Francisco José Castilhos Karam
Pesquisador do objETHOS e professor na Universidade Federal de Santa Catarina

A democracia não abre mão de críticas. Nem de vaias. A diferença da democracia para a ditadura, entre outras, é o espaço da liberdade que uma garante e que outra sufoca.

De um lado, as vaias de baixíssimo nível à presidente Dilma Rousseff, na abertura da Copa do Mundo 2014, no Itaquerão, em São Paulo, garantem àqueles que vaiam um espaço para poder tranquilamente ir para casa e não serem importunados com prisões, cassações, torturas ou perseguições à família e ao entorno afetivo, familiar ou político. Na ditadura, uma vaia a um (a) presidente, ainda que coletiva e iniciada pela elite que em eras recentes também apoiou a ditadura – e dela se beneficiou para construir carreiras políticas ou pessoais – dificilmente escaparia de uma revanche , ainda que na calada da noite.

Eleita pela maioria dos votos do povo brasileiro, Dilma Rousseff – a que lutou pelo espaço de liberdade e foi torturada por isso; a que sofreu nos porões da ditadura e sofreu humilhações físicas, morais e emocionais – recebeu vaias hegemonizadas e orquestradas por aqueles que nunca lutaram, efetivamente, pelo espaço da liberdade política, pessoal e ideológica hoje vivida.

Na construção da liberdade, Dilma foi um exemplo; na destruição da liberdade, a elite brasileira foi um paradigma e um exemplo a não ser seguido. Tal “elite” estava bem representada na abertura da Copa em 12 de junho, já que seu acesso ou era gratuito ou a “peso de ouro”, coisa inimaginável para a grande maioria da população brasileira, beneficiada com o bolsa família, com o acesso mais igualitário ao ensino público mas não beneficiária de poder aquisitivo para adentrar a um estádio na maior competição futebolística do planeta. Elitismo não significa democracia e riqueza não representa boa educação, no máximo acesso a lugares e ambientes que outros não conseguem experimentar.

Simulação da liberdade e resposta imediata

O importante, quem sabe, é que nem a mídia foi homogênea no amparo às vaias e nem as vaias ficaram sem resposta, cenário facilitado pelas redes sociais e pela resposta do público – não da “elite”. Ainda que parte minoritária dela tenha se envergonhado do episódio, o uso político das vaias para a eleição que vem logo após a Copa fez calar várias pessoas e mídias, mas ainda bem que outros vários jornalistas e meios tomaram posição a favor do espaço da liberdade tão duramente conseguido e tão equivocadamente utilizado por quem só vê problemas no governo – nunca mérito algum -, apesar dos índices de sobrevivência, longevidade e educação terem melhorado substantivamente – e os dados estão disponíveis – nos últimos 10 anos.

Assim, as redes sociais, a resposta on line às vaias, a manifestação de vergonha de parcela da população acena para um momento em que: a) a resposta é mais imediata; b) não depende dos meios tradicionais; c) fiscaliza os meios tradicionais e sua repercussão; d) constrói outros discursos; e) a audiência ou público tem mais opções; f) a liberdade de opinião não é mais privilégio de um ou outro setor; g) o espaço de liberdade existe como nunca no Brasil, ainda que sua democracia seja recente e a de mais longa duração da história da República; h) não se pode perder tal espaço; i) deve-se lutar para que aqueles que sufocam a liberdade não retornem ao Poder político nas próximas eleições, evitando que a “elite”, ao chegar ao Poder de governo, impeça a investigação da corrupção como tem sido feito nas últimas três gestões do País – é só verificar a atuação da Polícia Federal, do Ministério Público e a liberdade do Supremo Tribunal Federal.  Aqueles que os elogiam hoje , como a “elite”, já no Poder facilmente abrem mão da liberdade para defender seus interesses particulares e seu bolso. E rapidamente esquecem para quê serve a liberdade, inclusive a de imprensa; e para quê serve a investigação via organismos constitucionais do Estado, que deve investigar também os corruptores, grande parte representada pelos que vaiaram Dilma Rousseff. A preocupação principal da “elite” é com uma democracia conveniente a si mesma, ainda que a palavra democracia seja apenas um conceito vazio ou gelatinoso para ela.

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