões de denúncias de corrupção, da falta de infraestrutura, a fiscalização das obras, os onerosos custos aos cofres públicos, as boas e más decisões do governo, como tem sido desde 2007 quando o país foi eleito para sediar o evento. Em meio ao que é de praxe no jornalismo a Pública, agência experimental que tem se destacado dentre as novas iniciativas surgidas na web, possui uma seção intitulada Copa Pública com algumas pautas instigantes e com isso fornece demonstrações que parecem se aproximar daquilo que se chama jornalismo de interesse público, tratando de temas que partem de experiências sociais.

Um dos casos mais inesperados é o da matéria Não vai ter copa que fala sobre dois agricultores, Fortunato da Silva e Antônio Preto, moradores do agreste cearense, brasileiros que nunca ouviram falar em copa do mundo e nem sequer reconhecem a camisa amarela da seleção canarinho. O fato simbólico é resultado da adoção da prática de jornalismo colaborativo pela agência, através do lançamento de quatro microbolsas de R$ 4 mil para jornalistas que tivessem interesse em abordar como a população brasileira é afetada pelos preparativos da Copa. A matéria fala das dificuldades de brasileiros que não têm acesso à energia, presentes não apenas no agreste nordestino mas em todos os estados do país. Apesar da proximidade com uma linguagem de release pró-governo, que dá “graças” ao Programa Energia para Todos, a matéria levanta realidades impensadas que proporcionam ao leitor reavaliar os assuntos referentes à copa a partir do ponto de vista de cidadãos brasileiros completamente ausentes à ela, que longe estão [e nem sentem necessidade] de serem considerados cidadãos do país do futebol. A pouca distância dali, no mesmo estado, a reportagem em quadrinhos Meninas em jogo, trata do aumento da exploração sexual no Ceará com o advento da Copa. A reportagem denuncia que em Fortaleza o principal ponto de encontro entre garotas brasileiras e estrangeiros ocorre em uma casa noturna atrás da delegacia de proteção ao turista, que tem seus arredores rodeados por meninas impedidas de entrar na boate por serem menores de idade.

Outro exemplo de algo que não se costuma ver na grande mídia está em Você sabe lá o que é abrir mão de uma vida?, uma das reportagens que aborda o tema das remoções. Trata-se da história de uma família de 14 membros, que residia na área rural de Recife e teve de passar por um processo conturbado de desapropriação por conta das obras de mobilidade da copa. Sem registro da propriedade a família que tem apenas três pessoas com renda fixa e praticava agricultura de subsistência precisou se dispersar em diferentes bairros da cidade e a viver de aluguel. A indenização deve sair após o processo de reconhecimento da venda da propriedade, em 1990, pelos filhos do ex-dono do terreno, que já é morto. Por conta disso, a família foi obrigada a deixar a moradia sem possibilidade de apresentar contraproposta e renegociar com o governo, como normalmente ocorre nesse tipo de situação. Outro caso semelhante é abordado em Fim da feira do Mineirinho?, tradicional feira de artesanato existente desde 2003 em Belo Horizonte, no ginásio Mineirinho ao lado do estádio Mineirão. De acordo com a reportagem a Feira está com suas atividades paradas desde o dia 21 de abril e os 400 expositores (4 mil empregados) reclamam por não haver soluções satisfatórias apresentadas pelo governo às suas reivindicações.

No norte do país, a reportagem Sem copa verde levanta a questão do risco turismo com o fato da previsão de Manaus receber 18 mil turistas e possuir apenas 14 mil leitos em hotéis. Junto com a questão dos gastos nas obras para o estádio em um estado que não possui forte tradição e público posterior à copa que justifiquem tamanho investimento, mostra a necessidade de investimentos em políticas públicas para problemas como a falta de água tratada em alguns bairros da capital da floresta tropical e o fornecimento de melhores condições de moradia para pessoas que residem em palafitas precárias com graves riscos de acidentes e desmoronamento. Na grande São Paulo, a realidade de times de base e garotos que trabalham duro para conseguir uma carreira profissional de jogador é retratada em Os boias-frias do futebol.

As reportagens aqui levantadas são exemplos de assuntos e abordagens não comuns na mídia tradicional. Quando se discute qualidade jornalística, uma das principais questões refere-se à contextualização dos fatos. As relações estabelecidas entre fatos inusitados e um dos maiores eventos do esporte mundial indicam essa contextualização com um olhar diferenciado. São casos que representam foco na sociedade, foco nas minorias que costumam ser ausentadas e ficar à margem das coberturas, soterradas por um mundo de acontecimentos e pessoas que parecem ter um peso e importância muito maior do que outras. Analisando os textos citados da Pública, como em outras análises de veículos tradicionais, encontra-se sim o que melhorar – o que apurar mais, outras fontes a serem ouvidas e maiores cuidados com uma linguagem mais neutra em alguns casos que forneçam ao texto um tom mais jornalístico (que busque uma certa isenção, embora saibamos que ela não seja de todo possível e nem desejável) ao invés de divulgação que apenas publique acontecimentos condizentes com o posicionamento do repórter/veículo (notícia com características de release), entre outras observações possíveis de serem feitas. No entanto, vale a menção sobre o levantamento de pautas que representam bons exemplos de jornalismo, capazes de surpreender leitores e servir de argumentos que ajudem a sustentar a defesa da profissão. Diferente das grandes interrogações divulgadas pela grande mídia sobre as proporções dos manifestos que levaram a população às ruas, as reportagens da Pública a partir da realidade vivida nas ruas parecem tornar possível compreender as origens das revoltas e não divulgá-las como algo extra-ordinário, mas pautadas dentro de uma ordem de assuntos sociais ignorados. É cabível acreditar que as reportagens citadas acima respondem a esse recado e tornam possível o que hoje se tornou algo raro no meio acadêmico: uma crítica positiva à prática do jornalismo.